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di.ver.gente

Tende a ser diferente ou desenvolver-se em diferentes direcções. Que diverge. Que parte do mesmo ponto e se afasta cada vez mais. [Figurado] Que não concorda; em que há divergência. [Gramática] Que teve uma origem igual mas evoluiu para uma forma diferente. O silêncio sempre me pareceu a forma mais divergente de todas, diz Cátia (nome fictício). Até porque não há um silêncio igual a outro, continua. E quem o ouve ou diz que ouve, também o interpreta de diferentes formas. E todo aquele silêncio pode levar as coisas em diferentes direcções, acrescenta. É quase como o vento. Ainda que este tenha regras e esteja sujeito a determinados condicionamentos e às próprias leis da física. No caso do silêncio isso não acontece, continua. E por regra o silêncio parte do mesmo ponto. Ou seja, parte do que não sabemos, concluiu. A minha mãe chamava-me reivindicativa, diz Ângela (nome fictício). Que estava sempre a argumentar e contra argumentar. Até mesmo nos silêncios. Coisa que nunca existiu, acrescenta. Nunca me lembro de ter um intervalo para o que quer que seja, diz. A minha cabeça nunca parou para pensar. Anda às voltas com tudo e até mesmo comigo, refere. Que sorte a tua, diz Carlos (nome fictício). Eu sempre disseram que sou do contra, diz. Nunca gostei dessa palavra - contra. Na verdade eu não sou do contra. Penso de forma diferente. Isso não é ser do contra. As coisas não têm uma só direcção. Têm a direcção que nós lhe desejamos dar naquele momento, concordam?, perguntou ao grupo. A Cátia já parecia mais desligada do que estava a acontecer. A Ângela pareceu concordar. Eu apenas penso diferente, continuou. E como penso muito, isso significa que sou muito diferente. Ou pelo menos diferente em muitas coisas. Mas não sou do contra. Recuso-me a isso, concluiu. Cátia, Ângela e Carlos são verdadeiramente diferentes. Todos os três têm um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. E nenhum deles é igual ao outro. Como é que te sentes por ser diferente?, perguntou-me a Cátia. Apesar de parecer desligada, é apenas aparente. Como assim Cátia?, devolvo-lhe a pergunta. Como te sentes por ser diferente?, continua. Tu és diferente de nós, certo? Abano a cabeça afirmativamente. Tu és diferente de tantas outras pessoas, correcto? Confirmo novamente. Então como é que te sentes por ser diferente?, insiste. Nunca tinha pensado nisso!, interrompe Ângela. Excelente pergunta, retorquiu Carlos. Sinto-me bem. Igual a mim mesmo!, respondo-lhe. Como é que consegues?, pergunta o Carlos. Como é que consegues sentir-te bem?, acrescenta. Excelente pergunta, diz Cátia. A Ângela chegou a cadeira um pouco mais perto do grupo. Parecia mais interessada. Porque sinto que estou a ser congruente comigo, com aquilo que sinto!, respondo-lhe. E como te sentes quando as pessoas não concordam contigo? Ou quando tu não concordas com elas?, pergunta Ângela. Parecia mesmo mais interessada. Sinto-me bem!, respondo-lhe. Não espero que todos concordem comigo. E sei que não concordo com todos. E isso não tem nada de mal. E também não tem de ter nada de bom, ainda que o seja. É assim. É natural. E isso faz-me sentir bem, respondo. E quando sabes que tens razão nas coisas?, pergunta Carlos. E quando os outros parecem nunca concordar em nada contigo?, pergunta Cátia. É como se tu fosses diferente mas de um tipo diferente de diferente, diz Ângela. O teu diferente parece enquadrar-se mais na forma de muitos outros. Ao contrário do meu diferente, acrescenta. Parece que voltamos à questão do silêncio!, acrescenta Cátia. Precisamente, diz Carlos. O meu diferente é único, diz Ângela. Apenas eu consigo compreendê-lo. E quando o tento explicar, as pessoas não compreendem. E a outra metade nem quer compreender, refere. É como se as pessoas quisessem dizer que a sua forma de ser ou pensar é a verdade, diz Carlos. E nós temos a verdade em cada um de nós próprios, diz Ângela. Ainda que muitos teimem em não a considerar, acrescenta. É como se a verdade apenas pudesse ser de alguns!, diz Carlos. Mas afinal o que é a verdade da divergência?, perguntei-lhes eu. Quem melhor do que um grupo de (neuro)divergentes para falar da sua própria verdade, pensei para mim. Em primeiro lugar não há só um normal!, diz Carlos. E ainda que as pessoas possam dizer que aquilo continua a ser normal, não deixa de der um normal diferente, acrescenta. E se esse ser normal diferente na verdade corresponde a uma diferente neurologia. Por que é que continua a haver tantas pessoas a dizerem que o meu diferente é estranho?, pergunta Ângela. Ou a dizer que há algo de errado comigo?, pergunta Cátia. As pessoas têm dificuldade em se compreender. Mais uns do que outros. Mais a uns do que a outros!, diz Carlos. E como as pessoas querem ser compreendidas, muitas procuram adaptar-se a outros, ao invés de se explicarem. Com receio de não serem compreendidos e por conseguinte aceites, mascaram-se. Eu mascaro-me, diz Cátia. Ainda que menos do que antes, acrescenta. E por que é que o divergente precisa de ser diagnosticado?, pergunta Ângela. E não me diga que é para o perceber! Porque o diagnóstico da forma como é feito não compreende a pessoa. Ou pelo menos não a maioria da pessoa!, diz Ângela. Ela já pensa em muito acerca deste aspecto. Passou por várias situações de múltiplos diagnósticos. E outras tantas situações que a traumatizaram ao longo do processo. E na verdade não deixa de ter razão nas questões que coloca, penso eu. O diagnóstico reconhece que há em ti determinado conjunto de características e que agrupadas dessa forma conferem um diagnóstico, respondo-lhe. Mas não é o diagnóstico que percebe a pessoa, acrescento. É o enquadramento desse mesmo diagnóstico e a relação terapêutica entre as duas pessoas que vão construir em conjunto essa compreensão, concluo. E depois há ainda quem diga que há os pouco e os muito divergentes!, refere Carlos. Aqueles que dos divergentes que são mais próximos desses que vêm essa diferença!, acrescenta. Faz lembrar as pessoas que parecem ter dificuldade em ficar-se perante o silêncio, digo eu. É como se não conseguissem tolerar a angústia do silêncio e tivessem que dizer algo. Como se tivessem que dar um nome a esse silêncio, concluo. E que nome se dá a essa dificuldade em tolerar a presença do silêncio? pergunta Ângela.


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