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Dating with Autismo n'Adulto

Sabes de alguma App para encontros mas que seja adaptada para pessoas autistas?, perguntou-me Carlos (nome fictício). Para além do Tinder sabes de alguma outra App em que possa ser mais seguro uma pessoa autista conseguir ter encontros?, questionou-me Joana (nome fictício). Como é que eu faço para convidar a minha colega do trabalho para sair?, perguntava António (nome fictício). Será que o meu colega da universidade vai levar a bem se eu o convidar para sair?, questionava Júlia (nome fictício) Tive um encontro a semana passada e tenho ideia de as coisas não terem corrido da melhor forma porque se calhar eu não consegui entender bem as intenções da outra pessoa! afirmou Catarina (nome fictício). Alguém tem conhecimento de algumas aplicações para pessoas autistas adultas recorrerem para ter encontros? perguntava-se num grupo de WhatsApp de psicólogos clínicos.


Contrariamente ao estereótipo de que pessoas autistas não desejam ter relações íntimas, vários trabalhos de investigação, que inclusive têm procurado implementar e validar programas para o treino de competências no namoro, têm mostrado que várias pessoas autistas desejam viver relações românticas.


No entanto, as pessoas autistas sentem e referem enfrentar vários desafios nas relações interpessoais, sociais e por conseguinte românticas. A solidão, o isolamento social, falta de apoio psicossocial, estigma por parte da Sociedade em relação ao autismo, entre outros, são factores conhecidos que afectam negativamente a qualidade de vida das pessoas autistas adultas. E embora a maioria das pessoas autistas manifeste interessem em amizades e relações românticas, podem também ter dificuldades em as formar e também manter.


Referem ter menos amigos, ainda que muitos digam que se sentem confortáveis dessa forma. e que têm relações românticas com menos frequência, mas que também recebem menos apoio psicossocial de uma maneira geral do que as pessoas não autistas.


E se por um lado vão existindo programas para a promoção de competências no namoro para pessoas autistas mas em adolescentes e jovens adultos. O mesmo parece já não ser tão verdade para as pessoas autistas adultas.


E para além destas questões, as próprias pessoas autistas referem sentir algum viés de paternalismo por parte de quem conceptualiza alguns dos programas de intervenção nesta área. Chegando mesmo a haver a ideia de alguma infantilização face à forma como as pessoas autistas adultas sentem o seu desejo acerca das relações românticas, mas também como os próprios as procuram viver.


Abordar as competências no namoro e nas relações românticas de uma maneira geral parece-me em tudo viável e fundamental. Não somente por as questões da sexualidade serem parte integrante da pessoa autista, mas também por outros aspectos conhecidos. A maior dificuldade da pessoa autista no processo de auto-conhecimento, seja do seu corpo, mas também da sua personalidade, é um ponto fundamental a ser desenvolvido junto da pessoa, nomeadamente nestes programas. Até porque antes de se pensar no Outro na relação é imperativo pensar-se a si próprio. Mas também é fundamental poder pensar na(s) fronteira(s) entre si e o Outro. O espaço inter-relacional e a necessidade de se conhecer e poder respeitar é fundamental na relação. E ainda mais no momento em que se está a começar a conhecer a outra pessoa. E se é importante respeitar o espaço do Outro, ainda mais é respeitar o seu seu próprio. E são conhecidos todo um conjunto de dados que referem o quanto as mulheres autistas se encontram desprotegidas e fragilizadas nas relações românticas e vitimas de situações de abuso físico, emocional e sexual. Já para não falar de todo um conjunto de aspectos do próprio guião social e deste guião mais orientado para as relações românticas.


Desenvolver um programa de competências para as relações românticas para as pessoas autistas adultas é muito mais do que lhes levar todo um conjunto de saberes pré-construidos. É poder estar com e escutar a sua pessoa e em conjunto ajuda-la a se escutar a si mesma e a saber compreender e (re)construir. Claro que há módulos mais estruturados e estruturantes daquilo que pertence à ética do namoro. Mas é fundamental que se possa pensar de forma mais abrangente sobre a relação e esta é dinâmica, seja fora ou dentro do espectro do autismo.


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