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Aviso amarelo

Fiquem os veraneantes e todos aqueles que vão entrar de férias descansados. Estão todos seguros para ir a banhos. Já para outras coisas não tenho tanta certa. E porquê? Já vos escrevi em tempos sobre o custo do autismo. Como assim? O custo do autismo! Ou vocês pensavam que as coisas eram grátis? As famílias com filhos autistas e depois mais tarde as próprias pessoas autistas adultos têm todo um conjunto de custos associados. Seja devido às múltiplas terapias que precisam de ser realizadas. Mas também a todos os apoios sociais que necessitam de ser canalizados. Como por exemplo, na contratação de pessoa especializado para a Educação mas também para a saúde. Além de haver necessidade de pagamento de pensões. Seja para o membro da família que vai necessitar de ficar em casa a acompanhar a sua criança. Ou no caso de jovens e adultos autistas poderem necessitar de assistentes. E ainda nas situações em que as pessoas têm um nível de incapacidade igual ou superior a 60% há direito a uma pensão.


Mas o autismo é uma questão global. E há outros países com abordagens diferentes. Nomeadamente, nos EUA e na Australia, a partir de determinada altura passou a ser atribuído um valor à família por cada criança com diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. O ano passado nos EUA foi calculado um valor de 220 biliões de dólares. E estima-se que em 2030 esse valor seja de 589 biliões, 1,6 triliões em 2040 e em 2060 possa alcançar 5,54 triliões de dólares. Sendo que estes valores são anuais.


Já se começou a assustar? Compreendo! Agora imagine as famílias e as pessoas autistas que vivem isto no seu quotidiano!


E associado a isto, também já escrevi em tempos que nos últimos 5 anos se tem falado de uma epidemia de autismo. Ou seja, de um aumento significativo de número de casos de autismo. Sendo que não há nenhuma epidemia. Mas sim, uma outra consciência por parte de profissionais de saúde para realizarem o diagnóstico e das próprias pessoas para solicitar ajuda.


E agora vamos ligar as duas coisas. E como tal certos países como os EUA e a Australia já começaram a fazer contas ao impacto destas tranches. Até porque continuamos a verificar que são muitas as pessoas adultas autistas que continuam a não entrar no mercado de trabalho. E como tal não se autonomizam e passam a a fazer os seus próprios pagamentos de impostos. Coisas que todas as pessoas autistas e as suas respectivas famílias gostariam que acontecesse.


Em suma, estes países começam a pensar que alguma coisa tem de ser feita de diferente. Porque os custos associados estão a tornar-se incomportáveis. Até porque o autismo é uma condição ao longo do ciclo de vida.


Tal como em muitas situações, o orçamento passa a condicionar as políticas existentes. Já se está a rever se os números de prevalência estão correctos - 1 em cada 59 crianças apresenta um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. E mais cedo ou mais tarde, os próprios critérios de diagnóstico poderão vir a sofrer algumas revisões. São previsões catastróficas da minha parte? Talvez o possam ser. No entanto, a realidade até então tem demonstrado que o sector económico tem tido impacto em termos de muitas das políticas de saúde e sociais definidas ao longo dos anos, seja para o autismo, mas para a saúde mental de uma maneira global.


A perda de produtividade da própria pessoa, a perda de produtividade de um dos familiares, por norma a mãe, a educação, intervenção precoce e custos médicos. São todo um conjunto de variáveis que vão continuar a aumentar neste orçamento.


Mas o modelo para pensar o autismo e a intervenção no autismo pode ser diferente. Não é apenas esta a única forma de se fazer, tal como até então. Não faz sentido, sabermos que existe cerca de metade de todas as pessoas autistas que apresentam uma Perturbação do Espectro do Autismo nível 1. E que continuam a não estar integrados no mercado de trabalho após a finalização dos seus estudos. Além de que continuamos a ter um número significativo de diagnósticos feitos tardiamente. E como tal o impacto em todas as áreas de vida da pessoa é maior. E a possibilidade de melhor ajudar a pessoa diminuiu quando este esteve 20, 30, 40 anos ou mais a aguardar por um diagnóstico. E ao longo deste tempo a perder cada vez mais Qualidade de Vida e capacidade de se tornar autónoma e independente. E não é apenas para as pessoas com diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo nível 1. As pessoas com nível 2, ainda que necessitam de maior número de apoios, estão capazes de serem orientadas para a realização de um projecto de vida mais autónomo.


Tal como na fotografia deste texto, o sinal de alerta de tsunami parece contrastar com a forma calma como o mar se apresenta. Mas atenção que a situação estava muito semelhante em tantas outras situações reais e que depois as ondas invadiram a zona costeira vitimando milhares de pessoas. Cabe-nos a todos decidir que modelo queremos usar. E não comece a dizer que isso são os políticos que decidem. Porque somos todos nós.


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