Bola na rede?!
- pedrorodrigues

- 28 de jan. de 2025
- 7 min de leitura
Nos últimos textos temos abordado várias situações clinicas que se sobrepõem e trazem desafios relativamente ao diagnóstico diferencial entre a Perturbação do Espectro do Autismo e outras condições. Ainda recentemente saiu o texto que colocava na mesma mesa o autismo com as perturbações de vinculação, borderline e stress pós-traumático. Hoje traremos a proximidade que a Perturbação Bipolar e o Espectro do Autismo poderão apresentar, principalmente quando estamos a observar pessoas adultas.
A Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) caracteriza-se por dificuldades precoces na comunicação social e comportamentos e interesses marcadamente restritos e repetitivos. Esta perturbação afecta indivíduos ao longo de toda a vida, com os sintomas a surgirem tipicamente na infância. O diagnóstico precoce é frequentemente mais fácil em indivíduos com sintomas graves e problemas óbvios no desenvolvimento neurológico. Mas quando temos uma expressão comportamental mais subtil e com comportamentos de camuflagem social associado a um perfil cognitivo acima da média temos uma maior dificuldade na sinalização.
A Perturbação Bipolar (PB), caracterizada por episódios de humor flutuante, é também uma perturbação psiquiátrica prevalente que afecta aproximadamente 2% da população mundial. As pessoas têm normalmente o seu primeiro episódio maníaco no final da adolescência ou no início da idade adulta. O diagnóstico desta condição envolve uma avaliação clínica exaustiva, centrada na presença, duração e impacto dos episódios de humor, podendo também considerar funcional, social e ocupacional.
Existe uma convergência notável de sintomas nas PEA e na PB, incluindo instabilidade do humor e desregulação emocional; irritabilidade, impulsividade e comportamento agressivo; défices nas competências sociais e na cognição social; dificuldades nas funções executivas; perturbações do sono; comportamentos sexuais problemáticos; e sensibilidades sensoriais. Sendo que as comorbilidades psiquiátricas comuns e a base neurobiológica partilhada sublinham ainda mais esta potencial interação.
As PEA em adultos (sem um diagnóstico prévio) e a PB são condições complexas que apresentam desafios significativos em termos de diagnóstico e tratamento. A ofuscação do diagnóstico nas PEA ocorre quando condições coexistentes ou noções preconcebidas sobre as PEA obscurecem o reconhecimento dos sintomas das PEA, levando a diagnósticos mais demorados no tempo ou incorrectos. Para agravar este problema, ambas as perturbações partilham sintomas que se sobrepõem, como a desregulação emocional, a impulsividade e os défices nas competências sociais.
O desafio consiste em diferenciar, caso a caso, se estes sintomas sobrepostos representam uma única perturbação com uma apresentação alargada, a co-ocorrência de PEA e de PB ou outra condição.
Os défices persistentes na comunicação e a interação social são uma caraterística central da PEA, enquanto que os défices na cognição social também podem estar presentes na PB. A rigidez cognitiva e comportamental, interesse restrito ou intenso, movimentos estereotipados ou repetitivos, dificuldade com mudanças ou transições, e déficit de linguagem são sintomas mais específicos da PEA, considerando os critérios de diagnóstico do DSM-5-TR. Uma má resposta a às intervenções farmacológicas para a gestão dos sintomas principais nas PEA e a maior associação com a uma dificuldade intelectual também contribuem para a distinção entre PEA e a PB.
A instabilidade do humor e a desregulação emocional, a impulsividade, a irritabilidade e o comportamento agressivo é comummente observado nas PEA e na PB. As dificuldades nas funções executivas também são observadas na PEA e na PB, caracterizando dificuldades comuns no planeamento e na tomada de decisões. Mas também ao nível dos comportamentos sexuais problemáticos, perturbações do sono e sensibilidades sensoriais introduzem uma camada adicional de complexidade aos sintomas que se sobrepõem a estas condições. As mudanças cíclicas de humor, mudanças episódicas nos níveis de energia e atividade, fuga de ideias, autoestima inflacionada ou grandiosidade, e dificuldades funcionais e cognitivas mais proeminentes nos episódios de humor são sintomas mais específicos da PB, tendo em conta o DSM-5-TR.
A PB é caracterizada principalmente por períodos distintos de humor anormal, alternando entre episódios depressivos e maníacos. Embora as PEA sejam definidas por sintomas persistentes ao longo da vida, os indivíduos com PEA apresentam frequentemente uma sensibilidade acrescida a estímulos ambientais, bem como comportamentos disruptivos quando frustrados. Em todas estas situações, podem frequentemente sofrer alterações de humor, que podem imitar ou complicar o reconhecimento de uma perturbação afectiva comórbida. Por outro lado, a instabilidade do humor na PB também pode ser influenciada por factores ambientais, incluindo o stress, acontecimentos da vida, frustrações e perturbações nos padrões de sono, o que complica ainda mais a diferenciação ou identificação da presença simultânea destas duas condições.
A desregulação emocional, caracterizada por dificuldades em gerir e resposta a experiências emocionais, é comummente observada tanto nas PEA como na PB, embora os mecanismos subjacentes e os factores desencadeantes possam ser diferentes. Os indivíduos com PEA podem apresentar labilidade emocional devido a dificuldades em reconhecer, rotular e expressar emoções, o que pode levar a respostas emocionais repentinas e intensas. Quando os indivíduos com PEA sofrem perturbações nas suas rotinas, podem apresentar sintomas que se assemelham a episódios maníacos ou hipomaníacos, tais como agitação psicomotora, irritabilidade e distractibilidade. Algumas pessoas autistas podem também sofrer flutuações abruptas de humor sem causa aparente impacto observável a terceiros.
Do mesmo modo, os indivíduos com PB podem apresentar uma reatividade emocional inadequada ou expressão emocional intensa, sendo mais frequente a desregulação emocional, mas não apenas durante as mudanças de humor. Para além disso, existem evidências que sugerem que instabilidade emocional pode ser um factor de previsão de um futuro diagnóstico de PB.
A presença de desregulação emocional tanto na PEA como na PB complica ainda mais o processo de diagnóstico diferencial e sublinha a importância de avaliar o contexto e os padrões temporais das perturbações do humor. Os indivíduos com comorbilidade entre PEA e PB podem encontrar desafios adicionais devido à interação entre a desregulação do humor e as dificuldades de comunicação social inerentes às PEA.
Os adultos com PEA podem também apresentar períodos de maior intrusão social, inquietação e traços de agressão verbal que se sobrepõem aos observados nos episódios. Da mesma forma, os indivíduos com PB apresentam frequentemente irritabilidade, particularmente durante episódios maníacos, depressivos ou mistos, muitas vezes acompanhados por comportamentos impulsivos e agressivos. Além disso, uma revisão sistemática recente indicou que o comportamento impulsivo comportamento impulsivo na PB pode persistir mesmo durante períodos de eutímia, sugerindo que a impulsividade pode ser um traço característico da perturbação e não apenas um estado de humor.
A cognição social é um domínio psicológico complexo, crucial para interações sociais bem sucedidas, uma vez que apoia comportamentos sociais adaptativos. A comunicação e a interação social prejudicadas são caraterísticas bem estabelecidas da PEA. As pessoas autistas debatem-se frequentemente com sinais não-verbais, reciprocidade e na manutenção de relações entre pares, e exibem frequentemente comportamentos problemáticos, como irritabilidade e reatividade emocional. É comum enfrentarem dificuldades em compreender as pistas sociais e envolver-se num nível de maturidade social comparável ao dos seus pares, o que afecta significativamente a sua capacidade de navegar nas interações sociais e formar ligações com significado. Além disso, os défices no domínio da Teoria da Mente afectam consequentemente a eficácia interpessoal, que é a capacidade de transmitir emoções e necessidades, bem como interagir com os outros e construir relações baseadas na empatia recíproca. As pessoas autistas podem também utilizar a camuflagem social, uma estratégia para se comportarem como se não estivessem afectados, o que pode levar à depressão e obscurecer ainda mais as perturbações subjacentes na cognição social.
Os défices na cognição social são também evidentes na PB, afectando os indivíduos não só
durante os estados sintomáticos, mas também durante os períodos de eutímia. Os indivíduos com PB apresentam deficiências moderadas na Teoria da Mente, incluindo dificuldades na percepção social e défices no reconhecimento de emoções faciais. Estes défices persistentes podem resultar em apresentações clínicas que podem ser confundidas com o défice persistente nas competências sociais observadas na PEA, complicando assim a identificação de uma potencial sobreposição entre estas duas perturbações.
O funcionamento executivo refere-se a um conjunto de processos cognitivos cruciais para o comportamento orientado para objectivos, o controlo da atenção e a auto-regulação. Tanto as PEA como a PB estão associadas a défices no funcionamento executivo, incluindo desempenho prejudicado no planeamento, organização, tomada de decisões, controlo inibitório, mudança de planos, fluência verbal, memória de trabalho e resolução de problemas. Estas dificuldades cognitivas partilhadas podem contribuir para as dificuldades na tomada de controlo dos impulsos e no funcionamento adaptativo observados em ambas as condições.
As pessoas autistas enfrentam frequentemente desafios relacionados com a sexualidade. Algumas pessoas adoptam estratégias para obter aceitação ou inclusão nos seus grupos sociais através de comportamentos sexuais, que também podem levar a períodos de actividade sexual mais intensificada. As pessoas autistas têm frequentemente competências sociais subdesenvolvidas e exibem padrões de comportamento repetitivos e restritivos. Consequentemente, ambos os grupos podem ter sentimentos de exploração ou abuso nos seus encontros sexuais, sublinhando os desafios distintos que cada grupo enfrenta desafios distintos na navegação dos aspectos da funcionalidade sexual.
Na PB, as alterações de humor têm um impacto significativo no funcionamento sexual. Os episódios depressivos conduzem frequentemente a uma diminuição do interesse pela atividade sexual, enquanto os estados maníacos podem resultar numa excitação sexual acrescida. A mania ou a hipomania podem levar à hipersexualidade e comportamentos sexuais de risco, incluindo o envolvimento em práticas não seguras, aumento do número de parceiros sexuais e perturbação das rotinas diárias. Quando os indivíduos regressam à eutímia, podem sentir emoções como sentimentos de exploração ou abuso, de exploração ou abuso, à medida que tomam consciência dos riscos potenciais associados às suas acções durante os ou hipomaníacos. Para além disso, as implicações significativas da perturbação podem persistir mesmo durante as fases eutímicas, afectando os indivíduos ao longo das suas vidas.
As perturbações do sono são frequentemente registadas tanto nas PEA como na PB e podem afectar significativamente a regulação do humor. As pessoas autistas têm frequentemente dificuldades em iniciar e manter o sono, o que pode exacerbar a desregulação emocional. Do mesmo modo, a insónia ou a hipersónia são sintomas comuns da PB, ocorrendo não só durante episódios depressivos e maníacos, mas também durante períodos de eutmia. A abordagem dos problemas de sono é crucial para gerir a desregulação do humor em ambas as condições.
As sensibilidades sensoriais aumentadas ou atípicas são observadas em tanto nas PEA como na PB, e podem manifestar-se durante episódios sintomáticos de PB. As pessoas autistas apresentam frequentemente sensibilidades sensoriais à luz, ao som, ao tacto ou ao paladar. Do mesmo modo, os indivíduos com PB podem apresentar hipersensibilidade a estímulos sensoriais durante episódios maníacos ou depressivo.
Como podemos ler e compreender, são várias as áreas de funcionamento entre as pessoas com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e uma Perturbação Bipolar que apresentam semelhanças e sobreposição. Como tal é fundamental a realização de uma avaliação detalhada e compreensiva do ponto de vista médico e psicológico. E não é apenas o preenchimento de um instrumento de auto-relato que está adaptado para fazer um rastreio que irá ser suficiente para determinar se é uma condição ou outra.



Comentários