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De onde vem o trauma?

Trauma? O que é para mim o trauma? pergunta José (nome fictício). É ter sido constantemente analisado e forçado a fazer terapia na infância. Sentir ao longo de todos os anos na escola que não tinha os mesmos direitos humanos como as outras pessoas. E não, a educação especial não atenuou isso, conclui.


Eu apenas queria aprender, diz Manuel (nome fictício). Eu apenas queria ser como eles, continua. E eles empurraram-me para o centro comunitário para lavar pratos. Mesmo durante o tempo em que eu devia estar nas aulas a aprender as disciplinas como os outros, percebes? pergunta. E eu nem sequer gosto de lavar pratos, conclui.

Trauma? O grande problema foi quando me disseram para ter esperança, e que as coisas iam mudar e acabar, diz Bruno (nome fictício). Mas sabes, nunca acaba, refere. Dizem que fica melhor, mas nunca fica. Eu sempre tive pessoas a intimidar-me. Antes eram os colegas e professores. Agora são os colegas e o chefe. Não muda. É tudo a mesma coisa, conclui.


Trauma? As pessoas não sabem o que é isso! diz Rute (nome fictício). Eu sempre me senti um alienígena em todos os lugares. E as pessoas não fizeram nada para diminuir, muito pelo contrário, refere. Ter-me sentido todos estes anos como se não tivesse corpo, isso é o meu maior trauma. Sentir não ter corpo nem para sentir o trauma, conclui.


Desde criança que várias coisas foram traumáticas. Quais? pergunta Alexandre (nome fictício). Por exemplo, não posso colocar uma loção, creme ou algo assim na minha pele. Só isso? Achas pouco? pergunta mais irritado. Esta é uma das memórias mais traumáticas que tenho, estar a ser todo coberto em creme da cabeça aos pés. Sentia-me envergonhado, como se a minha cabeça tivesse sido separada do meu corpo por causa da sensação causado pelo creme, conclui.


Se me sinto traumatizada? pergunta Clara (nome fictício). Sim, todos os momentos da minha vida! diz. Porquê? pergunta. O facto de que algo imprevisível pode acontecer a qualquer momento é o meu medo número um, conclui.


O que me atormenta? Ou tira o sono? pergunta Carlos (nome fictício). Quando estou a ter conversas com as pessoas! Só isso? Claro que não, diz. Eu luto constantemente só para conseguir ler a comunicação não verbal da outra pessoa, da linguagem e isso torna toda a experiência frustrante e sem vontade de a ter, percebes? diz-me. Ou então deixa-me desconfiado...talvez erradamente, e sim, às vezes isso causa-me problemas, mais problemas, sempre mais problemas, conclui.


Por norma quando pensamos em trauma e vivências traumáticas, as primeiras ideias que nos vêm à mente são as de abuso físico, sexual e emocional, negligência, ferimentos graves e

doença, bullying, entre outros. E estas sãos em dúvida verdadeiramente traumáticas e que têm um impacto devastador no desenvolvimento de qualquer um de nós. Mas serão estes as únicas situação traumáticas?


O trauma, embora muitas vezes um termo de diagnóstico (i.e., um evento designado para causar a Perturbação Pós Stress Traumático (PPST), também pode ser definido mais amplamente como um evento ou circunstância que é experimentado como física ou emocionalmente prejudicial ou com risco de vida e tem efeitos adversos duradouros no funcionamento e no bem-estar. Esta definição sublinha que o trauma muitas vezes engloba uma gama mais ampla de resultados do que a PPST apenas e resulta não só de uma experiência, mas também da avaliação e capacidade de lidar com que a experiência.


Como tal, se pensar nas pessoas autistas e numa gama variada das suas características, podem pensar que há toda uma gama bastante variada de fontes de stress e de trauma. Contudo, também nesta área, quando estamos a avaliar a probabilidade de existência de eventos e vivências traumáticas, vamos estar mais orientados para aquilo que são considerados como eventos traumáticos habituais. Descurando em boa parte todo um conjunto de eventos e vivências igualmente traumáticas e vividas no quotidiano por todas as pessoas autistas. Seja nos instrumentos de auto-relato ou nas entrevistas semi-estruturadas para o efeito, há muita informação que não está a ser tida em conta. E no autismo isto ocorre não apenas para o Pós Stress Traumático, mas também para as questões do humor, ansiedade, etc. Ou seja, é fundamental que estes instrumentos de avaliação e a própria sensibilidade clinica possa aprender a escutar as pessoas autistas.


Por exemplo, nas pessoas autistas podemos ter fontes adicionais de trauma como as incongruências entre a função sensorial, executiva e o processamento social e o seu ambiente circundante. Mais especificamente, cortes de cabelo, alarmes de incêndio e tratamentos dentários, gestão mudanças — das estações mudança de casa, escola, etc. A incerteza crónica e a exclusão causada por faltar ou lutar para entender as pistas sociais são frequentemente descritas como fontes de traumas psicológicos duradouros.


Mas que não se pense que as pessoas autistas não passam por eventos e vivências traumáticas como o abuso físico, sexual ou emocional e bullying! Por que passam e muito. Até mesmo mais do que quando comparados com a população em geral. No entanto, também é importante não deixar de dar voz a este outro tipo de traumas, tais como a exclusão social e as várias situações diárias e constantes de incongruências. Ou todas as restrições sentidas pelas pessoas autistas ao longo da vida no que diz respeito aos seus próprios movimentos e decisões básicas de onde e quando comer ou de conversar com as outras pessoas. Estas restrições todas também são sentidas como constantes e muito frequentemente diárias e ao longo de uma vida. E não esquecer a restrição traumática vivida por muitas pessoas autistas decorrente da diminuição da autodeterminação e das oportunidades. Sejam as oportunidades de aprendizagem, desenvolvimento, actualização em ambientes educativos e terapêuticos. Ter as expectativas diminuídas para o futuro e para uma qualidade de vida igual também é um trauma. Experimentem viver sem esperança!


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