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#corrercomoautismo

A única disciplina em que o meu filho tem negativa é Educação Física. Acha isto normal? pergunta uma mãe. Já tentei de todas as formas explicar na escola que a minha filha não consegue fazer Educação Física! diz um pai desesperado com a situação. Odeio quando a minha professora de Educação Física me manda ficar a aula toda sentada no banco! desabafa uma jovem. Se o meu professor e Educação Física soubesse o que me custa ter de fazer aquelas actividades conjuntas com os meus colegas e ainda ser gozado por cima?! questiona retoricamente um jovem.


Sabe o que é que estas quatro pessoas têm em comum? Educação Física e Autismo.


Ainda continuamos a ouvir que as pessoas autistas não gostam de actividade física. Seja devido a questão relacionadas com a motricidade ou então com o terem de realizar uma tarefa conjunta com o grupo de pares. Ou pelas questões sensoriais, ou então a realização de actividades em que a coordenação mão-olho é requerida. E ainda existem mais um conjunto de outras razões que uns e outros apresentam. E não que as razões apresentadas não sejam legitimas, porque o são. Contudo, é importante poder desmistificar esta ideia de que as pessoas autistas não gostam de praticar uma actividade física. É verdade que já falei aqui de Educação Física, actividade física, e também poderei falar em exercício físico. E não, não são tudo a mesma coisa. Mas eu também não sou um profissional da área do desporto.


Contudo, sou um profissional de saúde mental que trabalha com pessoas autistas e que verifica o quanto errado é esta concepção de que as pessoas autistas não gostam de actividade física. Além de verificar a importância que a introdução desta prática teria na vida da pessoa autista ao nível da saúde física mas também mental, assim como o tem na vida de todos nós.


Se o meu professor de Educação Física ao menos me deixasse usar os fones na aula. Aquele apito faz um barulho imenso e com todos a gritar ao mesmo tempo pior ainda! confessa um jovem. Para mim a grande dificuldade é o ser agarrada. Se ao menos houvesse uma forma de os meus colegas não me tocarem! diz uma jovem. Já tenho dado com o meu filho a chorar sozinho no quarto todo nu em frente do espelho. Nunca o meu filho tinha chorado! desabafa uma mãe. A minha filha a semana passada disse-me que ficou com a ideia de não ter sido aceite numa entrevista de emprego por causa do seu peso! refere um pai.


Sabe o que é que estas quatro pessoas têm em comum? Educação Física e Autismo.


Da mesma forma que se faz adaptações nas mais variadas disciplinas na escolaridade obrigatória para que possa ser possível para os estudantes com diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo poderem fazer o seu processo de aprendizagem. É importante que o mesmo possa ser pensado para a questão da Educação Física. E sim, eu sei que há professores desta disciplina que o fazem. Mas a grande maioria das vezes isso não acontece e em tantas outras vezes a opção mais fácil parece ser o aluno não fazer a prática de actividade física. Além do mais, a questão não deve apenas ser centra na disciplina de Educação Física, apesar de eu já ter referido algumas vezes isso no texto. Ainda assim, a disciplina em questão não deixa de assumir a sua importância tendo em conta a continuidade da mesma ao longo do tempo na vida destes estudantes. Mas também é importante poder pensar na importância de fomentar a própria prática de actividade física que vá para além da disciplina de Educação Física. Até porque em Portugal aquilo que se verifica e não apenas nas pessoas autistas, é de que a prática de uma actividade física ao longo da vida é muito reduzida. Por exemplo, sabia que em Portugal cerca de 70% das pessoas não fazem uma prática de actividade física com regularidade?


Simplesmente não me faz sentido que a pratica de actividade física, a disciplina de Educação Física ou a prática de desporto, não posso ser pensada de uma forma adaptada a todos. Se já temos essa mesma prática para as pessoas com deficiência, principalmente física e intelectual. E com resultados tão positivos na vida de todos os praticantes, seja ao nível físico, mental mas também na integração social. Porque não pensar de forma mais abrangente para toda uma gama mais variada de outras condições, nomeadamente o autismo?


A formação dos profissionais da área do desporto em Portugal tem uma grande e fantástica tradição. Por exemplo, os profissionais formados pela Faculdade de Motricidade Humana e outras instituições têm demonstrado ao longo destes anos a franca capacidade de implementar projectos únicos e transformadores na área do Desporto. Mas depois verificamos que por várias razões este ímpeto parece não transparecer de forma standardizada nos programas escolares na disciplina de Educação Física.


A imagem mostra um jovem a correr, mas não tem de ser apenas esta a actividade física a ser realizada. Na verdade, toda e qualquer actividade física é possível de ser realizada por uma pessoa autista, desde que ela o deseje e haja alguém que a possa ensinar.


São várias as razões que justificam a importância de repensar a prática de uma actividade física, a disciplina de Educação Física ou a prática de desporto no autismo. Seja porque associado a esta condição existem várias outras condições de saúde e que beneficiam do exercício físico. Ou porque no autismo são conhecidas várias questões em torno da esfera da alimentação e que de forma conjugada com maior inactividade leva em muitas situações a um aumento de peso prejudicial ao nível da saúde física e mental. E situação esta que beneficiaria igualmente do exercício fisico. E quando tantas vezes se fala da importância de promover competências sociais, existem inúmeras práticas desportivas que são feitas em grupo e de uma forma regular. Factos suficientes para justificar a importância da introdução desta prática. E o que dizer das dificuldades ao nível da motricidade fina e grossa e a forma como estas beneficiariam do ponto de vista da reabilitação com a introdução de actividade física?! E se quisermos também podemos pensar que uma determinada actividade física tem um conjunto de procedimentos, que depois de aprendidos se podem e devem repetir da mesma forma para executar de uma forma adequada. E não é que as pessoas autistas funcionam bem com este tipo de procedimento?! E se pensarmos que no desporto de uma maneira geral é promovida um espirito de fair play e de interajuda, que melhores razões podem existir para que as pessoas autistas se juntem nestas actividades de uma forma protegida e com a promoção de uma identidade de grupo.


A introdução de uma actividade desportiva na vida de uma pessoa, seja autista ou não, não é sinónimo de salvação ou de panaceia para curar o que seja. Contudo, é inegável o reconhecimento das suas mais valias. E se assim for junte-se e venha #corrercomoautismo.


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