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DSM 5 TR: Nova entrada de diagnóstico

Afinal o que te disse o médico? perguntaram os pais. Mas tens alguma coisa? Algum diagnóstico? continuaram. Ainda a processar toda a informação que tinha ouvido na consulta, António (nome fictício) lá murmurou umas palavras onde se conseguia perceber autismo. António tem 34 anos e esteve numa consulta de psiquiatria. Tendo em conta a idade disse que preferia entrar sozinho e falar com o médico. Ainda que reticentes, os pais concordaram. E além disso o médico quando chegou à sala de espera chamou pelo António. Podemos sempre pesquisar na internet? disse o pai. Sim, podemos ler na DSM 5 na internet! completou a mãe. Eu não quero saber dos rótulos! gritou António.


Esta situação não é nova para grande parte das pessoas. Algumas inclusive procuram esta mesma informação na internet antes mesmo de irem às consultas. Não me cabe fazer nenhum juízo de valor sobre este facto, ainda que sinta ser importante pensar no porquê dele acontecer. Mas aquilo que gostaria de falar é sobre um outro assunto, ainda que esteja em muito relacionado com este - o estigma!!


No inicio de qualquer manual de diagnóstico, seja a DSM ou a ICD deveria haver lugar para um primeiro diagnóstico: 000.00 (F00.0): Estigma. Assim como na DSM 5 existe o 299.00 (F84.0) para a Perturbação do Espectro do Autismo.


É o estigma, o problema é o estigma, as maiores dificuldades das pessoas com um diagnóstico é o estigma, etc. A palavra está esgotada. Já foi dissecada, conceptualizada, estudada dentro das diferentes disciplinas e ciências, novamente dissecada, etc. E ainda assim, continuamos a ter nos dias de hoje, pleno século 21, muitos das situações semelhantes a anos anteriores no que diz respeito à forma como as pessoas na Sociedade desconhecem as perturbações psiquiátricas e outras. Mas não só desconhecem, como também parecem ter maior dificuldade em procurar conhecer ou simplesmente se informar. E ainda que passem a conhecer e se informem, são vários aqueles que continuam a ter comportamentos e atitudes, implícitas e explicitas, negativas para as pessoas com estes diagnósticos. E não é que não tenha havido investimentos dos diferentes países e respectivos Ministérios da Saúde para desenvolver programas de sensibilização e informação da Sociedade para a saúde mental. Mas ainda assim, o estigma parece perdurar. É algo aparentemente mais resistente à mudança, impermeável às diferentes estratégias usadas para o combater. O estigma, sempre o estigma!


Já desde Durkheim (1858-1917) que o estigma é objecto de estudo. Durkheim introduz a palavra desvio e diz sobre ela, que a interpretação moral destes “desvios” determinaria quais as qualidades e comportamentos considerados mais desejáveis do que outros. Um outro autor, Goffman (1922-1982), aprofundou ainda mais o conceito. E definiu o estigma como um estado de descrédito ou desqualificação da participação social plena. E identificou diferentes tipos de estigma, associado à raça, etnia, religião ou ideologia, à deformidade física e à doença mental. O conceito de estigma tem sido amplamente estudado e aqueles que tiverem interesse poderão fazer uma pesquisa da diferente literatura em relação ao tema. Inclusive, passou-se a pensar no estigma, não somente como uma atitude de terceiros em relação ao próprio, mas também deste em relação a si mesmo, o auto estigma, estigma internalizado, etc. Um pouco à semelhança daquele exemplo da frase final do António - Eu não quero saber dos rótulos! Na saúde mental é muito frequente ouvirmos esta palavra - rótulos. E não será por acaso, tendo em conta o impacto que as pessoas sentem em relação ao facto de lhes ser dado um diagnóstico. Ao ponto de verificarmos que os pais a certa altura falam entre si sobre a possibilidade ou não de dizerem o diagnóstico ao seu filho, por exemplo. Ou de pensarem se devem ou não partilhar o diagnóstico com a escola, faculdade, trabalho, família, etc. O estigma, sempre o estigma.


Mas o estigma será ignorância? Preconceito? Ou discriminação? Ou um pouco de tudo como tanto se advoga numa perspectiva mais sistémica ou holística. Até porque há logo quem diga que o estigma é um conceito complexo. Mais uma vez o estigma, sempre o estigma.


As pessoas são diferentes. E então? Qual o problema de sermos diferentes? Sempre o fomos! Nunca o deixaremos de ser! Mas há diferenças e diferenças! dirão alguns. E então? Não temos hoje acesso a todo um conjunto de informação cientifica e reflectida ao longo da história da humanidade sobre esta diferença não ser uma ameaça? Muito pelo contrário, por norma esta diferença é vista como uma mais valia! Mas há sempre que não o considere. E que se arreigue da razão para dizer que não é assim como a ciência diz. Então talvez se possa pensar na necessidade de encontrar um diagnóstico para este fenómeno do estigma. Se não é por ignorância, pois cada vez mais se verifica que as pessoas frequenta o ensino e têm acesso a um cada vez maior número de informação. E se devido ao preconceito ou discriminação fazem com que um número cada vez maior de pessoas com um diagnóstico sofra ainda mais e durante mais tempo. E com um maior prejuízo inclusive para o desenvolvimento e crescimento do próprio pais. Então talvez possa ser necessário diagnosticar estas pessoas com estigma e poder ajudar a mudar os seus comportamentos e atitudes! Afinal de contas estão a ser comportamentos e atitudes prejudiciais para terceiros, mas também para si, directa e indirectamente. Talvez seja altura de não esperar que as pessoas que têm este tipo de comportamento e atitude mudem por elas próprias!


Alguns de vocês estarão a ficar indignados, revoltados ou estupefactos com o texto. A pensar inclusive que não faz sentido algum diagnosticar uma pessoa com estigma. Que isso não é nenhuma condição médica. E ainda muito menos obrigar uma pessoa a ser tratada para essa tal condição - o estigma.


O estigma é assim mesmo. Faz-nos sentir todo um conjunto de sentimentos e emoções tão diferentes, mas quase sempre intensos. Mas porquê avaliarmos que determinado conjunto de pessoas com um certo diagnóstico não estará capaz de participar na Sociedade de forma igual a qualquer outro? Porque achamos que é o que diz no diagnóstico? Porque fomos ler nos manuais de diagnóstico e achamos que é isso que lá diz? Mas se não somos especialistas na área da saúde não temos competência para avaliar essa mesma informação! Além de essa informação nem sequer constar assim como muitas pessoas pensam e dizem.


Magoamos, humilhamos, retiramos às pessoas a possibilidade de viverem uma vida plena. De terem acesso à escola e faculdade e poderem ter os serviços necessários e adequadas para frequentarem esses mesmos estabelecimentos. De se sentirem protegidas, respeitadas e celebradas na sua forma única de o ser, assim como qualquer outra pessoa. De terem acesso ao mercado de trabalho ou de ser necessário criar uma cota para pessoas com deficiência para que as empresas possam ser obrigadas a cumprir a lei, e ainda assim, sempre que possam não a cumprir ou encontrar subterfúgios para a contornar e ainda assim justificarem essa necessidade. De terem acesso a habitação própria e de uma vida condigna.


Claro que ninguém vai dizer que faz isto! Nem pensar, afinal somos seres humanos! Mas vamos dizer que sabemos e conhecemos quem faz isto. E que não são poucos! Mas nós não fazemos isso. Afinal de contas ninguém quer o estigma. Fogem dele. Preferem atira-lo para cima de outros. É compreensível, é o estigma, sempre o estigma.


 
 
 

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