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Coisas que nunca me disseram ou perguntaram?

É comum encontrarmos vários textos na internet que dizem - Coisas que não devem dizer ou perguntar a uma pessoa autista! Um destes dias abri um texto para ver o que lá estava escrito. E decidi escrever este outro. Deves estar muito orgulhosa de ti mesma. Pareces muito normal. Nem se nota que és autista!, dizia numa das frases. Tu não pareces nada como o meu filho que tem autismo. Até escreves no teu próprio blog e tudo. O meu filho nunca irá conseguir!, dizia noutra. Mas tu casaste, tiveste filhos e foste à Faculdade. Não podias fazer isso se fosses verdadeiramente autista!, mais outra. Como é ser-se autista?, e outra. A lista de afirmações ou perguntas é longa e extensa, tanto quanto a criatividade e ignorância das pessoas. Aquilo que eu gostava mais é que as pessoas pudessem aceitar aquilo que eu gosto sem terem de me perguntar o porquê das minhas escolhas!, disse a Joana (nome fictício). Estou cansada de ouvir as pessoas dizerem que gostos não se discutem. Mas depois acabam sempre por me perguntar porque é que ponho gelado na coca-cola, por exemplo! Ou então, porque é que como apenas aquela quantidade!, continua. Gostava que me perguntassem se eu queria ir ao cinema, mesmo que eu já tenha recusado muitas vezes!, diz Carlos (nome fictício). Ou que não me perguntassem por que é que eu gosto de ver filmes de animação!, continua. Gostava que me dissessem que ter estado a ouvir catorze vezes seguida a música nova dos Imagine Dragons foi fantástico!, refere Rute (nome fictício). Gostava que me perguntassem se eu queria ficar o maior número de horas que conseguisse a olhar para um sitio sem dizer nada!, refere Ana (nome fictício). Eu apenas queria que as pessoas me quisessem conhecer por aquilo que eu sou, diz Raúl (nome fictício). Nem eu próprio sem o que é que eu sou às vezes, quanto mais os outros acharem que o sabem, continua. É isso, simplesmente. Que me quisessem conhecer por aquilo que sou, reitera. Eu não pergunto aos meus amigos por que é que eles comem um pequeno almoço sempre diferente. Porque é que eles me haverão de perguntar porque é que eu como sempre a mesma coisa?, perguntou-me João (nome fictício). Mas gostava muito que pudessem querer falar sobre ingredientes. Adoro falar sobre ingredientes. Podia falar horas sobre ingredientes, acrescenta. E mais do que me dizerem ou perguntarem coisas, gostava que as pessoas por vezes pudessem ficar em silêncio. Mas ainda assim ficar, diz Tânia (nome fictício). E que apesar do silêncio pudéssemos tentar compreender mutuamente e aceitarmo-nos por aquilo que somos. Não deve ser muito difícil, pois não?, pergunta-me. Mas pelo menos a parte do silêncio já seria muito bem, concluiu. Estou cansado de me dizerem ou perguntarem coisas do meu diagnóstico. Fartei-me, sabes!, diz Eduardo (nome fictício). Durante anos senti-me um animal no jardim zoológico. As pessoas a perguntarem aos meus pais como era ter um filho autista. E eu ali na sala de estar a ouvir. Enquanto eles me ignoravam, como se eu não estivesse ali. E depois mais tarde perguntavam-me como era ser autistas. E do porquê de eu fazer isto ou aquilo. Fartei-me. Nunca quiseram saber do Eduardo. Quiseram saber do autista, compreendes? Por isso eu fiquei tão reactivo ao autismo. Não porque tenha dificuldade em aceitar o meu diagnóstico. Há muito que o aceitei. Já ultrapassei isso. Evolui. Pelos vistos as pessoas é que não. Eu quero que me queiram conhecer, a mim, ao Eduardo, é isso, concluiu,


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