E tu, alinhas bonecas?
- pedrorodrigues

- 12 de jan.
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A minha mais nova não tem nada disso, ela até sorri! dizia Cristina (nome ficticio), mãe da Carolina (nome ficticio) de oito anos. Mas não achas que seria melhor leva-la ao médico? perguntava-lhe a amiga. Ainda por cima o teu mais velho tem PHDA! acrescentava a amiga. Sim, mas isso não tem nada a ver uma coisa com a outra! respondia Cristina. Eles são os dois completamente diferentes...o oposto, o dia da noite, diria mesmo! continuava. Além disso, a minha Carolina além de sorrir, é muito boa aluna e até tem duas ou três amigas. E lá em casa ela é capaz de dizer ao irmão que está a fazer as coisas mal feitas e a corrigi-lo! E nem sequer tenho de me preocupar com ela porque está sempre sossegadinha no seu quarto a brincar com as suas bonecas...não quer saber de mais nada, apenas quer as bonecas! conclui.
A questão não é nova, mas ainda assim, como muitas outras coisas no autismo, é importante aproveitar a oportunidade para falar delas. O facto de ter visto esta notícia do lançamento da boneca da Barbie autista levou-me a pensar no ratio homens versus mulheres autistas.
Durante muitos anos, o autismo era algo dos rapazes, do masculino. Assim como a responsabilidade também era atribuída às mães, denominadas de mãe frigorífico. Apesar de actualmente ainda se usar o ratio de 4:1 (homens:mulheres), já se torna mais consensual dizer que a probabilidade dessa diferença ser menor é maior. Sendo que é verdade...o ratio entre homens e mulheres autistas é menor.
Apesar da diferença entre o número de diagnósticos no autismo ser uma realidade desde sempre, recordo que os primeiros trabalhos de Leo Kanner, Hans Asperger, mas também da Grunya Shukareva, tinham reportado nos seus artigos a existência de crianças do sexo feminino com o mesmo diagnóstico de autismo infantil. E ainda que a proporção entre os rapazes e raparigas fosse no sentido da diferença de que se fala até então (e.g., no caso do artigo do Leo Kanner eram descritos 8 rapazes e 3 raparigas). Ainda assim, as descrições clínicas feitas por eles vão ao encontro, já nessa altura, daquilo que hoje se fala do fenótipo comportamental do autismo no feminino, do fenótipo alargado do autismo e do comportamento de camuflagem social, ainda que na altura se usassem outras designações.
Ao longo das décadas seguintes, aquilo que foi sendo construído enquanto conhecimento científico sobre o autismo assentou maioritariamente numa amostra masculina. Os critérios diagnósticos, os instrumentos de rastreio e de avaliação, bem como as descrições clínicas mais difundidas, foram moldados a partir de manifestações mais frequentes nos rapazes. Comportamentos externalizantes, interesses restritos mais visíveis e socialmente disruptivos, dificuldades claras na comunicação social e padrões repetitivos evidentes tornaram-se quase sinónimos de autismo. Tudo o que não encaixava plenamente neste retrato ficava na penumbra.
É neste contexto que o fenótipo comportamental feminino no autismo foi sendo sucessivamente desvalorizado, quando não ignorado. Muitas raparigas autistas apresentam formas de expressão mais subtis das dificuldades nucleares do espectro. O contacto ocular pode ser aprendido e mantido, o sorriso surge como resposta social treinada, a linguagem desenvolve-se de forma aparentemente adequada e os interesses restritos tendem a alinhar-se com aquilo que é socialmente esperado para o género, como as bonecas, as histórias, os animais ou as relações interpessoais. Não é a ausência de restrição ou de rigidez; é antes a sua camuflagem sob uma aparência normativa.
A capacidade de observação social, frequentemente mais desenvolvida nas raparigas, permite-lhes imitar comportamentos, copiar expressões emocionais e aprender guiões sociais que funcionam como um disfarce eficaz. Este comportamento de camuflagem social, hoje amplamente descrito na literatura, tem um custo elevado. Exige um esforço cognitivo e emocional constante, um estado de hipervigilância social e uma auto-monitorização permanente que raramente é reconhecida pelos adultos significativos. A rapariga que é sossegada, aplicada, obediente e pouco exigente transforma-se rapidamente numa criança fácil, numa aluna exemplar, numa filha que não dá trabalho.
Este enviesamento não é neutro. As consequências de um diagnóstico tardio ou inexistente são profundas e cumulativas. Muitas mulheres autistas chegam à adolescência e à idade adulta sem uma explicação integrada para o seu sofrimento. Ansiedade, depressão, perturbações do comportamento alimentar, burnout autista e dificuldades identitárias surgem frequentemente como diagnósticos primários, enquanto o autismo permanece oculto. Não raras vezes, estas mulheres carregam uma narrativa interna de inadequação, fragilidade ou falha pessoal, construída a partir de anos de esforço silencioso para corresponder a expectativas que nunca foram desenhadas para elas.
O segundo plano a que o autismo no feminino foi relegado não é apenas um problema histórico; é uma questão ética e clínica actual. Continuar a aplicar modelos diagnósticos cegos ao género perpetua desigualdades e sofrimento evitável. Implica também repensar a formação dos profissionais, a sensibilidade clínica para sinais menos óbvios e a necessidade de instrumentos que captem a complexidade do espectro para além do estereótipo masculino.
Reconhecer o fenótipo comportamental feminino no autismo não significa criar um novo autismo, mas ampliar o olhar sobre um espectro que sempre foi diverso. Significa validar experiências, dar linguagem ao que foi vivido em silêncio e permitir que muitas raparigas e mulheres deixem de ser vistas apenas como bem adaptadas, sorridentes ou demasiado sensíveis. Porque, por detrás da boneca alinhada com cuidado, pode existir um mundo interno intenso, rígido, profundo e exausto de não ser nomeado.



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