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Conversa fiada

Cinco dicas para um neurotipico falar com um autista, dizia numa das opções de uma pesquisa que fiz um destes dias. Já não é a primeira vez que encontro essa informação confesso. Já encontrei a frase formulada ao contrário. Ou até mesmo livros a reportar como é que os autistas poderão compreender os neurotipicos. E se fizermos uma pesquisa ao nível dos artigos científicos verificamos que estes se centram exclusivamente nas características de diagnóstico da Perturbação do Espectro do Autismo e que implicam um compromisso na comunicação verbal e não verbal em que pelo menos uma das pessoas envolvidas é autista. Seja porque o primeiro critério encontrado no manual de diagnóstico diz respeito precisamente ao deficit na comunicação social em contextos sociais. Mas também devido à Teoria da Mente e à maior dificuldade em conseguir inferir acerca do pensamento e sentimento do outro com quem interage. E as questões não param. Seja a adesão inflexível às rotinas ou os interesses restritos em determinados temas e que acabam por ser abordados com determinada insistência em algumas conversas. Poderia fazer um post a escrever sobre as características que podem impactar negativamente na comunicação social. Mas não o quero fazer. Prefiro dizer que me parece importante poder falar-se sobre o facto das pessoas autistas falarem de vários assuntos. Sejam mais sérios e que digam respeito a aspectos da sua vida, mas também toda uma gama de temas mais banais. Sim, as pessoas autistas também se detém em assuntos banais. E esta questão parece-me igualmente importante porque ainda continuamos a verificar um grande desconhecimento da Sociedade em geral acerca do autismo. E quando as pessoas procuram consultar alguma informação, seja online ou offline, a informação que encontram centra-se muito naquilo que são os deficit ou as dificuldades sentidas numa gama variada de situações. Não é de espantar que muitas vezes a pessoa neurotipica veja reforçado todo um conjunto de crenças acerca do que é o autismo e o comportamento da pessoa autista e isso acabe por condicionar o seu próprio comportamento e atitudes quando na interacção com uma pessoa autista. Mesmo até quando se faz algumas pesquisas mais aprofundadas na comunidade autista é comum verificar que alguma da informação apresenta também se encontra centrado nas dificuldades sentidas e nas dicas em como as ultrapassar. Nada contra isso confesso. É bom falar sobre as dificuldades. Nomeadamente é uma forma de partilhar as dificuldades sentidas com o nosso grupo e de podermos obter validação, compreensão e informação de como as ultrapassar. Mas ainda assim sinto necessidade de se poder falar sobre outras coisas que estão presentes na vida das pessoas autistas e que penso que poderão ajudar em muito a normalizar a própria condição. Se eu souber que uma pessoa autista adulta se vai preocupar com o inicio de uma nova semana começando amanhã. Além de estar a pensar em como é que vai resolver um conjunto de situação relativamente ao seu filho na escola. Ou que também está a pensar quando é que a sua empresa irá fazer a transferência do ordenado para que possa fazer a encomenda da bicicleta para os anos da sua filha, etc. São todo um conjunto de coisas com as quais me consigo identificar facilmente. E como tal torna-se mais fácil de iniciar uma conversa com alguém que reconhecemos que têm um conjunto de questões semelhantes a nós. E se começarem a pensar que já leram que as pessoas autistas podem não compreender piadas. Estou certo que muitos dos vossos amigos ou amigos também poderão ter alguma dificuldade nesse campo sem que sejam autistas. Ou então também pode acontecer o facto de você próprio ser uma pessoa com um sentido de humor muito particular e que poucas pessoas tenham capacidade de o entender. E o mesmo poderia ser questionado para um conjunto de outras características encontradas no Espectro do Autismo. E com isto não estou de todo a querer significar que todas as pessoas são um "pouco autistas". Ainda que se saiba que algumas das características presentes no Espectro do Autismo se encontram presentes na população em geral, ainda que com uma apresentação mais subtil. Mas já me estou a desviar para as questões das características e das dificuldades. As pessoas autistas também falam de muitas outras coisas que podem ser vistas como positivas. E antes que possam dizer que essas mesmas coisas se enquadram dentro do interesses restritos, tal como descrito no manual de diagnóstico. Devo dizer que há muita coisa que as pessoas autistas fazem e que não pertence a essa categoria. Ainda que as coisas dessa categoria sejam causadoras de maior prazer quando realizadas, tal como para qualquer um de nós. E quanto ao facto de se referir que o sentido ambíguo das conversas e conceitos é mais difícil para as pessoas autistas. Seria importante que as pessoas tivessem noção do seu próprio nível de ambiguidade e que não é apenas para as pessoas autistas que é difícil de compreender. E o que dizer quando há quem refere que no caso de uma pessoa autista fazer uma conversação banal é porque deve estar a camuflar? O perigo de se falar exclusivamente acerca das dificuldades observadas em determinada condição leva a centrar a perspectiva das pessoas que vão interagir consigo mais centradas nesses aspectos. Será fundamental como tal haver uma conquista de um espaço que pertence também às pessoas autistas no tecido social. Esta presença mais frequente e com maior visibilidade irá ajudar a derrubar todo um conjunto de crenças erróneas em relação às pessoas autistas.


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