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Como é que eu faço sexo?

Sexualidade não é só sexo, mas é uma parte importante para mim, diz Carlos (nome fictício). Não é que a sexualidade não seja importante, porque é. Ela está sempre a acontecer e em tudo na nossa vida. Mas neste momento da minha vida estou mais importada com a questão do sexo e da satisfação que tiro das minhas relações, diz Catarina (nome fictício). Tenho a sensação de já ter falado muito sobre sexualidade ao longo destes anos todos, diz António (nome fictício). Seja na escola e em alguns cursos que frequentei. Falamos sobre a importâncias das relações e de nós próprios. Mas também do afecto e dos vários tipos de afecto, da confiança, prazer e das várias formas de prazer, sorriso, abraço, carinho, paixão, responsabilidade, partilha, sedução, amizade, respeito, confiança, ternura, toque, segurança e sexo, acrescenta António. Como vês já ouvi falar muito de sexualidade. Mas não sinto que saiba nada sobre sexo, refere. Até porque não há grande coisa que fale sobre o sexo, sorri envergonhado. Quer dizer, há uns vídeos na internet e filmes. Mas não é a mesma coisa, concluiu.


Este é um tema que continua a ser falado nos bastidores, seja o da sexualidade e principalmente a sexualidade nas pessoas com deficiência. E se é verdade que vai sendo cada vez mais falado, ainda continua a ser em muito em torno das características das pessoas com deficiência e de como estas podem trazer problemas na esfera da sexualidade. Ou seja, parece que apesar de falarem sobre o tema, ainda o fazem de uma forma hermética e higienizada. Porque se pensarmos em falar de prazer, desejo de ter um orgasmo, atração intensa, fetiches, etc., fico quase sempre com a sensação que a conversa é vista como se estas questões fossem proibitivas ou como fazendo parte de algumas das características psicológicas da pessoa com deficiência.


As pessoas não estavam à espera que eu não pensasse ou gostasse de fazer sexo só por ter uma paralisia cerebral, certo?, pergunta Carlos (nome fictício). É verdade que nasci com paralisia cerebral. Tenho espasticidade nas pernas, e isso faz com com que o meu corpo não seja muito flexível. A minha deficiência tem impacto no desejo e nas experiências. Claro que, durante muito tempo, estava habituado à ideia de que a sexualidade e a incapacidade não se cruzam por causa da forma como estamos condicionados. Toda a ideia de namoro e sexualidade veio com muita hesitação, acrescenta.


Demorei até descobrir a masturbação, desabafa Carla (nome fictício). Não sei o que é que os meus pais tinham na cabeça para não me falar nisso, principalmente a minha mãe, concluiu. Quando cheguei aos vinte anos é que ouvi falar da primeira vez sobre sexo oral, diz Ângela. Precisamente quando estava com o meu namorado, acrescenta. Já não bastava todo o stress por ser a primeira vez que ia estar numa relação sexual e ainda por cima não sabia o que era isso, refere. Felizmente o meu namorado nessa altura foi compreensivo e explicou-me o que era. Mas já tive outros relacionamentos depois dele que se tivesse acontecido a mesma coisa não sei o que me poderia ter acontecido, concluiu.


Tentei um vibrador, mas também foi com o meu parceiro, diz Miguel (nome fictício). Como também vivo com a minha família, quase não há espaço. Além disso, com a minha deficiência, há coisas adicionais que comprometem a minha privacidade. Então, a ideia de um vibrador sozinho em casa não funciona para mim, desabafa. Nem sei como havia de explicar isso aos meus pais, refere. Nunca foi um tema abordado em casa. Além de achar que os meus próprios pais são umas pessoas bastante conservadoras nesse campo, concluiu.


Toda a ligação com alguém é importante para mim antes do sexo, diz Júlia (nome fictício). Mas confesso que em alguns momentos sinto uma motivação maior para ter sexo com alguém com quem me sinta muito atraída. Até ter ganho coragem para chegar até esse ponto não sabia o que fazer. Procurei ler algumas coisas sobre o assunto. Confesso que encontrei de tudo. Mas também acabou por ser importante, até para saber o que eu queria e não queria. Mas sem dúvida que é muito perigoso a informação que se pode alcançar. Já ouvi falar de várias pessoas, principalmente mulheres que acabaram por ser abusadas sexualmente em situações semelhantes, concluiu.


Top, Bottom, ou versátil?! Da primeira vez não sabia de nada disso. Mas precisava de saber, diz, diz Manuel (nome fictício). Até por causa da funcionalidade do meu corpo, acrescenta. Vi algumas coisas na internet, mas percebi que isso tinha de ser falado com a pessoa com quem se está na cama, acrescenta. E por isso acabei por falar sobre a questão da posição com ele. Porque, claro, o meu corpo funciona de uma certa forma, e queremos desfrutar do sexo, e depois é importante que a outra pessoa esteja confortável, e eu relaxado, refere. Acho a posição do missionário adorável para fazer amor com alguém. Essa é provavelmente a minha posição preferida em termos de conforto. Quando alguém aprecia o meu corpo, gosto mais disso quando um parceiro brinca com o meu peito. Beijar excita-me bastante. Para mim, é quando sei que está a funcionar ou não. As minhas zonas erógenas são o pescoço e as minhas mamas, concluiu.


A minha primeira vez foi um pouco estranha, na verdade, refere Carolina (nome fictício). Havia muita navegação — em termos de decisão sobre a posição e outras coisas. O meu parceiro passou-se porque eu estava a sangrar muito. Não esperava isto. Fiquei assustada depois da primeira vez por causa do sangramento e da dor. Não foi o melhor sexo, mas aprendi o que funciona para mim e o que não funciona para mim, concluiu.


A maior parte do tempo estou na minha cadeira de rodas, diz Teresa (nome fictício). Quando as coisas se complicam, o meu parceiro leva-me para a cama. Também preciso de ajuda para me despir, por isso também é sobretudo o meu parceiro. Mesmo quando estamos na cama, tem que haver comunicação. Por exemplo, às vezes tenho espasmos nas pernas, por isso falamos sobre como lidar com isso. É assim que tecnicamente funciona comigo. Por isso, o meu parceiro e eu, falando activamente sobre o que me está a deixar confortável, conclui.


Desejo!? Se já desejei ou desejo alguém?! Sim, claro, diz Cármen (nome fictício). Tenho um desejo sexual médio a alto. E sentir isso é importante para mim. Assim, o desejo sexual fica ligado a outra pessoa - sim, claro, sim. Muito desejo sexual, pelo menos para mim, vem da parte da ligação e da intimidade, para que seja sexual. Para mim, é fácil quando alguém me conhece ou é meu amigo. A última vez que gostei de sexo foi antes de acabar com a pessoa com quem namorava. Foi uma intimidade partilhada, com a forma como o meu então parceiro compreendeu o meu corpo, como navegámos através dele, e o que me ajuda a sentir-me mais confortável, conclui.


Gosto de provocação e negação, mas gostaria de experimentar um pouco mais, refere Clara (nome fictício). Gosto de fazer marcas no meu parceiro quando estou com ele na cama, e gosto quando um parceiro me faz isso também. Um dos meus orgasmos mais memoráveis foi com o meu último parceiro - acho que ele se apaixonou por mim, o que ajudou, acrescenta. Ainda não me sinto muito à vontade com homens, conclui.


A pornografia!? Se foi algo que já usei, é isso?!, pergunta João (nome fictício). Sim, claro. Porque não?!, continua. Nem toda a gente gosta e nem toda a pornografia é adequada. Mas isso parece ser um pouco como tudo o que passa na televisão e na internet. Há coisas muito desadequadas e a navegar por ai. Precisamos de ser ajudados a compreender o que devemos ou não devemos ver. E de preferência sem essa coisa de proibições. Isso não resulta, conclui.


A sexualidade é parte integrante da vida da pessoa, e contribui para a construção da identidade da pessoa ao longo da vida. E quando falamos dela, apesar de estarmos implicitamente a falar dele, também é necessário falar explicitamente dele, do sexo. Não é uma questão de mais ou menos é importante. São igualmente importante, ainda que a sexualidade seja ela própria mais abrangente enquanto ideia. Mas quando passamos a falar sobre a sexualidade e o sexo nas pessoas com deficiência, os bastidores parecem crescer e esconder mais ainda a discussão e partilha destes temas. Ao longo destes anos tem havido um esforço crescente para abordar a sexualidade na deficiência. Mas é igualmente importante não deixar cair a questão do sexo. Até porque estamos a falar de pessoas com deficiência e a sua condição os vai acompanhar ao longo da vida. E se a sexualidade é parte integrante da vida da pessoa ao longo de toda esta. O sexo passa a ter uma expressão mais vincada a partir da adolescência e ainda mais no decorrer da vida adulta. E se nos jovens e adultos com um desenvolvimento tipicamente normativo, as experiências vão ocorrendo com uma determinada frequência e elas próprias vão sendo correctivas e mais valias para a própria experiência em si. Nos jovens e adultos com uma deficiência, essa mesma experiência acaba por estar mais diminuída, ainda que o desejo esteja grande parte das vezes lá presente. É É fundamental poder transmitir e de uma forma plena às pessoas com deficiência o seu direito à sexualidade e ao sexo e ao poderem vivê-lo de uma forma plena, segura e satisfatória. Poderem perceber que há em si determinados limites que podem dizer ao seu parceiro que gostariam de ultrapassar e explorar, mas também que gostariam de os ver preservados, e sem que isso representasse uma vivência traumática.


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