De zero a dez, dou-lhe um seis, e tu?
- pedrorodrigues

- 19 de mar. de 2025
- 4 min de leitura
"Uma situação com ruídos altos ou outros estímulos intensos, como uma discussão entre os pais, pode parecer uma aterragem nas praias da Normandia."
Gustavo (nome fictício), 23 anos, diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo
A determinada altura comecei a ler a DSM! diz Andreia (nome fictício). Na juventude já tinha lido a bíblia e depois comecei a ler o Mein Kampf, continua. Porquê a DSM? pergunta. Porque toda a vida ouvi falar dos meus diagnósticos. E se assim era, então tinha de saber o que o livro dos diagnósticos dizia sobre mim! refere. O mesmo aconteceu com a bíblia, quando me disseram na infância que existia deus e que o livro falava sobre ele. E como eu não acredita e ninguém me conseguia explicar de forma capaz a sua existência, comecei a ler a bíblia! acrescenta. E Mein Kampf teve a ver com o facto de ter passado tantas situações horríveis na vida e de começar a acreditar que haviam pessoas más no mundo que fui ler sobre como seriam as pessoas más! conclui.
A Andreia, tal como muitas outras pessoas autistas, perguntou-se a determinada altura se não teria também um diagnóstico de Perturbação de Stress Pós Traumático. Diz que foi o único diagnóstico que ninguém lhe deu, e que ela é que perguntou se não faria sentido!
As pessoas autistas apresentam frequentemente perturbações psiquiátricas concomitantes, tais como perturbações do humor, perturbações psicóticas, perturbações de ansiedade e perturbações alimentares e, recentemente, tem havido cada vez mais sugestões de que esta lista pode também incluir a perturbação de stress pós-traumático. Tem-se descoberto que as pessoas autistas não só experimentaram significativamente mais eventos traumáticos do que os não autistas, mas também apresentaram taxas mais elevadas de sintomas de PTSD.
De acordo com o modelo cognitivo de PTSD, a PTSD desenvolve-se após um acontecimento traumático quando um indivíduo percepciona um sentimento contínuo de ameaça como resultado de: (1) da sua avaliação do acontecimento traumático (e.g., os indivíduos podem avaliar incorretamente o acontecimento traumático como uma ocorrência frequente e, por conseguinte, sobrestimar a probabilidade de voltarem a experienciar um acontecimento semelhante no futuro), e (2) da natureza da sua memória do acontecimento traumático (e.g., os indivíduos com PTSD têm frequentemente memórias desorganizadas e fragmentadas do acontecimento traumático, mas experienciam fortes impressões sensoriais). A utilização de estratégias de coping desadaptativas - como a ruminação, o evitamento e os rituais de segurança - reforça ainda mais as avaliações negativas.
A maior vulnerabilidade à percepção de ameaça em função dos traços autistas não só sugere uma relação entre o autismo e a PTSD, como também pode explicar as recentes descobertas de que algumas pessoas autistas consideram traumático um leque mais vasto de acontecimentos da vida, como o luto, o bullying, a morte de um animal de estimação, o divórcio dos pais, as dificuldades de saúde mental, as dificuldades sociais e a doença, etc. A lista de situações consideradas, percepcionadas e experenciadas como traumáticas nas pessoas autistas é tão infinita quanto a sua variabilidade e heterogeneidade da expressão do seu diagnóstico de autismo. As situações podem variar de acontecimentos quotidianos, reais ou percepcionados, sons, palavras, frases, olhares de outras pessoas, pensamentos que os outros possam ter em relação a si ou a algo que diga ou faça. Mas também a situações confronto e conflito, mas também de uma discussão entre outras pessoas que possam estar perto de si, ainda que nem sequer as conheça ou tenha alguma relação com elas. Além de poderem ser pessoas desconhecidas e que estão a sofrer situações horríveis em Gaza ou em outras partes do Mundo onde está a acontecer uma guerra. Mas também o sem abrigo que está na rua. Passando pelas infindáveis situações de bullying na escola, faculdade e depois no local de trabalho. E de incompreensão por parte dos colegas e professores. Ou as incalculáveis situações de incompreensão dos outros em relação a si, e vive versa. No caso das raparigas e mulheres autistas serem mais frequentemente vitimas de abuso físico, psicológico e sexual. E poderia continuar a desejar situações vividas de forma traumática por parte das pessoas autistas. Como por exemplo, os maus tratos a animais e os continuados ataques à natureza!
Contudo, estes acontecimentos não se enquadram na definição de acontecimento traumático de acordo com o DSM-5-TR (i.e., “exposição a morte real ou ameaça de morte, ferimentos graves ou violência sexual”), pelo que não se prestariam a um diagnóstico formal de PTSD. No entanto, é possível que tais acontecimentos de vida stressantes possam, ainda assim, desencadear angústia significativa em pessoas autistas. Sem o conhecimento da relação entre o autismo e as percepções de trauma, estes sintomas de angústia podem ser negligenciados pelos profissionais de saúde, atrasando assim o acesso a apoio de saúde mental adequado. Atraso ou falta de apoio esse que também contribui para a experiência de mais situações traumáticas, para além da situação em si de não ser atendido ao nível da sua necessidade enquanto um direito fundamental. E se pensarmos, a prestação de apoio social tem sido consistentemente considerado um factor protector face à PTSD. E como tal, o mesmo também é verdade para qualquer outra pessoa que vivencie um ou mais eventos traumáticos. Contudo, podemos antecipar que a prestação de suporte social no espectro do autismo pode esta mais comprometido. Seja pelo próprio estigma em relação à condição e às pessoas autistas, assim como a ignorância e desconhecimento face às pessoas autistas. Mas também porque as próprias pessoas autistas, apresentam enquanto condição nuclear uma maior propensão para um determinado isolamento social.
A minha vida é toda ela um trauma! volta a dizer Andreia. E ao falar todos estes anos com pessoas autistas e de diferentes idades e em diferentes situações de vida só posso concluir o mesmo! acrescenta. Ser uma pessoa autista ainda implica viver de forma traumática. Seja por todas as situações anteriormente relatadas. Mas também pelo trauma de muitos de nós não saberem quem verdadeiramente são. Ou quando descobrem, também ficam a saber que a Sociedade parece não estar muito interessada em que a pessoa autista seja ela própria de uma forma genuína, estando muito frequentemente a procura-la mudar! conclui.



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