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Conversa de cérebros

Continuo a não estar convencido desta mudança no autismo com a introdução da DSM 5! dizia. Como assim? Não passou a ser mais especifico? perguntou. E com isso mais objectivo? continuou. Sim, tornou-se mais especifico, mas o autismo é muito mais do que isso! referiu. Por exemplo, antes da DSM 5 tinhas vários tipos de autismo! E com esta nova designação houve pessoas que ficaram de fora, ainda que apresentem todo um conjunto de características compreendidas como estando no espectro! referiu. Mas talvez sejam outras coisas que não autismo! replicava o outro. Se te referes às comorbilidades psiquiátricas, elas existem não obstante o caso de autismo ser menos ou mais evidente! acrescentou. A conversa parecia não ter fim e não ia ficar por ali. E não tem de ficar, até porque é preciso continuar a perguntar, observar, analisar, investigar, e voltar a perguntar.


Apesar de termos a DSM 5 e com ela passamos a ter uma só designação - Perturbação do Espectro do Autismo. O certo é que os diferentes subtipos de autismo que antes desta nova formulação existiam, simplesmente não deixaram de existir. E a própria expressão tão variável e heterogénea observada no autismo deixa perceber isso. Ainda que esta tão grande heterogeneidade seja ela própria uma características intrínseca ao próprio autismo.


Mas que continua a trabalhar enquanto clinico com pessoas com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, continua a observar toda uma miríade de situações e expressões clinicas. Nomeadamente, algumas situações que apesar de apresentarem algumas características presentes nos critérios de diagnóstico da Perturbação do Espectro do Autismo, não aparecem todas as características. E além disso também se verifica que o impacto causado na vida da pessoa parece não ser tão grande quanto aquele observado em outras situações com o diagnóstico de espectro do autismo. E não é por acaso que continuou a haver algumas outras designações e modelos compreensivos destas situações dentro ou na fronteira muito próxima com o espectro do autismo. E que foi sendo designado de baixo limiar (sublimiar) de perturbação do espectro do autismo (tradução de subtreshold autism spectrum disorder). Conceito este que leva novamente a considerar a mudança de uma visão mais dimensional ao invés de categorial no espectro do autismo, assim como para a psicopatologia no geral. Questão que também ela não é novidade, e que tem continuamente sido demonstrada que as pessoas e as suas vidas e sintomas não se arrumam em caixinhas e que estas podem ter um só nome. E se pensarmos no caso do espectro do autismo, não deixa de ser curioso que na DSM 5 passou a ser possível um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo em comorbilidade com uma Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, algo que antes não era possível. E algo muito semelhante tem sido pensado em relação ao contínuo entre o espectro do autismo e as perturbações da personalidade (ou pelo menos algumas delas). Como é o caso das mulheres, em que apesar de terem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, se verifica que ao fim de algum tempo de intervenção, as características nucleares do espectro do autismo parecem apresentar muito mais atenuadas, deixando visível um padrão de comportamentos que mais facilmente se parecem enquadrar numa Perturbação da Personalidade Borderline. Ou então a proximidade que a vida de algumas pessoas autistas têm em relação à perturbação de stress pós traumático, não só pela ocorrência de situações traumáticas, mas também a própria forma como estas são rememoradas e re-experenciadas. Mas também a sobreposição que encontramos com as perturbações da conduta alimentar e o espectro do autismo. Quando no espectro do autismo se verificam inúmeras situações de restrição alimentar e outras características sobreponíveis. E já antes se colocava a fronteira mais ténue entre o espectro do autismo e a perturbação obsessivo-compulsiva. Quando no espectro se verificam outras tantas situações de necessidade de rotinas e rituais, assim como de compulsões. E nos últimos 10 anos, a investigação e os relatos clínicos têm demonstrado a evidência do comportamento de camuflagem social, principalmente em raparigas e mulheres autistas, contrariando todo um conjunto de crenças sobre o deficit da interacção e comunicação social referido no espectro do autismo. E não será por acaso que o próprio movimento neurodivergente tem procurado conquistar um espaço próprio no neurodesenvolvimento trazendo a necessidade de uma mudança de visão, seja com um apport maior do modelo social, mas também de uma menor perspectiva capacitista sobre as pessoas autistas. E não, isso não significa que tenha havido uma cura do autismo naquela pessoa. Ou que a pessoa tenha deixado de ser autista. Provavelmente significa que temos todos de continuar a pensar muito mais e melhor o que é que isto tudo pode querer dizer e significar.


É verdade que poderá sempre ser dito que esta ideia de um especto do autismo sublimiar poderá ser uma tentativa de um grupo de clínicos e investigadores a impor uma visão sobre o autismo. Mas isso não é igualmente verdade para o grupo de clínicos e investigadores que fazem parte das equipas da DSM? Parece-me fundamental que sem ser através de uma qualquer imposição, ainda que revestida de uma capa clinica e cientifica, se tente dizer que esta ou aquela é a única forma de poder olhar e pensar o autismo. Ainda que esteja ciente da necessidade de uniformização para efeitos mais burocráticos e afins. Mas essas necessidades não devem fazer toldar uma visão clinica e cientifica critica acerca daquilo que continuamos a observar. E se quisermos podemos pensar que apesar de haver todo um conjunto de instrumentos validados para avaliar o autismo, sejam questionários de autopreenchimento, mas também entrevistas semi-estruturadas e de observação, no fim o diagnóstico de autismo é clinico. E não será por acaso que apesar das respostas obtidas em determinada avaliação não alcançarem o limiar do valor determinado pelo algoritmo desses instrumentos, ainda assim seja possível de atribuir um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.


Mas também corremos outro(s) risco(s). Nomeadamente, de passarmos a diagnosticar Perturbação do Espectro do Autismo quando na realidade não se trata. E não é por acaso que estando a falar de uma perturbação do neurodesenvolvimento é vital observar que este perfil de funcionamento, ainda que adaptado à idade da pessoa, possa igualmente ser observado desde a infância. Mas quando estamos a falar em avaliar pessoas adultas, e recordo que por pessoas adultas estou a referir-me a pessoas entre os 24 e os 65 anos. O que quer dizer que a possibilidade de recolha de informação clinica válida sobre o período da infância fica mais difícil. Ou o ter outros informadores sobre a pessoa a ser avaliada também acaba por ser menor. Além de pensarmos que se estamos a procurar fazer uma avaliação para o despiste de autismo na idade adulta é porque algumas coisas falharam ao longo do processo. Até porque é suposto que a pessoa tivesse sido diagnosticada na infância. Como podemos perceber as questão são várias e pertinentes, e com um impacto grande na prática clinica e na vida das pessoas.


 
 
 

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