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Explorar o ser autista

O que estás a fazer a olhar para o céu?, perguntava-lhe a mãe. A explorar o meu ser autista!, respondeu-lhe Júlio (nome fictício). Júlio tem 37 anos. E como muitos outros adultos sente necessidade de poder compreender o que se passa com a sua pessoa. Esta questão não é de agora. Na verdade, desde sempre que sente esta necessidade. Foi procurando ler, perguntar, tentar compreender, mas nada. Os pais foram levando-o a vários profissionais de saúde, pediatras, pedopsiquiatras, psicólogos e nada. Ou porque não se passava nada com o Júlio e isso vai passar com a entrada na adolescência. Facto que se veio a comprovar que não é verdade visto que Júlio já tem 37 anos. Também disseram que seria Ansiedade e depois mais tarde Depressão. E nem uma ou outra acabou por passar, nem sequer explicar as coisas. Já percebi que não irei ser astronauta, mas pelo menos irei compreender quem eu sou!, disse-me uma das primeiras vezes que conversamos. Júlio teve um percurso de vida que não era suposto ter tido. A sua zanga manifestada em alguns momentos da sua vida demonstram isso. Aquilo que eu pedi às pessoas é que me ajudassem a explicar o que se passa comigo!, disse Júlio. Eu não quero que as pessoas me digam que eu sou. Esse é o meu trabalho!, disse Júlio. Mas tal como uma pessoa com dificuldade visual precisa que lhe digam o que se passa com a sua visão para que possa através de algumas adaptações poder compreender o Mundo. Também eu preciso que me digam o que se passa comigo!, repete. E agora depois destes anos todos dizes-me que eu sou autista. Que tenho um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Sinto-me como muitos outros se foram sentido ao longo da História. Tal como Nicolau Copérnico que colocou o Sol no centro do Universo. E antes disso uma divindade ocupou o seu lugar. E ainda hoje, o telescópio Hubble nos vem trazer novas perspectivas e forma de compreender o funcionamento do Universo. Não me queiram convencer que o autismo é apenas uma coisa, um diagnóstico, um conjunto organizado de comportamentos!, diz Júlio com uma voz frustrada.


A nossa ideia do que é ser autista está em constante mudança nestes oitenta anos em que se usa o nome. E se pensar o autismo é em si suficientemente complexo, ainda mais o é saber quem somos nós enquanto autistas. E por isso me parece fundamental que a pessoa ao descobrir a sua condição, possa explorar este seu Ser Autista. Este seu ser autista, que interliga a forma como este Ser se comporta, constrói e compreende com a essência da sua pessoa. A própria inclusão ou retirada de determinadas questão do autismo, nomeadamente transcrito nas próprias reedições dos manuais de diagnóstico é prova disso. A avaliação do autismo, seja através da prática clínica ou de instrumentos construídos para o efeito, não estão isentos de enviesamento. O clínico que faz o diagnóstico está ele próprio carregado de enviesamento enquanto pessoa que tem um determinado percurso na sua compreensão do que é o autismo. E os próprios instrumentos que estão ancorados na escolha de amostras clinicas para a construção dos seus itens, mostram as suas fraquezas na detecção das diferentes expressões do autismo, seja nas pessoas adultas e principalmente nas mulheres. E o próprio diagnóstico em si e o processo não é igual em todos. Há quem veja o diagnóstico como um processo formal, enquanto outros o sentem como apenas fazendo sentido de forma informal. Há quem sempre tenha sabido sobre a sua pessoa e as suas características, ainda que nunca lhe tivesse dado um nome - autismo. O nome que deram foi o nome que os seus pais lhe atribuíram - Júlio. Poderia ser outro nome e isso faria toda a diferença. Poderia ser Carla e seria certamente diferente. Ou ter um défice cognitivo associado e a diferença também seria visível. Ou ter uma perturbação da linguagem associada ou uma síndrome genética. Já para não falar das outras condições neuropsiquiátricas que aparecem associadas. E se há pessoas que querem um diagnóstico formal e com isso querem seguir um determinado tipo de acompanhamento, outros há que sentem não necessitar desse caminho. Ainda que seja consensual, seja naqueles mais ou menos informados, mais ou menos conformados e frustrados com toda a situação à qual estiver a aguardar sendo um direito seu, todos eles sentem necessidade de poder Explorar o Ser Autista. Perceberem-se enquanto pessoas. Seja a compreensão de forma mais aprofundada daquilo que caracteriza parte da sua pessoa, sejam as características comportamentais, cognitivas ou fisiológicas. Por exemplo, as pessoas poderem perceber que não são mal educadas ou anti-sociais. E que aquilo que muitos chamaram de preguiça tem a ver com as suas funções executivas. Ou que o facto de necessitarem de ficar mais tempo a descansarem tem a ver com o impacto que a imersão sensorial do dia anterior lhes provocou. Estas e outras questões são fundamentais para que a pessoa se possa (re)enquadrar enquanto pessoa. E além de poder estar interessado e aprender determinadas estratégias para poder lidar com várias situações. A pessoa autista nesta situação coloca-se em muito a questão - Então e agora? Ou seja, a vida até então foi levada de uma determinada forma e a pessoa descobre que afinal pode ser feita de outra maneira. Uma maneira mais compreensiva da sua pessoa e do seu Ser. Até porque a sua pessoa até então foi mudando, sendo diferente. E o Júlio sabe que com 37 anos nunca foi sendo a mesma pessoa. E como tal agora quer continuar a perceber-se. Mas se ao longo de muitos destes anos teve uma maior necessidade de se proteger das pessoas. Principalmente pela forma negativa como muitas destas se foram dirigindo a si. Neste momento está mais preocupado em se conhecer. Antes parecia um corpo celeste a desviar-me constantemente de uma chuva de meteoritos, disse. Neste momento sinto que sou uma estrela com uma determinada duração de vida e que quer perceber quem é e onde está!, acrescenta. E tal como o céu estrelado à noite, sinto que também haverá outras pessoas como eu. E tal como as próprias estrelas são diferentes, também elas o serão. Mas quero-as conhecer. Porque sinto que também assim me conhecerei melhor, concluiu.


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