Do que me vale chegar novamente à Lua se continuamos a negar direitos humanos fundamentais às pessoas autistas?
- pedrorodrigues

- há 2 dias
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Do que me vale chegar novamente à Lua se continuamos a negar direitos humanos fundamentais às pessoas autistas? esta é uma pergunta deixada por uma pessoa autista adulta.
Há um fascínio quase hipnótico na ideia de regressar à Lua. Algo que em principio será conseguido hoje pela segunda vez na história da humanidade. Um símbolo de conquista, de engenho humano, de superação dos limites do possível. Celebramos o avanço tecnológico como um triunfo coletivo, como prova de que a humanidade continua a expandir as fronteiras do conhecimento. Mas, no silêncio que se segue ao aplauso, permanece uma pergunta incómoda: que valor tem este progresso se, na Terra, persistimos em falhar no mais básico dos compromissos éticos?
Não se trata de questionar a ciência, mas de interrogar o modo como a utilizamos. Conseguimos desenvolver tecnologias capazes de atravessar o vazio do espaço, mas continuamos a demonstrar uma inquietante incapacidade de garantir dignidade, autonomia e inclusão a muitas pessoas, entre elas as pessoas autistas.
Curiosamente, o próprio universo da exploração espacial não é alheio à neurodiversidade. Astronautas como Scott Kelly, com perturbação de défice de atenção, e Pete Conrad, com dislexia, demonstram que perfis neurodivergentes podem não só integrar contextos altamente exigentes, como contribuir de forma significativa para o avanço científico. Ainda que historicamente subnotificada, devido ao estigma, a presença de pessoas neurodivergentes tem sido uma constante em funções críticas da indústria espacial, incluindo áreas de segurança, como no caso da engenheira da NASA Miranda Peters. A diferença, longe de ser um obstáculo, pode constituir uma vantagem adaptativa.
E, no entanto, regressando à Terra, o contraste é evidente.
Como é que uma pessoa autista adulta pode aspirar a uma vida independente se cerca de 80% vive com a família de forma dependente? Como é que se constrói autonomia sem acesso a habitação própria, quando uma percentagem significativa destas pessoas poderia estar plenamente integrada na sociedade, se as condições fossem ajustadas?
A resposta não reside numa limitação individual, mas numa falha estrutural.
A exclusão começa, muitas vezes, no acesso ao emprego. Processos de recrutamento pouco inclusivos, ambientes de trabalho inflexíveis e ausência de adaptações razoáveis afastam pessoas qualificadas. Segue-se a precariedade económica, que limita drasticamente o acesso ao mercado habitacional. A isto soma-se a escassez de modelos de habitação com suporte, capazes de responder à diversidade de perfis dentro do espectro. Entre a dependência familiar e a institucionalização, persistem lacunas significativas.
As famílias, por sua vez, assumem um papel central, frequentemente em regime de sobrecarga, substituindo aquilo que deveria ser uma responsabilidade partilhada pela sociedade. Este modelo, embora muitas vezes sustentado por cuidado e dedicação, não pode ser a única resposta.
Há, portanto, uma assimetria profunda entre aquilo que sabemos fazer e aquilo que escolhemos fazer.
O progresso científico não é, por si só, sinónimo de progresso humano. Só o será se for orientado por um compromisso ético claro, que coloque a dignidade no centro das decisões. Isso implica investir em modelos de habitação apoiada flexível, articular políticas de emprego e inclusão, criar apoios financeiros ajustados e, sobretudo, envolver as próprias pessoas autistas na construção das respostas que lhes dizem respeito.
Talvez a verdadeira medida do progresso não esteja na distância que conseguimos percorrer até à Lua, mas na proximidade que conseguimos criar entre direitos proclamados e direitos efetivamente garantidos.
Enquanto continuarmos a celebrar conquistas tecnológicas sem assegurar condições básicas de autonomia e participação para todos, permaneceremos num paradoxo desconfortável: capazes de alcançar o espaço, mas ainda incapazes de garantir, na Terra, o essencial.
E esse essencial não é extraordinário. É humano.




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