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Ground control to Major ToM

"This is ground control to Major Tom

You've really made the grade

And the papers want to know whose shirts you wear

Now it's time to leave the capsule if you dare"


David Bowie in Space Oddity


“Ground Control to Major Tom…”


David Bowie escreveu uma canção sobre um astronauta que se afasta lentamente da Terra. À medida que se distancia, a comunicação torna-se mais difícil. As vozes deixam de se encontrar. Não porque uma delas tenha desaparecido, mas porque ambas habitam agora referenciais diferentes.


Talvez, sem o sabermos, esta tenha sido durante décadas a história da investigação em autismo.


Durante mais de quarenta anos acreditámos que o problema residia exclusivamente no astronauta.


Ontem, Simon Baron-Cohen surpreendeu muitos de nós ao reconhecer publicamente que a designação Extreme Male Brain, proposta em 2002, poderá ter contribuído para uma visão excessivamente redutora do espectro do autismo. Reconheceu igualmente que essa formulação poderá ter tido consequências profundas na investigação, na prática clínica e na forma como a sociedade passou a imaginar uma pessoa autista.


Não se trata apenas de uma revisão terminológica. Trata-se de reconhecer que uma hipótese científica, por mais elegante que pareça, pode orientar durante décadas a forma como olhamos para milhares de pessoas.


Durante muito tempo procurámos sobretudo o autismo nos homens. O autismo feminino tornou-se quase invisível. Muitas mulheres cresceram décadas sem diagnóstico, desenvolvendo estratégias sofisticadas de camuflagem, vivendo sucessivos episódios de ansiedade, depressão, burnout e um profundo sentimento de inadequação, simplesmente porque o modelo científico dominante lhes dizia que o autismo tinha outra aparência.


Ao mesmo tempo, consolidou-se outra ideia que ainda hoje permanece profundamente enraizada no imaginário coletivo: a de que as pessoas autistas seriam pessoas sem empatia.

Uma simplificação que talvez tenha sido uma das mais injustas da história recente da psicologia.


Poucas semanas antes desta declaração de Simon Baron-Cohen, também Uta Frith surpreendeu a comunidade científica ao afirmar que já não se revê inteiramente na forma como o conceito de Fenótipo Alargado do Autismo foi inicialmente conceptualizado.


As reações foram intensas. Houve quem interpretasse estas palavras como uma retirada. Outros viram nelas um gesto de humildade científica. Outros ainda sentiram que chegavam demasiado tarde para reparar décadas de sofrimento provocado por determinadas interpretações clínicas.


Independentemente das emoções que estas declarações suscitam, elas representam algo raro na ciência. A capacidade de rever as próprias ideias. E talvez seja precisamente isso que distingue uma teoria científica de um dogma.


A ciência não existe para proteger hipóteses. Existe para as colocar permanentemente em risco. Foi precisamente isso que aconteceu, ao longo da última década, com uma das teorias mais influentes na história do autismo: a Teoria da Mente.


Desde os trabalhos de Premack e Woodruff, passando pela formulação de Baron-Cohen, Leslie e Frith na década de oitenta, a Teoria da Mente tornou-se praticamente o eixo central para explicar as dificuldades sociais das pessoas autistas.


A hipótese parecia convincente. Se uma pessoa apresenta dificuldades em representar aquilo que outra pessoa pensa, sente, acredita ou pretende, então será natural que encontre dificuldades nas interações sociais. Durante décadas esta explicação pareceu suficiente. Talvez demasiado suficiente.


Porque lentamente começámos a perceber algo desconfortável. Muitos adultos autistas passam nos testes clássicos de falsa crença. Compreendem sarcasmo. Percebem ironia. Interpretam metáforas. Reconhecem intenções. Desenvolvem relações profundas. São terapeutas. São professores. São investigadores. São pais. São mães.


Se a ausência de Teoria da Mente fosse verdadeiramente o mecanismo central do autismo, como explicar tudo isto? Talvez a pergunta nunca tenha sido a correta. Nos últimos anos, vários investigadores começaram a distinguir dois processos que durante muito tempo tratámos como se fossem exatamente o mesmo.


Uma coisa é possuir capacidade para representar estados mentais. Outra muito diferente é conseguir inferi-los rapidamente, em tempo real, num contexto social complexo, carregado de ambiguidade, emoção, ruído sensorial e experiências anteriores. Esta distinção parece subtil.


Na realidade poderá alterar profundamente toda a nossa compreensão do autismo. O chamado Mind-space Framework propõe precisamente essa mudança. Em vez de imaginar a Teoria da Mente como um interruptor que existe ou não existe, propõe imaginá-la como um sistema probabilístico de navegação entre diferentes mentes.


Cada pessoa constrói, ao longo da vida, um enorme mapa interno onde aprende como diferentes pessoas costumam pensar, reagir e decidir. Quando encontramos alguém, tentamos localizá-lo nesse mapa. A partir daí fazemos previsões. Inferimos intenções. Estimamos emoções. Antecipamos comportamentos.


Não porque consigamos ler mentes, mas porque aprendemos padrões. O problema surge quando o mapa onde fomos treinados deixa de corresponder ao território. Uma pessoa autista cresce, quase inevitavelmente, rodeada por mentes neurotípicas. Todo o sistema de inferência social é treinado utilizando exemplos que pertencem maioritariamente a um funcionamento diferente do seu.


Talvez por isso o desafio não seja uma incapacidade de mentalizar. Talvez seja um problema de calibração. Talvez estejamos simplesmente perante dois sistemas cognitivos que aprenderam a navegar utilizando mapas diferentes.


É precisamente aqui que o Problema da Dupla Empatia, proposto por Damian Milton, ganha uma força extraordinária. Durante décadas perguntámos por que razão as pessoas autistas tinham dificuldade em compreender pessoas neurotípicas. Muito raramente perguntámos o inverso.


Por que razão as pessoas neurotípicas compreendem tão mal as pessoas autistas? Hoje sabemos que a dificuldade é recíproca. Quando investigadores pedem a participantes neurotípicos para inferirem estados mentais de pessoas autistas, os seus desempenhos diminuem significativamente. Subitamente deixa de existir um grupo que compreende perfeitamente o outro. Passam a existir duas culturas cognitivas que comunicam através de códigos parcialmente diferentes.


Ground Control continua a chamar Major Tom. Mas Major Tom também tenta responder. E talvez ambos estejam convencidos de que é o outro quem não está a ouvir. Esta mudança de perspetiva obriga-nos igualmente a olhar com maior cuidado para os próprios instrumentos que utilizámos para validar a Teoria da Mente.


Muitos testes clássicos avaliam simultaneamente reconhecimento emocional, interpretação afetiva e inferência cognitiva, assumindo que tudo isto corresponde ao mesmo construto psicológico. Sabemos hoje que não corresponde.


A elevada prevalência de alexitimia em pessoas autistas pode comprometer o reconhecimento e a descrição das emoções, sem que isso implique qualquer dificuldade em compreender crenças, intenções ou objetivos dos outros. Durante anos confundimos emoção com mentalização.


E talvez tenhamos medido mais alexitimia do que Teoria da Mente. Também os tradicionais testes de falsa crença revelam limitações importantes. Muitos avaliam situações artificiais, com respostas definidas segundo consensos neurotípicos, assumindo que existe uma única interpretação correta para contextos sociais que, na vida real, são frequentemente ambíguos.


A própria neuroimagem levanta hoje questões semelhantes. Diferenças na ativação cerebral não significam necessariamente défices. Podem refletir estratégias cognitivas distintas, maior eficiência em determinados processos ou simplesmente diferenças neurobiológicas que os métodos atuais ainda não conseguem interpretar de forma inequívoca.


Talvez este seja o verdadeiro momento histórico que estamos a viver. Não o abandono da Teoria da Mente. Nem a sua confirmação definitiva. Mas a sua maturação.


As grandes teorias científicas não desaparecem. Transformam-se. Refinam-se. Integram novos dados. Tornam-se mais humildes perante a complexidade do fenómeno que procuram explicar.


O autismo nunca foi uma ausência de humanidade. Nunca foi uma ausência de empatia. Nunca foi um cérebro defeituoso incapaz de compreender os outros. Talvez tenha sido, desde o início, uma história sobre diferentes formas de construir significado, diferentes formas de prever o comportamento humano e diferentes maneiras de navegar entre mentes.

Como na canção de Bowie, talvez durante demasiado tempo tenhamos assumido que o silêncio significava ausência de resposta.


Hoje começamos finalmente a admitir uma hipótese diferente. Talvez a comunicação nunca tenha falhado apenas de um dos lados. Talvez o problema tenha sido sempre o canal.


Porque, afinal, quando a distância entre duas formas de pensar aumenta, não é apenas Major Tom que deixa de ouvir a Terra.


A Terra também deixa de compreender Major Tom.


 
 
 

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