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Aprender a voar

Quem é que nunca quis voar? Ou que pelo menos tenha sonhado voar! Até o gato Zorbas já ensinou uma gaivota a voar! No entanto, também muitos de vocês devem ter procurado ser razoáveis. Ou pelo menos terem sido chamados à razão sobre o facto de poderem não vir a conseguir concretizar esse vosso sonho. E para tal procuraram ser razoáveis e tentaram fazer as adaptações possíveis para conseguirem realizar algo próximo desse sonho.


Por exemplo, quem é que nunca saltou de uma varanda de 1º andar para um monte de areia? Ou quem é que nunca experimentou saltar de paraquedas? Saltar entre duas margens e fechar os olhos e ter a sensação de planar? Talvez alguns já tenham feito parapente e estado ainda mais próximo dessa sensação de voar. Enquanto outros simplesmente se limitaram a comprar um bilhete de avião e voar. Como se pode ver existem várias formas, mais ou menos aproximadas e adaptadas para realizar o objectivo de voar.


Mas eu não vos quero introduzir a um workshop para obter o brevet de voo. Mas sim falar daquilo que são as adaptações razoáveis no local de trabalho para as pessoas autistas? Como podem ver não vamos falar de voar. Ainda que trabalhar possa ser equiparado a isso na pessoa adulta. Até porque o trabalhar e estar integrado no mercado de trabalho a realizar uma profissão significativa para a pessoa é fundamental para outros voos na vida da pessoa!


A questão é que sabemos que uma percentagem significativa de pessoas autistas adultas não trabalha. Por exemplo, se pensarmos que na Europa são cerca de 5 milhões de pessoas autistas e no Reino Unido, cerca de 1/5 das pessoas autistas adultas não trabalha. Sendo que 4/5 da população neurotipica trabalha e metade da população com deficiência que não autismo também. Podemos pensar que existem muitas pessoas autistas adultas que não voam e nem sequer podem pensar e sonhar com o virem a voar e alcançar determinados objectivos fundamentais de vida.


E nos últimos cinco anos são alguns aqueles que têm pensado em como adaptar o local de trabalho para que as pessoas autistas possam ser integradas. Isto à semelhança do que tem sido feito para as pessoas com outra deficiência. Ou seja, para além da criação das já conhecidas cotas, introduzidas em Portugal pela Lei nº 4/2019, fixando uma percentagem de postos de trabalho para pessoas com deficiência com uma percentagem de incapacidade igual ou superior a 60%. Há outras possibilidades no processo de adaptação no local de trabalho que podem ser realizados e que respondem às necessidades especificas das pessoas autistas que possam vir a trabalhar nessa mesma função.


De sublinhar que além de haver um número significativo de pessoas autistas adultas que não está a trabalhar. Há um número igualmente grande de pessoas autistas a trabalhar mas em que as suas condições não são adequadas. Por exemplo, verificamos que muito frequentemente as pessoas autistas saltam de trabalho para trabalho. Ou então desempenham funções menos complexas e durante um período menor de tempo, não porque não tenham competências para isso, mas principalmente porque quem as emprega faz um julgamento enviesado sobre as suas reais capacidades.


Como tal, se quiserem pensar naquilo que são os objectivos que uma pessoa autistas adulta não parece conseguir alcançar, então pensem duas vezes. Isto porque penso serem capazes de pensar que como não estão a trabalhar não irão conseguir alcançar autonomia, independência, habitação própria, mas também bem estar, entre outros. Façam o exercício simples de como se sentiriam se desde que entraram na vida adulta não conseguissem trabalhar. É difícil o exercício? Então pensem o que é ter de o viver no dia a dia.


Além do mais, também é preciso pensar naquilo que se observa como agravamento dos seus sintomas, nomeadamente ansiedade e depressão. Ou seja, podemos ter pessoas autistas adultas a trabalhar mas que não estão a realizar tarefas desejadas por si e como tal estão desmotivados. E todos sabemos o que é que nos acontece se realizarmos tarefas durante determinado período de tempo na nossa vida e para as quais não estamos nada motivados. Já para não falar das dificuldades sentidas por todas aquelas pessoas autistas que estão a trabalhar e cuja a sua empresa não têm conhecimento da sua condição e como tal não é possível serem feitas todo um conjunto de adaptações necessárias e que vão claramente agravar a ansiedade e mal estar diário. Pensem por exemplo como é que se sentem quando pediram ao vosso chefe que comprasse uma cadeira mais ergonómica para o vosso posto de trabalho e ao fim de cinco anos ainda não a têm. As vossas costas, mas também o vosso rendimento e relação com a entidade patronal estará certamente comprometida. Agora imaginem em toda uma lista de necessidades que a pessoa autista tem e que pode agravar a sua condição física, mental e social.


E se pensam que as pessoas autistas não têm competências para integrar o mercado trabalho fiquem a saber que estão redondamente enganados!


Ou se pensam que as adaptações a fazer no local de trabalho para que as pessoas autistas se sentirem integradas são um dispêndio grande dinheiro e que não tem retorno, fiquem a saber que estão enganados duplamente.


No entanto, o que observamos é que ao longo destes cinco anos, apesar de haver algumas empresas que têm feito este esforço, a mudança verificada é mínima e irrisória. Não que não tenha mudado positivamente a vida das pessoas abrangidas. Mas é um gota ínfima no oceano. Seria como dar uma pena para que a pessoa pudesse voar. Aquilo que observamos é que a entidade empregadora está necessitada de mais e melhor informação cerca do que é a Perturbação do Espectro do Autismo. E não somente aquela que consta na DSM. Para além da entidade empregadora não estar consciente e conhecedora das mais valias das pessoas neurodivergentes. E neste último caso chamo a atenção que não é apenas para o espectro do autismo, mas também para a perturbação de hiperactividade e défice de atenção, dificuldades de aprendizagem especifica, etc.


Muitos têm chamado a atenção de que são várias as entidades empregadoras que não estão a olhar para aquilo que são as necessidades dos seus trabalhadores. E neste caso estamos a incluir todas as pessoas. Contudo, no caso das pessoas autistas, este mesmo desviar da atenção têm um impacto significativamente maior.


E além das entidades empregadoras necessitarem de ser sensibilizadas para o que é o espectro do autismo. O mesmo se aplica para as entidades que realizam o recrutamento e selecção. E será fundamental que toda esta mudança deixe de ser com base em pequenos projectos. Que ainda que sejam importantes e geradores de exemplos de boas práticas. Não são mais do que isso e não se traduzem numa mudança de paradigma. E como resultado continuamos a ter resultados dramáticas na empregabilidade das pessoas autistas.


Mas será fundamental poder trabalhar estes aspectos junto das empresas. Até porque uma aparente barreira à implementação destas adaptações passa não somente pelo desconhecimento em relação ao autismo. Mas também pelo facto de pensarem que as adaptações são irreais e com um custo insuportável pela empresa. Além de muitas destas adaptações passarem pela necessidade de intervenção especifica de profissionais da área da psicologia. E no caso de Portugal é sabido que há um número ainda extremamente reduzido de empresas que têm estes profissionais integrados para poder ajudar a fazer um levantamento das necessidades dos trabalhadores e a melhor implementar as medidas concretas.


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