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Good old 50's

Em março do próximo ano completo 50 anos. Não, não vou partilhar com vocês o quanto possa estar a ficar mais nostálgico ou a desconfiar de estar a entrar numa crise de meia idade!


Pensei nisso porque cada vez mais vou tendo em consulta pessoas com 50 anos ou mais e que chegam nesta idade com a pergunta - Afinal quem sou eu? Sendo que esta pergunta traz outras questões associadas. Por exemplo, Se afinal o meu diagnóstico de ansiedade não me tem ajudado a compreender, então o que é que eu tenho? Será que afinal aquilo que eu tenho é um diagnóstico de autismo? E se é um diagnóstico de autismo, então como é que eu me compreendo? Sejam as perguntas que vão trazendo estas pessoas à consulta de psicologia, mas também todas as outras que vão entretanto surgindo. Por exemplo, quando é confirmado um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo a partir dos 50 anos, as pessoas questionam-se - E agora? E agora como é que eu vou fazer? E se eu sempre pensei que era uma coisa, mas afinal descubro agora que sou outra!?


Para além do processo de avaliação de uma Perturbação do Espectro do Autismo e posteriormente desenhar em conjunto com a pessoa um processo de intervenção orientado para as suas necessidade. Muito do que se vai vivendo no processo de acompanhamento de uma pessoa autista adulta e que tenha descoberto o seu diagnóstico na vida adulta, as questão muito frequentemente trazidas dizem respeito à sua identidade. Àquela que foi sendo construída até saber o diagnóstico e qual aquela que será possível de construir a partir dali. Até porque antes do diagnóstico, e normalmente na adolescência e no início da idade adulta, uma parte considerável das pessoas autistas passou por um processo de percepção e reconhecimento da sua diferença em relação aos pares. E de seguida, tomaram medidas para reduzir a visibilidade dessa diferença para melhor se “integrarem” socialmente. E ainda que as pessoas autistas adultas reconheçam frequentemente esta sua diferença cedo no desenvolvimento - "A primeira vez que pensei que era diferente, talvez dessa forma, mas não sabia porquê, foi quando tinha oito anos, em 1966. Quando não me puseram na escola preparatória a seguir da escola primária. E eu pensei: “Oh, porque é que eles estão a fazer isso? O que é que se passa comigo?". Outras vezes a competência da pessoa não diz respeito à camuflagem social, mas antes à capacidade que se tem em imitar o perfil da pessoa com quem se interage, ainda que não haja propriamente vontade em se integrar - "Quando se imitam as coisas durante muito tempo, elas tornam-se um hábito. Tornam-se, na verdade, exteriormente, tornamo-nos exactamente iguais a todos os outros. Mas não és. Nunca - nunca se esquece. Nunca deixas de ser autista.". E quando se fica a saber do diagnóstico também acontece que se vive um período de revisitação do passado e da tentativa de compreender algumas desses acontecimento. Algo que chega a ser traumático, ainda que importante - "Quer dizer, depois do diagnóstico e de saber do que se tratava, quase todos os dias pensava nalgum incidente do passado: “Ah, sim, isso aconteceu porque eu era Asperger.". Até porque a compreensão dos acontecimentos pode favorecer um certo suavizar da experiência - "Bem, por exemplo, temos uma explicação para o facto de termos dificuldade em conhecer pessoas e em relacionarmo-nos com elas. Quando se tem algumas explicações, as coisas suavizam-se um pouco.". Nomeadamente, sentimentos intensos de vergonha que levavam a pessoa frequentemente a ocultar muito daquilo que era a sua vida - "Só o rótulo, que recebi no ano passado, diz que tenho um certo grau de autismo. Eu sabia que não seria uma cura nem nada do género, mas explica uma ou duas coisas sobre a nossa personagem. Por exemplo, tenho um mundo secreto de animais e tenho histórias sobre eles. E costumava ter uma espécie de - por dentro, costumava sentir-me envergonhado com isso.". E ao longo da vida da pessoa há acontecimentos que são muitas vezes normativos, mas que a maior dificuldade em os compreender a agir dentro deles pode levar a pessoa a ficar angustiada e com uma sensação de ter sido uma pessoa horrível para alguns outros significativos para si - "Foi então que olhei para trás e, de repente, percebi que havia uma ligação genética e um grande sentimento de inadequação; que devo ter sido uma péssima prestadora de cuidados aos meus pais quando estavam em estado terminal. E ter de, psicologicamente, por si só, reavaliar toda a sua vida." ou "Enquanto falávamos de várias coisas, eles diziam: “Oh, eu tenho um problema com bebés e barulho”. E eu costumava envergonhar-me disso.". E frequentemente esta vivência do autismo tem muito de avanços e retrocessos, e de algumas certezas, mas também muitas dúvidas - "É como uma mente dentro de uma mente. Ou uma mente fora de uma mente que está a influenciar o seu comportamento de uma forma que não quer. É uma condição que tem como objetivo tornar as relações sociais mais difíceis. E que também o pode colocar em situações embaraçosas e coisas do género. Acontece que não nos devemos preocupar demasiado com isso e encarar a situação como uma coisa do autismo.". Mas também é ou melhor dizendo pode tornar-se em algo bom, libertador - "É uma coisa boa de acontecer. Porque nos faz perceber que todos os problemas que tivemos no passado podem ser atribuídos a uma única razão. E não tem nada a ver connosco; é porque as outras pessoas não entendem porque é que somos assim. E se elas compreendessem melhor o porquê, provavelmente não continuariam a magoar-te e a perturbar-te tanto se compreendessem.", ou "Não me estou a pressionar para ser como os outros. Não importa se gosto de estar sozinha, de viver sozinha. Isso é ótimo. É porque eu - sabe, as pessoas autistas são assim. Assim, posso sentir que não sou alguém que não conseguiu ter uma relação, que não conseguiu ter filhos, que não conseguiu manter um emprego ou chegar a uma posição mais elevada num emprego.". Até porque não saber uma forma de explicar as suas características e algumas das dificuldades que podem ser decorrentes de algumas delas e da interacção delas com outras pessoas traz todo um conjunto de outras dificuldades e agravamento de alguns sintomas e mal estar psicológico - "Parte da razão pela qual costumava ficar ansioso e deprimido é porque estava a cometer todos estes erros e socialmente [não sou] muito bom, [tenho] dificuldade em falar com as pessoas, especialmente em grupos e outras coisas. Problemas, problemas com o trabalho e esquecer-me de coisas, cometer erros... E eu ficava mesmo tipo, 'porque é que sou tão estúpido? Porque é que não consigo fazer isto?".


Com algumas destas frases de pessoas autistas adultas conseguimos ficar com uma ideia aproximada daquilo que pode acontecer por não ser feito um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo numa idade precoce. E por conseguinte percebemos aquilo que pode ser o impacto de um diagnóstico na idade adulta.


Se ao longo da vida e principalmente em determinadas etapas da vida nos questionamos em relação a nós próprios e ao sentido da vida. Agora imaginem chegar aos 50 e ser-lhes dito que afinal de contas grande parte daquilo que foram vivendo tem uma outra forma bastante diferente de ser contada e compreendida!


Talvez para alguns de vocês seja visto como uma segunda oportunidade de vida! Não é estranho ouvirmos pessoas adultas aos 50 e que depois de um divórcio, mudança de emprego, pais, etc., possa dizer que está motivado para viver uma segunda vida! Mas quando pensamos que as pessoas autistas vão sentindo elas próprias, até por algumas das suas características, maiores dificuldades em conseguir pensar e elaborar o que é ou significa para si esta sua vida. Imaginem (novamente) o que será ser-lhes dito que aquela suposta vida que viveram afinal de contas pode ser contada e compreendida de uma outra forma. E que além disso, daqui para a frente há todo um conjunto de outras novas possibilidades que podem ser escolhidas para fazer o caminho. Sendo que estas novas possibilidades, na maior parte de nós já foi sendo experimentada ao longo da vida, ou pelo menos observada. E que nas pessoas autistas na maior parte das vezes estas novas possibilidades são totalmente novas. E como tal replecta de incertezas e de maior dificuldade de as implementar. Até porque já estão mais cristalizadas numa forma especifica de fazerem as suas próprias coisas.


Também por isso, se a avaliação da Perturbação do Espectro do Autismo na pessoa adulta deve ser repensada e adaptada à realidade da faixa etária, mas também à realidade vivida em cada país e contexto. É fundamental que o processo de intervenção também o seja. A pessoa autista e que se descobre enquanto tal a partir dos 50 necessita do ponto de vista fenomenológico e existencial de se compreender. E isso precisa de ser feito do ponto de vista retrospectivo, com todo um conjunto infindável de vivências, muitas delas traumáticas. Mas também em relação ao presente momento, em que a pessoa se sente em algumas das vezes a viver experiências dissociativas. Em que por um lado ainda se sente a pensar como até então, de uma forma bastante mais autocritica e desvalorizada, etc. E a pensar que afinal há uma outra possibilidade de olhar para a mesma situação de vida, mas que ainda não sabe muito bem como fazer. Assim como a importância de poder pensar como poderá perspectivar o futuro, sendo que agora há pelo menos uma ideia, ainda que a assuste, de que as coisas ou algumas delas poderão vir a ser diferentes.


 
 
 

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