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From Russia with love

Fiquem tranquilos aqueles que pensam que irei falar de alguma teoria da conspiração acerca do momento actual vivido. Para além disso também não irei anunciar nenhum remake do fantástico filme de Ian Fleming e que dá o titulo a este texto. Mas irei procurar algumas ideias presentes aqui e ali para vos falar do contributo de uma mulher para o autismo. E não, não irei falar da Catherine Lord, Uta Frith ou Temple Gradin, ainda que sejam todas mulheres e que deram e continuam a dar enormes contributos para a compreensão do autismo.


Nos filmes do 007 é visível o papel dado à mulher. Seja da vilã que acaba em determinado momento por se envolver com o agente secreto 007 e no fim é morta. Ou da carinhosa e submissa Miss Moneypenny. Isto não é apenas nos filmes que se passa. E muito sabem que tem um tradução bem real na vida de todos nós e das mulheres em particular. E em lugares que se esperariam mais esclarecidos e ventilados de ideias e ideais retrogradas e machistas ainda menos. Estou a falar do campo da ciência. Isso mesmo, apesar da presença feminina na ciência desde sempre, ainda hoje se continua a verificar um destaque tímido aos grandes contributos destas para o avanço do conhecimento. E quando é que chegamos ao tema do autismo, perguntam vocês?


Desde sempre na história do autismo que dois nomes sobressaem mais do que tantos outros, até por questões cronológicas dos seus trabalhos de investigação e observação clinica, assim como da importância e relevo dos mesmo para o autismo. Estou a falar indubitavelmente do Dr. Leo Kanner e do Dr. Hans Asperger, ambos médicos. Também no autismo se foi cultivando a ideia do predomínio masculino. Curiosamente, dentro e fora do autismo. Ou seja, fica a ideia de que foram estes dois homens que descobriram e desenvolveram os conceitos mais importantes no autismo. Assim como também e até aos dias de hoje se pensa que a prevalência do autismo é maior no sexo masculino comparativamente ao sexo feminino.


A médica Russa G.E. Sukhareva escreveu um artigo em 1930, antes mesmo dos artigos publicados por Kanner e Asperger sobre o autismo. Provavelmente, além de mulher, a sua proveniência geográfica não abonou em favor de se considerar fundamental o seu contributo no artigo da altura de nome, "Toward the problem of the structure and dynamics of children’s constitutional psychopathies (Schizoid forms)". Sendo que na altura, por motivo de uma importante conferência realizada em Leningrado, Sukhareva teve oportunidade de apresentar o seu trabalho à comunidade científica. Assim como Lev Vygotsky, autor que muitos de nós conhecem e já tiveram oportunidade de ler. Mas da Dra. Sukhareva nada.


No entanto, Sukhareva, tal como os seus colegas Austríacos, observou clinicamente alguns pacientes seus, nomeadamente crianças e jovens que apresentam determinados traços comportamentais e características mais atípicas face ao conhecimento médico da altura. O rapaz de 12 anos observado pela Dra. Sukhareva no Hospital em Moscovo parecia diferente dos seus pares. As outras pessoas parecia não lhe interessar muito e ele preferia a companhia de adultas comparativamente às crianças da sua idade. Nunca brincava com brinquedos. Tinha aprendido a ler sozinho aos 5 anos e passava os dias a ler tudo o que podia. Era magro e desleixado, e movia-se lenta e desajeitadamente. Também sofria de ansiedade e dores de estômago frequentes. Ao fim deste frase muitos de vocês pensarão - isto é uma descrição do meu filho de 12 anos com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, certo?


A Dra. Sukhareva nas suas observações, notava que era ele era "altamente inteligente" e gostava de se envolver em discussões filosóficas. Através de um diagnóstico, descreveu-o como "um tipo introvertido, com uma inclinação para ser autista.


O nome autista ainda era recente naquela altura, isto do ponto de vista clinico e de diagnóstico. Poucos anos anos, o psiquiatra suíço Eugen Bleuler tinha cunhado o termo para descrever os comportamentos de desligamento social e o desprendimento da realidade frequentemente observado em crianças com esquizofrenia. E só apenas quase vinte anos depois é que Kanner e Asperger haveriam de falar de autismo. Mas Sukhareva já o havia feito, publicado e comunicado cientificamente as observações que não deixavam margem para dúvida de se tratar de um caso de autismo.


Sukhareva continuou a fazer as suas observações clinicas e a ter mais rapazes no Hospital em Moscovo com características semelhantes. Muitos mostravam uma certa preferência pelo seu próprio mundo interior, ainda que cada um tivesse as suas peculiaridades e talentos. Um era um violinista extraordinário, mas que tinha inúmeras dificuldades do ponto de vista social e da interacção. Outro apresentava uma memória excepcional para números, mas parecia não reconhecer rostos. Enquanto m outro tinha amigos imaginários que viviam na lareira. Nenhum deles era popular ou aceite entre as outras crianças e as interacções com os pares eram diminutas. Até porque todos eles referiam que estas interacções eram vistas e sentidas como sendo inúteis e que os outros eram muito barulhentos e que dificultavam o seu próprio pensamento. Estes e outras apontamentos e observações clinicas de Sukhareva foram publicados em 1926 (ver aqui). Mas a evidência cientifica e o detalhe da observação feito por si acabou por não singrar face ao predomínio dos homens e do anglo-saxonismo. Na verdade, as suas descrições clinicas da altura, sublinhe-se 1920, estão agora publicadas na DSM 5 desde 2013.


Quando as pessoas se perguntam o que perdemos com os conflitos ou guerras. E ainda mais com este voltar de costas a uns e outros porque nos arreigamos de ser senhores e donos, detentores do conhecimento e da verdade, é isto. Perdemos a diversidade e a genialidade de homens e mulheres que muito fora do seu tempo viram coisas que ninguém viu.


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