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Cansei-me de ser normal

O que é que na vida tentaste mais do que outra coisa qualquer? perguntei-lhe. Ser normal ! respondeu-me imediatamente. Quase que posso dizer que tentei ser normal antes mesmo de conseguir andar de forma autónoma! acrescenta. Fiz esta pergunta ao António (nome fictício) porque logo na primeira consulta disse que estava farto de tentar coisas na vida! Que se sentia desesperado porque não aceitava que se a vida era sua, então porque teria de andar a tentar!


Aprendi desde muito cedo que as pessoas não queriam que eu fosse da maneira que eu era, refere. Fosse quando estava ao colo de alguém e chorava ou gritava. Ou quando estava no chão e começava a espernear! continua. É como se as pessoas esperassem que as pessoas não fizessem nada destas coisas ou semelhantes! diz. Mas afinal o que é que as pessoas querem? Sejam os pais, mas também posso perguntar o mesmo dos professores, colegas ou de qualquer outra pessoa na Sociedade! diz. Mas será que as pessoas se têm assim em tão grande conta que pensam que são assim tão especiais? pergunta-me.


Passei uma parte significativa da minha vida a tentar ser normal, refere. E o mais curioso é que tentei ser algo que na verdade nunca descobri verdadeiramente o que é! E acredito que qualquer outra pessoa também não o consiga dizer. Até porque já perguntei a muitas pessoas diferentes ao longo da vida e nunca ouvi uma resposta conclusiva! diz.


Mas como também nunca me consegui perceber muito bem fui continuando este percursos de tentar. E quando pensava na forma como haveria de tentar ser tinha pessoas que me diziam que deveria tentar ser normal. Ou quando olhava para a forma como as outras pessoas eram percebia que elas pareciam fazer tudo aquilo de uma forma normal. E como tal, continuei a tentar ser normal, continua.


Por isso quando recebi o meu diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo disse a mim mesmo que iria deixar de querer ser normal! disse António. A partir de agora quero compreender-me e reflectir sobre a minha pessoa de forma mais aprofundada! conclui. Sei que saber o diagnóstico não vai tornar a minha vida fácil e que vai trazer também desafios e responsabilidades, principalmente para comigo próprio! acrescenta. Tenho percebido que agora que sei o meu diagnóstico que o estigma na Sociedade me parece ainda mais presente do que antes. E que pode levar inclusive a fazer-me duvidar das mais valias do diagnóstico. Mas eu não desisto! Passei a minha vida a tentar ser normal e não resultou. Agora resta-me a outra metade e vou tentar ser eu mesmo! conclui


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