Envelhecer no autismo

Recordo-me de com oito anos, estávamos em 1983, e pensar como seria a minha vida em 2000, 2010 ou até mesmo 2020. Sendo que 2020 já era um esforço muito grande para uma criança dessa idade. Não me recordo ao certo de como fiz a fantasia de como seria a minha vida. Mas tenho ideia de que foram muitas as perguntas que fazia na altura. A curiosidade guiou muitas delas. Em que estarei a trabalhar e onde? Estarei casado e com filhos? Onde viverei? E até onde é que irei viver? Algumas dessas perguntas já as tenho respondidas. Mas ainda faltam muitas delas. Até porque a esperança média de vida aumentou e um homem em Portugal vive até aos 81 anos. Ou seja, estou a metade do caminho. Estou certo que muitos dos leitores fizeram um exercício semelhante a este meu. E porventura o conjunto de perguntas não deve ter sido muito diferente! Há algo de único e singular que nos une a todos nós ao longo do percurso de desenvolvimento. Independentemente das diferenças que possamos ter. E não há dia que também não me pergunte como será o processo de envelhecimento das pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo? Também pensarão em crianças como será a sua vida no futuro? E se sim, que perguntas colocam?

No dia em que celebramos o Dia Mundial para a Conscientização do Autismo penso no que me faria mais sentido pensar como sendo o tópico mais importante a reflectir. Depois de muito pensar e de inclusive me tentar colocar no lugar de um adulto com Perturbação do Espectro do Autismo fiquei sem saber muito bem o que responder. E não é nada de estranho isto acontecer. Uma grande maioria de nós, profissionais de saúde, investigadores e Sociedade de uma maneira geral não faz a mínima ideia do que acontece. Para alem de responder o óbvio - as pessoas envelhecem! Claro que as pessoas envelhecem. É um processo biológico que ocorre com todos nós apenas interrompido por motivo de falecimento, prematuro ou não. Para além disso envelhecemos, todos, inclusive as pessoas dentro do Espectro do Autismo. Ainda que algumas pessoas se mostrem relutantes em conseguir imaginar uma pessoa do Espectro do Autismo na 3ª idade. Normalmente respondem que não conhecem ninguém adulto com esta condição, e muito menos uma pessoa com mais de 65 anos de idade e com esta condição. Mas há, creditem. Por exemplo, todos os anos no EUA mais de 50000 jovens com PEA atingem os 18 anos de idade. E como tal penso que conseguirão imaginar que pelo menos parte destes irão chegar aos 65 anos ou mais. Por exemplo, Donald Tripplett, agora com 90 anos, foi a primeira pessoa a ser diagnosticada com Autismo, corria o ano de 1938.


Mas o facto de dizermos que as pessoas envelhecem isso pouco mais nos diz acerca do processo que é bem mais complexo que isso. Envelhecemos como, em que condições de saúde física e mental. E em termos de funcionalidade e autonomia? E seremos mais ou menos dependentes que os nossos avós o foram ou são? E como será a nossa qualidade de vida? As perguntas não param. E tal como uma criança de oito anos de idade há muito caminho possível para onde a nossa imaginação nos leva. Mas nestas e em outras situações o melhor é podermos dar a hipóteses às próprias pessoas adultas com Perturbação do Espectro do Autismo como está a ser a sua vivência e como pensam e sentem que está a ser o seu processo de envelhecimento.


O processo de envelhecimento e a heterogeneidade da velhice tem-se constituído num dos temas desafiadores à Psicologia enquanto ciência do comportamento, principalmente após a segunda metade do século XX. O envelhecimento é um processo contínuo, gradual de alterações naturais que começam na idade adulta. Durante o final da idade adulta, muitas funções corporais começam a declinar-se gradualmente. As pessoas não ficam velhas ou envelhecem em uma idade específica. Tradicionalmente, a idade dos 65 anos foi designada como o começo da velhice. Mas a razão foi baseada na história, não na biologia. Muitos anos atrás, 65 anos de idade foi escolhido como a idade para a aposentadoria na Alemanha, o primeiro país a estabelecer um programa de aposentadoria, e esta continua sendo a idade para aposentar-se para a maior parte das sociedades desenvolvidas, ainda que esta tradição esteja mudando.


À pergunta de como a pessoa se sente velha, a resposta pode ser dada de forma tripartida. Seja em relação à idade cronológica, biológica ou psicológica. Porque apesar da pessoa poder ter 65 anos ou mais, do ponto de vista biológico a pessoa poderá estar mais ou menos comprometida. É possível verificarmos nesta altura uma perda da reserva cognitiva que vai ocorrendo de forma progressiva mas ligeira. Isto no caso de um envelhecimento normal. Um outro exemplo de um sinal do envelhecimento normal é, com a idade, o cristalino dos olhos engrossa e endurece e se torna menos capaz de enfocar objetos próximos, como materiais de leitura. O declínio funcional é um outro exemplo, este é uma parte do envelhecimento que às vezes parece similar ao declínio funcional que é parte de um distúrbio. Por exemplo, com o avanço da idade, um declínio leve na função mental é quase universal e é considerado envelhecimento normal.


Mas também falamos e cada vez mais de um envelhecimento saudável. Sendo que este se refere à postergação ou à redução dos efeitos indesejáveis do envelhecimento. No entanto, este processo é algo que vai ocorrendo ao longo da vida. Em que o próprio vai procurando ter em atenção na sua alimentação, conjuntamente com a prática de actividade física, assim como atender às suas necessidades psicossociais. A própria Organizacção Mundial da Saúde e a Comissão da União Europeia consideram de grande importância todas as medidas, políticas e práticas, que contribuam para um envelhecimento saudável. E para tal vários aspectos devem ser valorizados. Nomeadamente a autonomia, promovendo a autonomia das pessoas idosas, o direito à sua autodeterminação, mantendo a sua dignidade, integridade e liberdade de escolha. Um outro aspecto igualmente importante e que muito contribui para se envelhecer saudavelmente porque contribui para se conservarem as capacidades cognitivas é a aprendizagem ao longo da vida. E também o poder manter-se activo, nomeadamente após a reforma. Sendo que esta é uma das formas que mais concorre para a manutenção da saúde da pessoa idosa nas suas diversas componentes, física, psicológica e social.


Se pensarmos naquilo que é a Perturbação do Espectro do Autismo e de muitas das suas características podemos pensar na forma como o envelhecimento normativo e saudável pode e fica ameaçado. Desde as restrições alimentares e todo um conjunto de hipersensibilidades que tornam a dieta alimentar da pessoa um factor preocupante para o desenvolvimento. Mas também a maior dificuldade em se verem envolvidos na prática de uma actividade física. Ou o facto de serem frequentemente vitimas de bullying ao longo de um conjunto enorme de anos. Ou o próprio processo de formação que parece não estar a ser adequadamente pensado. Seja porque se julga que o ensino profissional é para pessoas menos capazes ou porque se julga que o Ensino Superior não é para as pessoas do espectro do autismo. E o que dizer da integração no mercado de trabalho? Uma marca pela negativa e que não confere em nada a possibilidade das pessoas no espectro do autismo se tornarem autónomas e independentes e poderem ter o direito à habitação porque não a conseguem suportar.


É imperativo mudarmos a nossa forma de pensar e agir em relação ao espectro do autismo. É importante a sensibilização para o tópico mas é igualmente vital passarmos a aceitar e apreciar aquilo que é a manifestação de um espectro da neurodiversidade da qual todos nós fazemos parte.


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