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Desenhar a voz

Durante algum tempo na minha vida não tive voz própria. Deixavam-me falar, por vezes por cortesia e educação, mas a palavra final era dos outros, normalmente adultos. Isso durou pouco tempo, e assim que a infância terminou e deu lugar à adolescência notei uma diferença. E desde então sinto que tem vindo a crescer e a melhorar.


Pensar que há grupos de pessoas que durante a vida inteira ou gerações não tiveram voz própria angustia-me, revolta-me e envergonha-me. Principalmente porque muitas vezes nos calamos ou participamos no silenciar destas pessoas.


No dia 25 de Fevereiro aceitei o convite para ir escutar a conferência internacional O Autismo pelos próprios. Como faço sempre, fui espreitar o programa, mas já tinha prometido a mim mesmo que queria lá estar. Queria ser testemunha de um movimento histórico e poder celebra-lo. Não queria que ninguém me contasse. Queria escuta-lo pelos próprios. Afinal era esse o tema da conferência. E além do mais já ouvi falar do Autismo contado por outros. Eu próprio falo do Autismo quando não o sou. Quanto muito serei um intérprete, um tradutor.


Ter voz própria é um exercício. Assim como o exercício de desenhar uma boca que começa por um esquisso. Mas como desenhar esta boca que deixa sair a minha voz? Não é fácil. Nem ter voz ou desenhar uma boca. Diz quem sabe que devemos começar por simplificar estruturas. Por exemplo, para compreender a boca comecemos por pensar numa esfera. A boca aberta será metade dessa esfera. Depois pensamos nos elementos chave.


As pessoas autistas têm voz, mesmo aqueles que são não verbais a têm, ainda que de uma forma diferente. Mas a voz é diferente em todos nós. As pessoas autistas não precisam de pedir para ter voz. É um direito seu. É um direito das pessoas. As pessoas autistas precisam de resgatar a sua voz, aquela que lhes foi e em certa medida vai sendo sequestrada.


A conferência de dia 25 não deixou créditos por mãos alheias. E o programa cientifico mostrou e comprovou-o bem. Mas não seria de esperar diferente. Por isso não se espantem, e aqueles que ainda se deixam espantar por aquilo que são as competências das pessoas autistas revejam as suas directrizes. Mas a conferência, além do aspecto cientifico e formal, teve a particularidade de ser um momento de celebração e comunhão entre quem estava presente.


Parece-me fundamental que este dia 25 e tudo o que ele representa possa significar um marco de mudança construído em conjunto. Quem procurar na comunidade internacional irá perceber que essa mudança já começou a ocorrer há algum tempo atrás. Seja no desenvolvimento de eventos científicos, mas também no desenvolvimento de projectos de investigação e outras actividades. Faz todo o sentido, sempre que desejado por aqueles envolvidos, que pessoas autistas e não autistas possam trabalhar lado a lado.


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