top of page

Como construir uma casa

Não se começa uma casa pelo telhado! ouvimos frequentemente dizer. Mas talvez esta ideia seja muito sobrevalorizada tendo em conta a importância do telhado. Mas fiquem descansados porque não vos quero falar de princípios da Engenharia Civil ou semelhante.


Quando procuramos falar da integração de pessoas com deficiência no mercado de trabalho é inevitavel ouvir igualmente falar sobre as acomodações e mudanças necessárias para acolher e integrar estas pessoas. E subsequentemente ouvimos, uns mais do que outros, a falar dos custos e gastos envolvidos neste processo. Além do (pouco) retorno que pensam vir a ter, ainda que tenha pudor ou vergonha em o assumir.


Quando comecei há alguns anos a tomar conheciimento das necessidades das pessoas autistas adultas na integração no mercado de trabalho foi imediato pensar que algumas destas suas questões já deveriam ser implementadas para vários ou até mesmo todos os restantes trabalhadores. E como tal, nunca me convenceu esta ideia de ter de estar a propor e promover as acomodações e alterações com a alavanca justificativa de que são para as pessoas autistas.


Por exemplo, muitas das pessoas autistas lembram com tristeza, espanto e alguma zanga, que quando estavam na escola ou na faculdade e alguns dos seus colegas tomaram conhecimento das medidas a implementar para a educação inclusiva ao abrigo da legislação em vigor na altura, e que levava a que estes pudessem ter mais tempo para a realização das avaliações, entre outras tantas possibilidades, reagiam de forma negativa. Este tipo de reacção ao longo do tempo foi levando a que vários estudantes com diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo digam que não querem ser refernciados para a Educação Inclusiva. Além de os seus pais por vezes também fazerem menção a esse mesmo receio.


Nos locais de trabalho também se passam situações semelhantes, as pessoas autistas adultas não quererem ser referenciadas enquanto tal para que os seus colegas e também chefias não tenham conhecimento da sua condição e que possam usa-la de uma forma negativa. Facto que representa um custo tremendo para a pessoa autista e que leva a que muitas das vezes a pessoa sinta que não se consegue manter no local de trabalho. Para além do custo que representa para o agravamento da sua saúde mental, mas também física.


E por isso volto novamente à frase inicial - Não se começa a construir uma casa pela cabeça! Mas talvez seja importante começar a construir esta "casa" pela cabeça. Ou seja, pensarmos que as diferentes "cabeças" que encontramos num local de trabalho são todas elas bem diferentes. E esse diferente representa necessariamente diferentes formas de trabalhar, pensar, ser, sentir, relacionar, etc. E como tal, é importante que os locais e processos de trabalho possam estar adequados a uma maior heterogeneidade. E não tão somente adaptados àquilo que possa ser entendido como a norma.


E como é importante poder conhecer as "cabeças" das pessoas e neste caso de todas as pessoas, é fundamental que o próprio processo de recrutamento possa logo de principio ser inclusivo e abarcar as diferentes formas de processamento de informação, assim como, aquilo que é designado por (neuro)divergências. Mas para isso, também nos parece importante que as próprias Organizações possam ter um conhecimento mais adequado e real sobre a forma das pessoas neurodivergentes funcionarem. Até para que sejam estas mesmos a solicitar o recrutamento de pessoas que possam encaixar neste perfil. E já agora acrescentar que não é apenas na área das Tecnologias de Informação que as pessoas autistas adultas se integram. Na verdade podemos pensar que uma pessoa autista se poderá encaixar num qualquer contexto.


Para além disso, uma das questões que é sobejamente referido como necessidade nas pessoas autistas adultas são as questões sensoriais. Seja a presença de determinado nível de ruiído, luminância, maior presença de pessoas num espaço aberto, etc. Se pensarmos bem, todas estas questões sensoriais, apesar de representarem uma hipersensibilidade para muitas pessoas autistas. Também é verdade que se forem acomodadas irão criar um melhor ambiente de trabalho para todos os trabalhadores, pessoas autistas e não autistas. Ou então, a necessidade de uma maior previsibilidade dos processos de trabalho. Factor tão importante nas pessoas autistas, mas que se pensarmos faz todo o sentido que possa existir até para dar uma maior consistência naquilo que é o trabalho de qualquer um de nós. As mudanças do ponto de vista da arquitectura e estrutura dos edificos onde as Organizões estão implementadas. Assim como os próprios processos de gestão e de melhoria da Cultura Organizacional, pode e deve reflectir a (neuro)diversidade encontrada nestes espaços e ir ao encontro de uma melhoria constante. Até porque já está mais do que demonstrado que a devida integração de pessoas neurodivergentes no mercado de trabalho se traduz num ganho para as Organizações. Acha que não!? Pergunte-nos!!


 
 
 

Comentários


Informação útil:

Cadastre-se

  • Facebook Social Icon
  • YouTube Social  Icon
  • Instagram Social Icon
  • Twitter Social Icon

©2018 by Autismo no Adulto. Proudly created with Wix.com

bottom of page