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Ano (in)comum

Estava no 12º ano. Esse ano tinha começado a um sábado. Foi um ano comum do século XX. Mas haveria de ser um ano (in)comum para muitos de nós. Alguns haveriam de perceber isso na própria altura, outros como eu apenas mais tarde.


O maior temporal de sempre atingia Matosinhos logo no inicio do ano e não muito depois um terramoto em Los Angeles provocava cerca de 30 mortos. O secretário geral da ONU haveria de pedir a libertação de Xanana Gusmão. E Nelson Mandela torna-se o primeiro presidente negro da Africa do Sul. Morre Kurt Cobain, vocalista dos Nirvana. A moeda do Brasil deixa de ser Cruzeiro real e passa a Real. A Suécia decide entrar para a União Europeia. A SONY lança o seu primeiro videojogo da PlayStation. Ronaldo da Costa é o vencedor da corrida Internacional de São Silvestre. Algures entre todos estes acontecimentos é publicada a DSM-IV. Provavelmente aquela que foi considerada a maior revisão deste manual de diagnóstico. Nesta foram incluídos 297 perturbações em 886 páginas. No final da página 77 aparecia Síndrome de Asperger (299.80).


Só algum tempo mais tarde é que eu haveria de contactar com a DSM. Ainda aprendi psicopatologia geral de acordo com a DSM IV. E pouco tempo depois haveria de ser publicada uma revisão a esta versão. Mais especificamente em 2000 seria publicado a DSM-IV-TR.


O termos Síndrome de Asperger, apesar da evidente ligação com o psiquiatra Hans Asperger, haveria de ser a Lorna Wing em 1981 que haveria de publicar um trabalho com a alusão a esta mesma síndrome. E em 1991 Uta Frith haveria de escrever Autism and Asperger Syndrome, traduzindo para Inglês o artigo de 1944 de Hans Asperger. Em 2013 a designação de Síndrome de Asperger sairia da DSM na sua versão DSM 5, ainda actual. E no inicio deste ano a mesma condição sairia da ICD-10, quando esta foi actualizada para a versão ICD-11. É incontornável não referir que em 2018 o Historiador Herwing Czeck publicava um trabalho onde era referido a ligação de Hans Asperger ao partido nazi e da sua colaboração directa com o III Reich na morte de um conjunto de crianças.


Hoje comemora-se o dia Internacional da Síndrome de Asperger. Há quem não queria celebrar e penso que nas linhas anteriores irão conseguir encontrar razões para tal. A associação de Hans Asperger ao III Reich e à morte de crianças haveria de manchar de horror e vergonha muitos de nós. E também levado à tomada de decisão de não mais querer a designação de Síndrome de Asperger.


Não me cabe glorificar nem retirar do pedestal a pessoa de Hans Asperger. Estou bem ciente do que alguns dos seus comportamentos, agora conhecidos, representam para a minha pessoa e valores. Mas estou igualmente ciente que a designação Síndrome de Asperger é bem mais do que o nome do referido psiquiatra. Assim como Autismo de Kanner o será igualmente, apesar de sabermos que tem em parte a ver com o nome do Dr. Leo Kanner.


A introdução da Síndrome de Asperger em 1994 na DSM haveria de representar uma grande revolução e mudança para muitas pessoas que até à data não viam reconhecidas muitas das suas características. E que a partir daquele momento e até à sua retira em 2013 continuaram a ver a possibilidade de terem uma compreensão daquilo que é a sua pessoa e do que estas suas características representam. Se pensarmos que as observações do Dr. Hans Asperger foram realizadas por volta de 1937, podemos pensar que durante 57 anos, houve muitas pessoas que não se conseguiram encaixar em nenhum diagnóstico claro que as ajudasse a compreender a si, aos outros e ao Mundo. Muitos já não viveram o suficiente para tal. Mas outros tantos tiveram essa sua oportunidade de vida a partir dessa designação Síndrome de Asperger.


Não era anti-sociais, psicopatas ou sociopatas, mal educados, rudes, insensíveis, e outras designações e diagnósticos morais conhecidos por muitos. Passaram a ter um diagnóstico de Síndrome de Asperger, Aspie ou simplesmente Asperger.


Hoje, e a partir de outubro de 2013, passaram a ter a designação de Perturbação do Espectro do Autismo nível 1. Sejam aqueles que já tinham sido diagnosticados anteriormente e com a designação Síndrome de Asperger, mas também aqueles que foram diagnosticados mais recentemente. Mas a memória de muitos, principalmente aqueles que receberam o diagnóstico, mas também todos aqueles profissionais que trabalham nesta área, a designação e o diagnóstico de Síndrome de Asperger tem um representação especial. E não, essa mesma representação não é uma normalização ou celebração do partido nazi e de todo um conjunto de comportamentos abomináveis que foram realizados.


Uns e outros, sejam aqueles que são diagnosticados, mas também os seus familiares, assim como os profissionais que mais directamente trabalham nesta área saberão o que fazer no dia de hoje, dia 18 de fevereiro de 2022. Até porque cada um de nós continua a ser responsável pelas suas escolhas. Algo que passou a ser possível para milhões de pessoas que antes de 1994 não conseguiam encontrar uma forma de se compreenderem e também de se celebrarem.


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