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Faces da mesma mesa

Amanhã recomeças a escola!, diziam os pais em uníssono ao Carlos (nome fictício). Mas eu não deixei de ter escola. Não posso continuar em casa porquê?, perguntava-lhes este. É verdade que a escola não parou. Vais é voltar a ter aulas presencialmente, percebes?, esclareceram os pais. Mas porquê? Porquê?, insistia Carlos, visivelmente transtornado. Eu já me tinha habituado a ter as aulas desta forma. E ninguém sabe o quanto foi difícil para mim!, acrescentava. Agora ter de voltar a fazer tudo diferente! Porquê? Porquê?, continuava. Não é tudo diferente! procuravam os pais mitigar algum do impacto. Vais voltar a fazer as aulas como antes as fazias, percebes?, pensavam os pais ter resolvido a questão. Não, não é a mesma coisa! Eu não sou a mesma coisa, percebem? Os meus colegas, os meus professores não são a mesma coisa!, gritava o Carlos. Na verdade os pais sentiam que havia muito de verdade naquilo que o seu filho dizia. Eles próprios sentiam que nem eles eram a mesma coisa. Mas a sensação é de que não o podiam dizer-lhe. Caso contrário Carlos não voltaria à escola. Mesmo que isso não fosse novidade para eles. O Carlos está agora no 4º ano. Mas no 2º ano fez recusa à escola e esteve uns meses sem conseguir ir. Acabou inclusive de mudar de escola, mas o processo de reintegração foi algo demorado. Carlos tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo desde os quatro anos. Além das características habituais encontradas neste diagnóstico, tem também uma marcada selectividade alimentar e que lhe causa algumas dificuldades no seu quotidiano. As hipersensibilidades também não são fáceis. Principalmente a auditiva e que lhe complica o estar na escola, seja na aula quando há mais ruído mas também no tempo de recreio em que costuma haver mais habitualmente barulho e agitação. Além do mais os pais do Carlos sabem que nem todos os professores costumam saber lidar com algumas das suas características. Também por isso, para além de melhor poderem compreender o seu filho, os pais do Carlos têm aprendido bastante acerca desta condição. E o seu conhecimento tem sido fundamental para ajudar os professores a melhor interagir com o seu filho. Pelo menos aqueles que mostram essa disponibilidade. Ele esbraceja muito os braços, sai da cadeira, faz barulho, faz traços nas coisas, e esse seu problema com o processamento sensorial tem um impacto directo na seu

educação porque se eu estou a ensinar, ele literalmente não consegue concentrar-se em mim, disse-lhes certa vez a professora do 2º ano. Nessa altura os pais do Carlos já sabiam de tudo isso, até porque procuravam acompanhar o filho nas aprendizagens em casa. Mas esperavam encontrar na escola um ambiente que pudesse integrar melhor o seu filho. Também por isso sentiram que o melhor seria mudar de escola, até porque se verificaram situações de bullying por parte de alguns dos colegas e a resposta da escola não foi a mais adequada. Principalmente sentiam que a leitura que alguns professores faziam do Carlos e de alguns dos seus comportamentos é de que seriam da responsabilidade dele e o seu controlo também. Isto ainda que dissessem que conheciam o autismo e que tinham outros alunos com o mesmo diagnóstico. Amanhã muitas crianças voltam à escola para continuar as suas aulas presenciais. Algumas destas crianças, e depois alguns dos jovens e adolescentes com um diagnóstico com Perturbação do Espectro do Autismo, estão tal como todos nós, um pouco diferente na medida em que fomos procurando reagir e nos adaptar a todas estas vivencias. Muitas destas crianças estão a ser acompanhadas por diferentes profissionais e têm estado a procurar fazer este processo de transição. Assim como os próprios professores que têm estado envolvidos em tudo isto desde o principio. Haverá certamente decisões menos boas que foram tomadas e que causaram um dano maior do que seria suposto acontecer. Haverá também alguns de todos estes que amanhã retomam as suas actividades presencialmente que não estarão nas melhores condições a nível psicológico. Os seus níveis de ansiedade estarão um pouco mais elevados. Mas há todo um caminho que tem vindo a ser feito conjuntamente com eles a nível terapêutico e que os têm preparado para responder a estes novos obstáculos. Além dos próprios pais que estão precavidos de como poderem responder em casos de necessidade e certamente os professores. Continuará a ser importante, tal como sempre foi, de poder escutar todos os envolvidos no processo de ensino e aprendizagem. E procurar não deixar que a agenda do currículo se sobreponha à das pessoas dos alunos, professores e pais. Muitos dos que sentirão alguma pressão com a necessidade de cumprir o currículo terão eles próprios alguma ansiedade e preocupação latente e que necessita de ser atendida ao invés de se contra atacar. Precisamos de todos.


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