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Does it SUITS me?

Does it suits me (?), pode ser traduzido para serve-me(?). Mas muitos de vocês estarão mais centrados na imagem, e no que é que os protagonistas da série Suits poderão ter a ver com o autismo!?


E como tal faço um disclaimer inicial: 1) não vi a série; 2) não faço ideia se irão continuar a mesma; 3) não tenho informação de que algum dos protagonistas ou personagens da série possam ter um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo ou representar esse mesmo diagnóstico.


Posto isto a pergunta mantem-se: O que é que os protagonistas da série Suits poderão ter a ver com o autismo!?


A série em si, nada! Mas no caso dos profissionais do Direito podemos dizer que muito. Ou seja, se temos a ideia de que há bastantes pessoas autistas adultas na área da Tecnologias de Informação (e não só). Também é verdade que há várias pessoas autistas adultas na área do Direito, sejam aquelas que já foram diagnosticadas, mas também as que ainda não sabem.


Por um lado podemos dizer que o facto de 1% a 2% da população mundial apresentar um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, podemos esperar que as pessoas autistas possam existir em várias áreas e sectores da Sociedade. E penso que seja importante poder falar mais fácil e abertamente sobre as diferentes áreas profissionais e não só onde as pessoas autistas adultas se encontram. E de preferência que seja para além das noticias que vão saindo sobre as celebridades do mundo que vão sendo diagnosticadas ou falando do seu diagnóstico. Por exemplo, a última noticia dá conta da filha do Bruce Willis ter sido diagnosticada tardiamente com Perturbação do Espectro do Autismo. Nada contra esta questão, até porque não me atrevo de ter à perna a personagem do Assalto ao Arranha céus a entrar-me pela lareira lá em casa ao invés do Pai Natal (risos). Mas penso que será importante igualmente falar das pessoas adultas anónimas e com as quais qualquer um de nós se pode identificar mais facilmente.


E hoje irei falar dos profissionais da área do Direito. Espero que o post em questão não venha a ser digno de uma queixa ou processo judicial (risos mais ansioso).


A partir de determinada altura da minha vida ficou decidido que iria ser advogado! diz Alberto (nome fictício). Porquê? questiona retoricamente. Desde pequeno que sempre fui uma pessoa com um sentido de justiça mais apurado que alguém conheceu. E uma vez aos 12 anos num almoço de Natal os meus pais, na sequência de uma repetida insistência minha sobre um tema da II Guerra Mundial, disseram que deveria ir para advogado. E desde então assim foi. Porquê? Porque eles o disseram! retorquiu. Além disso sempre me foi mais fácil decorar quantidades de informação gigantescas. Além de me ser muito típico conseguir detectar falhas nos padrões, sejam eles quais forem. Por exemplo, posso olhar para uma folha A4 e detectar mais rapidamente os erros que um corrector do Word. Ou perceber que aquilo que está escrito pode não fazer sentido de alguma forma! acrescenta. E no que toca a argumentação penso que em condições normais são poucos aqueles que se atrevem a me enfrentar! exclama. Não é apenas a argumentação, mas também o conhecimento que eu tenho sobre uma boa parte dos temas que eu tenho de falar. E se não tiver conhecimento rapidamente consigo ler uma quantidade grande de informação de forma rápida e capaz, refere. Eu sei que vários dos meus colegas do Direito também são competentes em muitas destas áreas que eu disse, ainda que vários deles não sejam autistas tal qual eu sou! chama a atenção. Eu hoje sei, após estes anos todos a pensar sobre o meu diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo que não é apenas ter algumas destas ou de outras características comportamentais! avisa.


Quando era mais jovem via todas as séries de advogados que iam passando na televisão, para além daquelas do passado. Apontava mentalmente todas as notas importantes e sentia que algumas daquelas deixas passaram a fazer parte da minha identidade. Hoje em dia têm ajudado, mas nem sempre foi assim! refere. Causaram-me imensas dificuldades, para não dizer pior, na relação com os meus colegas e professores. Ao ponto de no inicio da minha carreira ter ponderado em apresentar queixa contra alguns dos comportamentos de bullying e humilhação aos quais fui sujeito durante o meu período escolar e formativo! diz. Cheguei ao ponto de pensar que nunca chegaria a este ponto da minha vida. As dificuldades que via a acumular todos os dias na escola, depois na faculdade e desde sempre ao longo da minha vida, foi levando a fazer crescer a ideia de que não valeira a pena. O que é que fez a diferença? Os meus pais terem dito que eu haveria de ser advogado! E essa frase sempre ecoou repetidamente na minha cabeça quando estes pensamentos de desanimo se instalavam, acrescenta. Claro que não foi apenas isso, refere. O facto de ter sido apoiado pelos meus pais e profissionais de saúde foi fundamental para esta mudança que foi acontecendo ao longo do meu caminho. O que me leva a pensar na importância que teve para mim esta tomada de conscientização do ser autista, ainda que em vários momentos tenha ocultado e até mesmo camuflado alguns aspectos da minha pessoa, refere. Mas sempre tive para mim a ideia de que ser autista não representa uma vergonha ou estar errado! diz.


Inclusive tenho cada vez mais pensado em poder dedicar uma parte da minha actividade profissional a ajudar outras pessoas autistas a terem uma representação legal adequada à sua pessoa e características! diz. As pessoas autistas têm um conjunto de necessidades e dificuldades, e que acrescem quando as pessoas não as compreendem. Por exemplo, tenho visto algumas destas situações em tribunal de pessoas que deveriam ser autistas, ainda que não o soubessem e que estavam em apuros em grande parte por os meus colegas advogados e até mesmo o/a juiz/a não os estarem a conseguir compreender na sua forma de falar da situação, acrescenta.


Mas as dificuldades também foram continuando. Uma delas continua ainda hoje a ser aquela que mais precisei de pensar em como contornar ou fazer diminuir. Estou a falar da interacção com as pessoas! diz. Nada de novo tendo em conta o meu diagnóstico. Mas atendendo à minha profissão e principalmente a forma como a estava a desempenhar, as relações interpessoais, mas também as interacções sociais são uma realidade. Mas eu sentia-me cada vez mais cansado e quase considerei a determinada altura em mudar de profissão! confessa. Inclusive estava a começar a notar que alguma da minha competência e mestria começava a diminuir e isso para mim foi uma sinal vermelho, refere. A primeira medida foi reduzir drasticamente o número de casos que acompanhava. Não foi uma decisão fácil, mas o facto do meu terapeuta ter referido a importância dessa escolha ajudou na decisão. Mas apesar dessa redução, ainda assim não deixei de continuar a trabalhar na área. Passei a dedicar mais tempo à escrita, algo que sempre gostei e que ainda não tinha dedicado tempo a isso. Foi importante manter o tempo ocupado e de uma forma considerada significativa para mim! comenta.


E o que dizer do funcionamento da justiça? pergunta retoricamente. Ter de lidar com todas as alterações e atrasos sucessivos e inesperados? continua. Ou as atitudes menos éticas que alguns dos colegas vão tentando! Já para não falar daquilo que considero ser uma vergonha quando tenho de repreender colegas e até mesmo juizes no decorrer do julgamento! continua. As situações são quase infindáveis e contribuem significativamente para todo o cansaço que fui sentido. E por isso a minha vida tinha de ter uma mudança que me permitisse recarregar de forma adequada. Não é ideal, mas ao fim destes anos aquela frase dos meus pais continua a ser uma realidade! conclui.


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