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Autismo desalojado

Há uns anos atrás perguntava-me por onde andariam as pessoas autistas adultas? inclusive, referia que estas deviam padecer de algum tipo de Síndrome de Peter Pan! Ou seja, que a seguir à adolescência desapareciam para a Terra do Nunca. Mas afinal não. E se é verdade que cada vez mais se ouve falar de pessoas adultas diagnosticadas ou a procurar ser avaliadas para o despiste de Perturbação do Espectro do Autismo. Também é verdade que continua a ser preciso procurar com alguma insistência por onde andam as pessoas autistas adultas. E agora que já sabemos que não estão na Terra do Nunca, precisamos de saber onde estão!


Apesar de sabermos que cada vez mais existem pessoas autistas a concorrer à Universidade, também é verdade que continuam a ser poucas aquelas que solicitam a referenciação para a Educação Inclusiva neste novo espaço de ensino e aprendizagem. E por isso, continuamos sem saber a verdadeira realidade das pessoas autistas universitárias. E mesmo com a minha tentativa em realizar uma recolha de dados online acerca desta situação, ainda apenas trinta e cinco estudantes universitários autistas o responderam.


Também podemos ir procurar ao mercado de trabalho. E ainda mais nos dias actuais em que tanto se fala de Neurodiversidade, fará sentido pensar que as empresas Portuguesas estarão com trabalhadores autistas, certo? Mas tal não é verdade. E infelizmente e apesar dos inúmeros programas que têm procurado promover a integração e a celebração de contratos de trabalho com pessoas autistas, a expressão desta realidade ainda é escassa.


Mas então, por onde andarão as pessoas autistas adultas? Estarão em lares? Em pleno século 21, será possível uma atrocidade destas? O certo é que muitos pais se perguntam sobre o que fazer quando já não estiverem vivos, atendendo àquilo que é a realidade dos seus filhos ao momento. Estarão internados em hospitais psiquiátricos? Tal não parece, até porque os internamentos são cada vez menos uma possibilidade enquanto resposta clínica. Ou até porque não há camas hospitalares para o efeito! Estarão nas prisões? É uma possibilidade, certo? E ainda que muitas pessoas corram a dizer que as pessoas autistas não são violentas, o que é um facto, ou que são muito honestas, o que também é verdade em certa medida. O certo é que também as pessoas autistas, tal como qualquer outra pessoa, tem a propensão para determinado conjunto de comportamentos punidos pelo código penal. E tem sido cada vez mais falado que as pessoas autistas, e que em parte devido a algumas das suas características comportamentais, poderão ser mais propensas e se envolverem em situações e ocorrências que posam justificar essa punição. Sempre poderão estar em casa dos seus pais ou familiares, é um facto! E de acordo com o que lemos na literatura cientifica e da recolha de dados em outros países, verifica-se que entre 60% a 80% das pessoas autistas adultas se encontram a viver com as suas famílias.


E se pensarmos que poderá haver um conjunto de pessoas autistas adultas que são desalojadas? Isso mesmo, Homeless, tal como na fotografia que acompanha este texto? Chocados?! Acredito! Mas não fiquem chocados muito tempo, até porque é preciso arregaçar as mangas para fazer algumas coisas, nomeadamente poder tentar compreender a realidade da situação. E para tal é preciso ir junto das pessoas que vivem enquanto desalojados e procurar avalia-las e despistar estas características do Espectro do Autismo. Até porque, mais uma vez, aquilo que alguns resultados de trabalhos realizados em outros países, tem mostrado que esta realidade de pessoas autistas adultas a viverem como desalojadas é considerável, e que ainda nem sequer se percebeu a verdadeira extensão da situação.


Agora percebo que tinha um pouco de razão quando falava da Terra do Nunca. Só que esta realidade é uma "terra do nunca" um pouco diferente, e ao mesmo tempo semelhante. É uma terra onde as pessoas autistas facilmente podem cair e se ambientar. Ou seja, se pensarmos que as pessoas autistas de uma maneira geral passam uma boa parte da sua vida a serem ou a sentirem-se como proscritos. Quando passam a ser desalojados continuam a ser mais uma vez ignorados pela Sociedade.


Agora que percebeu um pouco mais, o que é que pretende fazer?


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