Aliança terapêutica no autismo
- pedrorodrigues

- há 4 dias
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In my early professional years, I was asking the question, How can I treat, or cure, or change this person? Now I would phrase the question in this way: How can I provide a relationship which this person may use for his own personal growth?
Carl R. Rogers
"Everybody has won, and all must have prizes,"
Dodo in Alice no País das Maravilhas
Cheguei à terapia muitas vezes com a sensação de que o problema era eu. Não porque dissesse isso explicitamente, mas porque a relação me fazia sentir errado antes mesmo de começar a falar. Havia perguntas demasiado rápidas, interpretações que não reconhecia como minhas e um esforço constante para corresponder a uma expectativa implícita de como deveria sentir, pensar ou reagir. Saía das sessões cansado, não por tocar em temas difíceis, mas por ter de existir em tradução permanente, diz Carlos (nome fictício) de 43 anos com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.
Noutras tentativas de ajuda psicológica, senti que a relação era um teste silencioso. Um teste de empatia, de expressividade emocional, de contacto visual, de espontaneidade. Quando falhava nesses critérios invisíveis, algo na relação arrefecia. Nunca houve hostilidade aberta, mas havia um afastamento subtil, como se eu estivesse sempre um passo atrás do que era esperado. Aprendi cedo que pedir ajuda não significava, necessariamente, ser compreendido, diz António (nome fictício) de 38 anos com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.
Foi apenas mais tarde que comecei a perceber que o desencontro não estava apenas em mim. A relação terapêutica, tal como a vivi antes, parecia construída para outro tipo de experiência humana. Faltava espaço para o meu ritmo, para o meu silêncio, para a minha forma literal de estar no mundo. Não era a dor que me afastava da terapia, era a relação quando não conseguia acolher quem eu era sem me pedir, ainda uma vez mais, para me adaptar, diz Andreia (nome fictício) de 37 anos com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.
A aliança terapêutica é a relação que se forma entre o cliente e o clínico. Uma relação de qualidade pode aumentar a confiança e a disponibilidade do cliente para participar ativamente no processo terapêutico. A aliança terapêutica, entendida como uma relação colaborativa entre cliente e terapeuta, tem sido identificada como um fator preditivo de melhores resultados de tratamento em jovens e adultos sem Perturbação do Espectro do Autismo, numa ampla variedade de intervenções psicológicas.
A literatura aponta evidências consistentes de que a qualidade da aliança terapêutica está associada ao sucesso do tratamento psicoterapêutico, independentemente do tipo de paciente, da modalidade de intervenção utilizada, dos problemas apresentados, dos contextos clínicos e dos métodos de avaliação. Trata-se de um dos fatores mais robustos e transversais na investigação em psicoterapia.
É amplamente reconhecida a importância da construção e consolidação da aliança terapêutica ao longo do tempo de intervenção, bem como a necessidade de a rever continuamente face aos desafios que emergem na própria relação. Esses desafios podem ser trazidos pelos conteúdos do cliente, mas também pela história, pelas reações e pela presença do próprio psicólogo enquanto pessoa.
Quando vivida na clínica com adultos autistas, a aliança terapêutica deixa rapidamente de ser apenas um conceito técnico e transforma-se num lugar existencial. Não se trata apenas de um vínculo funcional orientado para objetivos terapêuticos, mas de um espaço onde está em jogo algo mais fundamental, a possibilidade de existir com o outro sem violência ontológica. Neste contexto, a relação terapêutica não é sentida como um meio para atingir um fim, mas como um território onde, talvez pela primeira vez, a pessoa pode permanecer sem se desfazer de si.
Muitos adultos autistas chegam à clínica com uma história densa de desencontros. Não apenas desencontros sociais, mas desencontros ontológicos. Foram frequentemente vistos como enigmas a decifrar, problemas a corrigir ou versões incompletas de uma norma implícita. Quando a relação terapêutica repete esse movimento, mesmo de forma subtil e bem-intencionada, torna-se apenas mais um espaço de alienação. Por isso, neste contexto, a aliança constrói-se menos a partir de intenções benevolentes e mais a partir de uma postura radical de reconhecimento.
“Com outros terapeutas eu sentia que tinha de explicar quem eu era. Aqui, sinto que posso simplesmente estar”, refere um adulto autista, condensando numa frase aquilo que a teoria por vezes demora páginas a formular. Estar, neste sentido, não é passividade, é presença sem defesa. É a experiência rara de não ter de traduzir constantemente a própria existência para que ela seja tolerável.
Do ponto de vista existencial, a relação terapêutica com adultos autistas confronta o clínico com a alteridade na sua forma mais concreta. Não uma alteridade romantizada ou exotizada, mas uma diferença real na vivência do tempo, do corpo, da linguagem e do sentido. A aliança emerge quando o terapeuta abdica da urgência de compreender demasiado depressa e aceita caminhar ao ritmo do outro. “O mais importante para mim é que não tentem apressar o que eu ainda não sinto”, partilha outra pessoa, revelando uma ética do tempo profundamente existencial, o tempo vivido e não o tempo imposto.
A previsibilidade do setting, tantas vezes considerada um detalhe técnico, adquire aqui um valor ontológico. A constância do terapeuta, a clareza das regras, a explicitação do que está a acontecer e das razões que o sustentam funcionam como âncoras num mundo frequentemente experienciado como caótico ou invasivo. “Quando sei o que esperar, consigo finalmente prestar atenção ao que sinto”, relata um paciente. A aliança constrói-se, assim, não apenas no afeto, mas também na estrutura que sustenta a possibilidade de contacto consigo próprio.
A relação terapêutica torna-se igualmente um lugar de confronto com a questão do sentido. Muitos adultos autistas descrevem uma vida marcada pela adaptação constante, pelo mascaramento e pela sobrevivência em contextos que exigiam uma auto negação contínua. Na terapia, emerge frequentemente a pergunta silenciosa, quem sou eu para além da adaptação? A aliança aprofunda-se quando o terapeuta não responde por eles nem oferece narrativas prontas, mas permanece disponível para habitar a angústia dessa pergunta. “Aqui não me dizem quem devo ser, e isso assusta-me, mas também me alivia”, diz alguém, tocando no paradoxo central da liberdade existencial.
As rupturas na relação, inevitáveis em qualquer encontro humano, assumem um significado particular neste contexto. Para muitos adultos autistas, a experiência relacional prévia ensinou que o erro conduz ao afastamento e que o conflito implica perda. Quando a relação terapêutica sobrevive à tensão, quando o terapeuta nomeia o desencontro e permanece, algo de profundamente reparador acontece. “Nunca ninguém tinha ficado depois de eu dizer que algo não estava bem”, afirma um paciente. A aliança transforma-se, então, num espaço onde a relação deixa de ser condicional.
Neste ensaio vivo que é a clínica, a aliança terapêutica com adultos autistas convoca a psicoterapia a revisitar as suas próprias bases. Obriga a perguntar não apenas como ajudar, mas como estar com. Exige uma ética da presença onde o terapeuta aceita ser afetado, deslocado e transformado pelo encontro. Não se trata de adaptar a pessoa a um mundo que a fere, mas de criar, ainda que por instantes, um mundo relacional onde existir não seja um esforço constante.
Talvez por isso alguns adultos autistas descrevam a relação terapêutica não como um tratamento, mas como uma experiência inaugural. “É a primeira relação onde não sinto que estou a falhar”, diz alguém. Nessa frase simples reside a potência existencial da aliança, não curar a diferença, mas suspender a condenação. Não oferecer respostas definitivas, mas abrir um espaço onde a vida, tal como é sentida por quem a vive, possa finalmente ser levada a sério.
Durante anos exerci a prática clínica apoiado num corpo teórico sólido e numa experiência relacional que me parecia suficientemente testada. A aliança terapêutica, dizia a mim próprio, construía-se com empatia, consistência, escuta ativa e uma presença humana suficientemente boa. Funcionava, pelo menos era isso que a prática com pessoas não autistas parecia confirmar. Até ao momento em que comecei a acompanhar adultos autistas e algo, de forma silenciosa mas persistente, começou a deslocar-se.
Não se tratou de um choque abrupto, mas de uma estranheza subtil. As ferramentas estavam presentes, a intenção clínica mantinha-se, mas a relação não se organizava da mesma forma. Surgiu cedo a pergunta, porque razão aquilo que sempre funcionou parece agora insuficiente ou até intrusivo? Esta questão abriu uma fissura profunda na forma como eu próprio compreendia a aliança terapêutica.
Com pessoas não autistas, aprendi a ler nuances implícitas, metáforas emocionais e silêncios carregados de significado relacional. Com adultos autistas, encontrei outra lógica de encontro. A literalidade não era resistência, o silêncio não era defesa, a ausência de reciprocidade emocional visível não significava ausência de vínculo. Ainda assim, o meu corpo clínico, treinado noutra gramática relacional, reagia. Estarei a falhar algo essencial ou estarei a insistir numa leitura que não lhes pertence?
A relação terapêutica passou a exigir de mim mais do que uma adaptação técnica, exigiu um desaprender. Percebi que a minha tendência para preencher espaços, suavizar tensões ou procurar rapidamente um significado partilhado podia ser vivida como invasiva. Pela primeira vez, confrontei a possibilidade de que aquilo que eu nomeava como empatia pudesse, noutro contexto neurodiverso, ser sentido como excesso.
A aliança começou a construir-se noutros eixos. Menos no afeto implícito e mais na clareza explícita. Menos na intuição relacional e mais na previsibilidade. Senti-me simultaneamente menos confortável e mais ético. Menos apoiado na espontaneidade e mais convocado para uma presença deliberada. O que acontece à relação quando deixo de confiar no meu sentir imediato como principal bússola clínica?
A ausência de sinais clássicos de vínculo gerou, por vezes, inquietação. Não havia validação relacional imediata nem confirmação emocional do meu impacto enquanto terapeuta. A relação parecia construir-se num plano mais silencioso, quase subterrâneo. Foi então que compreendi que estava a confundir a forma da aliança com a sua existência.
Com o tempo, tornou-se claro que a relação com adultos autistas não me pedia que fosse menos humano, mas que fosse humano de outra forma. Mais contido, mais transparente, menos interpretativo. A aliança emergia quando eu nomeava limites, explicava intenções e não pressupunha estados internos que não tinham sido explicitamente colocados.
Este trabalho confrontou-me também com a minha identidade profissional. Aquilo que eu tomava como competência relacional foi colocado em causa. Senti-me novamente aprendiz, não por desconhecer teoria, mas por ser convocado a rever os seus pressupostos. Até que ponto a psicoterapia, tal como a aprendi, está ancorada numa experiência neurotípica do mundo?
Hoje reconheço que o trabalho com adultos autistas transformou de forma irreversível a minha compreensão da aliança terapêutica. Não a tornou mais frágil, tornou-a mais exigente. Exigente de humildade, de rigor e de disponibilidade para ser deslocado. A relação deixou de ser um espaço onde aplico conhecimento e passou a ser um lugar onde sou continuamente interrogado.
Talvez esta seja a aprendizagem mais profunda. A clínica com adultos autistas não apenas amplia o campo da psicoterapia, devolve-nos uma pergunta essencial sobre o encontro humano. Uma pergunta que permanece aberta e que, hoje, aceito não querer fechar demasiado depressa.



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