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Branco no preto

Se muitos dizem não conhecer pessoas autistas adultas. Muitas mais dizem não conhecer pessoas autistas adultas negras. E ainda mais dizem não conhecer pessoas autistas adultas do sexo feminino negras.


É verdade que há muitas pessoas a dizerem muitas coisas, seja dentro ou fora do autismo. Contudo, os relatórios que procuram olhar para a realidade dos fenómenos não deixa mentir sobre o facto. Há um grande desconhecimento, ainda maior do que o habitual, quando se fala dos aspectos raciais no autismo. E mais uma vez com prejuízo para as minorias. Ainda que esta questão das minorias nem se devia aplicar neste caso porque os relatórios têm demonstrado que a distância entre crianças caucasianas e negras diagnosticadas com Perturbação do Espectro do Autismo é cada vez menor.


Mas estes relatórios mostram que a questão não fica por aqui, pois a referenciação para uma avaliação completa e intervenção precoce é diferente entre crianças autistas caucasianas e negras, com um prejuízo mais uma vez para estas últimas.


Claro que vamos poder ouvir que sendo esses relatórios referente à realidade Americana isso não se passa por cá. Até porque a realidade do racismo entre Portugal e os EUA é diferente e alguns irão dizer que por cá nem existe nada disso de racismo.


E porque é que esta questão pode ser importante de ser reflectida em Portugal? Primeiro porque temos um índice de racismo e de racismo subtil significativo e que tem impacto no acesso aos cuidados de saúde; Segundo porque temos desde há muito uma sociedade multicultural e com forte presença dos PALOP; Terceiro porque verificamos que nestes grupos há um maior índice de níveis de pobreza e como tal sabemos que o acesso aos cuidados de saúde públicos e ainda mais dentro do autismo fica ainda mais comprometido.


E não é por acaso que quem já recebeu, avaliou e acompanhou pessoas oriundas dos PALOP verificam que há todo um conjunto de variáveis, nomeadamente culturais, que levam a uma expressão diferente naquilo que é o fenótipo comportamental do autismo. E isso faz com que seja importante que os aspectos da interação e comunicação social, critérios chave no diagnóstico do espectro do autismo, possam ser avaliados com instrumentos que foram construídos com base nesta sua expressão cultural própria. E não será por acaso que se verifica um número diminuto de pedidos e de avaliações e acompanhamentos de pessoas com suspeita de Perturbação do Espectro do Autismo ou com um diagnóstico verificado, seja em crianças, mas também em adolescentes e adultos.


E não fiquem somente com a ideia de que essa diminuição de pedidos acontece porque as pessoas negras têm uma outra perspectiva sobre a questão da saúde mental e com mais estigma e que por isso a realidade é diferente. Até porque essa visão de túnel é tão estreita e pouco desenvolvida intelectualmente face ao conhecimento que temos hoje da realidade, que será melhor nem irmos por ai.


A saúde mental encontra na pobreza, mas também nas minorias, terrenos fértil para surgir, mas fundamentalmente para continuar, crescer e perdurar. É fundamental que as politicas de saúde mental e as respostas fornecidas, mas também a reflexão de todos os agentes envolvidos, sejam clínicos ou investigadores, possam igualmente acompanhar este movimento.


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