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Discos (im)pedidos

"When I get older losing my hair

Many years from now

Will you still be sending me a Valentine

Birthday greetings bottle of wine..."


When I'm Sixty-Four, by John Lennon & Paul McCartney


Muitos de vocês reconheceram imediatamente a capa do disco dos Beatles, certo? Outros começaram logo a trautear a música When I'am sixty-four, correcto? Mas provavelmente nenhum de vocês notou que existem duas fotografias que não pertencem aqui, verdade? Talvez algumas pessoas autistas e que tenham uma maior atenção para o detalhe possa ter detectado, ou então assim que leram a frase conseguiram ao fim de alguns segundos perceber onde se encontram essas mesmas duas fotografias! Curiosamente, este efeito de cegueira inatencional é algo bem conhecido das pessoas autistas. Mas curiosamente é um fenómeno que ocorre em qualquer um de nós, ainda que com níveis diferentes. Mas não vos quero falar de psicologia da atenção.


Voltando às duas fotografias que se encontram a mais, e para quem ainda não detectou, uma delas encontra-se no quadrante direito superior em cima da palmeira e ao lado do senhor de chapéu amarelo. E a outra encontra-se no quadrante esquerdo inferior por cima da fotografia da Marilyn Monroe. Agora que já conseguiram identificar onde estão, ficam a pensar que não sabem quem são. E como tal continuam sem perceber do que se trata este texto, certo?


Essa sensação de frustração e de não conseguir perceber algumas coisas é aquilo que a Debra Brish de 68 anos (fotografia lado direito) e a Antoinette Monks de 71 (fotografia do lado esquerdo) sentiram durante grande parte da sua vida. Isto até perceberem e lhes terem diagnosticado uma Perturbação do Espectro do Autismo e no caso da Antoinette também uma Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção subtipo desatento.


E como muitas pessoas no espectro do autismo costumam referir, também estas duas mulheres sentiram que sempre foram diferentes em toda a sua vida. E que ao longo deste tempo as pessoas em seu redor se sentiram desiludidas. Ainda que elas nunca tivessem compreendido o porquê. E esta sensação de não perceber o porquê é uma sensação que as atormenta uma vida inteira. Sentir que nunca se vai sair desta dupla via de incompreensão, ou de porque é que se faz, pensa ou sente determinadas coisas, é a sensação de se viver todos os dias no centro de um tornado. É uma exaustão antes mesmo de se ter acordado das poucas horas dormidas, até porque se teve normalmente maior dificuldade em adormecer por se sentir incapaz de desligar os pensamentos.


É ser-se adjectivado de preguiçoso e outras designações semelhantes e mal afamadas. E sentir que a escola é um desafio constante de barreiras, cada uma maior que a anterior, quando se percebe que todos os seus colegas parecem sentir o oposto e os professores na maior parte das vezes não fazem a mínima do que se passa e não se esforçam por entender.


E quando tudo isto se abate diariamente sobre a pessoa e nada mais resta, a ansiedade e principalmente a depressão toma conta do que resta da pessoa e mergulha-a num sofrimento atroz e numa angustia constante. E ainda assim, alguns profissionais de saúde parecem não ver para além destes sintomas e diagnosticam com Perturbação Bipolar ou algo semelhante, sem conseguir ver para além da cortina o espectro do autismo. E se porventura se tem a ousadia de colocar essa questão, ainda se arrisca a ouvir uma resposta de certo desdém.


A Debra e a Antoinette não são únicas, e nos últimos anos têm surgido cada vez mais pessoas acima dos 50 anos com relatos semelhantes e que se enquadram dentro do diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. E ainda assim se continua a ouvir - Agora tudo é autismo! ou Todas as pessoas têm um pouco de autismo! Ainda que a comunidade cientifica tenha demonstrado que não se trata de nenhuma epidemia de diagnósticos de autismo, mas antes uma maior capacidade de compreender o espectro do autismo e ter instrumentos de avaliação mais fidedignos.


A Debra e a Antoinette esperaram e desesperaram que alguém as acreditasse e quando isso aconteceu sentiram um alivio diluído em todo aquele sofrimento. Mas não deixaram de sentir o alívio e a possibilidade de terem uma outra de se perceber e que não passa por um diagnóstico moral ou desadequado. E agora, ainda que com todas as barreiras existentes, principalmente causadas pela incompreensão da Sociedade, em alguns momentos sentem vontade de assobiar ou trautear...


"When I get older losing my hair

Many years from now

Will you still be sending me a Valentine

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