Afinal as mãos servem para quê?
- pedrorodrigues

- 28 de jan. de 2025
- 4 min de leitura
Moita. Estudante diagnosticado com autismo sofre agressões violentas de colegas enquanto outros filmam na escola (in Observador, 27.01.2025)
Esta e outras noticias semelhantes abriam ontem os principais jornais e logo de seguida as redes sociais inflamavam de comentários, posts, reposts, reflexões, etc.
Para além da nossa indignação face ao sucedido, continuamos a verificar alguma estupefacção face ao acontecimento, não obstante todo o trabalho de divulgação que tem vindo a ser realizado nomeadamente pelo psicólogo Luís Fernandes (ver site) entre outros.
Apesar do aumento do fenómeno, seja bullying ou ciberbullying, continuamos ainda assim a observar que a larga maioria das pessoas envolvidas neste fenómeno são espectadores. Sendo que estes últimos estarão mais ou menos (in)directamente envolvidos. Sejam os colegas, pares, professores, técnicos auxiliares, profissionais de saúde, mas também políticos.
Não é apenas aqueles que estão perto do local do acontecimento e o filmam. Somo todos nós e que com a respectiva responsabilidade do nosso papel social e profissional não estamos a fazer.
No caso do bullying com alunos com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, a literatura cientifica e os relatórios dos mais variados países é unanime. O bullying e o autismo estão infelizmente interligados e pelas piores razões. Não somente pela maior dificuldade que muitos destes alunos encontram em fazer ouvir a sua voz. Mas fundamentalmente pelo desrespeito pela diferença perpetuada por todos nós que não somos autistas.
As escolas que têm matriculados alunos que estão referenciados com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo precisam, muito provavelmente, de desenvolver de forma preventiva um trabalho de sensibilização e intervenção para atempadamente proteger estes alunos, mas também todos os demais envolvidos no processo, sejam os espectadores, mas também os agressores.
Ficamos todos muito zangados, indignados, etc. Mas provavelmente esta não será a melhor estratégia de enfrentamento (coping) para lidar com este fenómeno. Até porque precisamos de tomar decisões que tenham implicações na realidade da comunidade escolar. Até para que esta saiba identificar atempadamente e ela própria consiga desenvolver respostas para travar a grande maioria destes acontecimentos antes mesmo deles ocorrerem.
Precisamos de olhar de forma mais desprendida de julgamento para todos aqueles que na comunidade escolar apresentam sinais e sintomas que possam mais intimamente estar ligados aos comportamentos agressivos. Porque estão a comunicar na grande maioria das vezes desta forma, quando ela não é adaptativa? E que respostas todos nós estamos a fornecer a este tipo de comunicação? Mas também porque estão a grande maioria dos alunos que são espectadores a não se envolver de uma forma mais funcional na resolução da situação? E que respostas todos nós estamos a fornecer também a eles?
Certamente que a comunicação, seja verbal e não verbal, que muito frequentemente é vista como estando comprometida no espectro do autismo, também o parece estar, ainda que por razões diferentes em todos nós neste fenómeno do bullying e cyberbullying. Não parecemos querer ouvir o que os vários agentes envolvidos têm e estão a dizer. E quando o fazem ficamos indignados e atribuímos juízos de valor, na maior parte das vezes sancionatórios, julgando que os mesmos não estão a ser ouvidos pelas pessoas.
Nos estudantes autistas são várias as formas de agressão, assim como os perpetuadores. E não são apenas os colegas que o são quando o pontapeiam enquanto outros filmam. São também professores que apresentam várias fragilidades para como lidar com o autismo, nomeadamente ao nível do seu conhecimento e formação adequada. Ou técnicos auxiliares que estando num mesmo patamar a vários professores acabam por tomar medidas que também não são funcionais face às reais necessidades. Na verdade as dificuldades em relação ao autismo pertence a toda a comunidade escolar, até porque continuamos a verificar todo um nível expressivo e significativo de desconhecimento e informação errada e estereotipada sobre o autismo em muitos de nós. Mas a agressão também é perpetuada pelo próprio estudante autista, nomeadamente através de comportamentos de auto-agressão, mas também de capacitismo internalizado. Ou seja, ao longo do seu percurso a pessoa autista, e neste caso, a criança (estudante) autista vai desenvolvendo toda uma crença de ser diferente pela negativa, de ser menos ou menor face ao normativo. E esta crença enraizada no aluno autista leva a que muitas vezes não desenvolva estratégias de protecção, prevenção e também de denuncia destas situações.
Estes acontecimentos como aquele ocorrido na Moita e noticiado ontem são parte de um expoente máximo destes fenómenos. Mas a grande percentagem das situações de bullying e cyberbullying já estão e continuam a acontecer, bem perto de todos nós. Sendo que alguns deles irão escalar até esta situação verificada na Moita. Mas todos eles têm um impacto profundamente negativo em todos os alunos autistas, mas também em qualquer um de nós pertence à comunidade educativa.
Precisamos de ter qualquer um de nós na comunidade educativa a ser capaz de denunciar e até mesmo intervir em situações como esta e que ainda estejam no seu inicio. Mas se continuamos a ter um número significativo de situações de alunos autistas, que mesmo estando referenciados nas escola, ainda continua a ser ocultado a sua condição (normalmente por pedido dos pais) aos pares por receio (real ou percebido) de que estes o gozem ou ponham de parte (outras expressões do bullying). Então precisamos de criar outras e melhores condições na comunidade educativa para que a realidade possa ser outra. Mãos à obra!



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