A teia do monotropismo
- pedrorodrigues

- 5 de abr. de 2025
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Soube depois o que tinha acontecido, diz Rute (nome fictício). Tinha saído de manhã como sempre! Não que me lembre das coisas que faço, mas o facto de as fazer igual todos os dias ajuda-me a saber o que faço, continua. Dizem que isso é um problema. Mas já tenho percebido que é algo que todas as pessoas fazem - fazer coisas de forma igual, em padrões. E não me venham dizer que não é verdade, porque eu tenho estudado isso uma vida inteira. É o que eu mais gosto de fazer e faço melhor, refere. Não, não sou antropologa, apesar de ter querido ir para Antropologia. Mas depois percebi que tinha todo um conjunto de dificuldades para lá chegar e achei que não valia a pena. Além disso o curriculo do curso não satisfazia as minhas necessidades, continua. Odeia quando me dizem que algo que eu tenho a absoluta certeza não é assim. Dizem que isso é um outro problema meu. Estão sempre a dizer que eu tenho problemas. Penso que a minha profissão é problemática, ser problemática! afirma. Mas as pessoas são de hábitos, rotinas, padrões. E depois vêm dizer que o facto de eu fazer tudo igual todos os dias é problemático. Se isso não é um contrasenso, não sei o que é! diz.
Tinha saído naquele dia para ir ver a teia a começar. Aquela espécie de aranha faz a sua teia no rair do dia. Já tinha confirmado. E no dia anterior a aranha tinha chegado àquela árvore e ainda não tinha começado a sua teia. Tive de sair por volta das 04h35. Demorava uma hora e 14 minutos a chegar até lá. Já tinha isso tudo registado. Cheguei às 05h49. Tinha de preparar as coisas para começar a fazer o registo. Não podia fazer barulho. Até porque não queria alterar nada no ambiente e muito menos no da aranha. Às 06h31 o sol despontou. E a aranha avançou em direção ao ramo mais alto, pouco acima do alcance do braço de uma pessoa adulta a partir do chão. Sempre achei que as aranhas eram como as pessoas como eu. Ou eu era como as aranhas tendo em conta que elas já cá estão há bastante mais tempo do que nós humanos! diz.
Dizem que eu desperdiço os meus conhecimentos em coisas inúteis. E que podia ser uma pessoa muito bem sucedida, refere. As pessoas parecem não saber o que querem ou muito menos o que dizem. Em primeiro lugar não têm a mínima ideia do que eu conheço ou procuro conhecer. Porquê? Porque nunca o perguntaram. Limitam-se a olhar e nunca de uma forma sistemática, tal como eu aprendi a fazer. E depois limitam-se a inferir sem qualquer tipo de regra. E se querem que eu seja bem sucedida experimentem duas coisas: uma não me causarem as dificuldades que habitualmente me casusam desde semque que eu entrei na pré-primária, e segundo, não queiram que eu seja quem eles querem e não quem eu desejo ser! afirma. Parece ser simples, certo? Mas aparentemente não o é.
Curioso verificar que a aranha circunda primeiro todo o espaço onde irá fazer a sua teia antes de o começar! diz. Faz-me pensar naquilo que faço todos os dias antes de desempenhar seja o que for, refere. Mesmo que a aranha não tenha nenhuma aparente e eminente ameaça no seu ambiente, ainda assim faz todo este varrimento do local onde as coisas vão ser feitas, para que tudo o que pretende possa acontecer sem que seja interrompida! continua. Odeio ser interrompida nas coisas. Não sei se as aranhas o odeiam. Ainda que uma vez observei o meu irmão a desfazer uma teia enquanto a aranha se contorcia. Talvez esse contorcer fosse um sinónimo de ódio. Assim como o ódio que eu fiquei ao meu irmão, ainda que nem sequer me tenha conseguido mexer de tão petreficada fiquei com tudo aquilo! acresce.
Às 07h21 a aranha já tinha feito o perímetro da teia orbicular. Já tinha observado algumas teias de construção irregular ou teias de cópula, mas nesta altura do ano não é o período de acasalamento deste tipo de aranha, refere. Já tinha vinte e três páginas de apontamentos da observação. Sei-o porque o meu equipamento me vai dizendo quando muda para uma nova página, até porque não tenho ideia em que página vou porque quando fico focada na minha tarefa nada mais se entrepõem entre nós, diz. O que me tem levado a ficar horas interminaveis num determinado sitio ou tarefa, deixando de parte as coisas habituais do quotidiano, como a alimentação, hidratação, higiene, etc. E por isso o tempo das pessoas ser tão diferente do meu! afirma. E por isso ser tão dificil que eu possa ou consiga fazer coisas na companhia de outras pessoas. E não porque eu não queria ter a companhia das outras pessoas, como frequentemente ouvi em relação a mim e a outras pessoas autistas, diz. Na escola queria continuar a aperfeiçoar a minha caligrafia, mas diziam-me que tinha de mudar para outra tarefa, e outra, e outra. Parecia toda uma correria ao longo de uma manhã e depois o mesmo na tarde. Não sei como é que as pessoas aprendiam? pergunta-se. Talvez não aprendesse. Pelo menos a maior parte dos meus colegas não pareciam aprender. Até proque depois não conseguiam fazer uma conversa de jeito com nada daquilo que tinham aprendido. E foi assim na escola e depois na faculdade quando andei por lá durante cinco anos em três cursos que acabei por não finalizar, acrescenta.
A questão do hiperfoco, frequentemente observado no espectro do autismo, não se centra apenas num processo cognitivo especifico de atenção ou concentração. E tem a ver com várias outras facetas da vida da pessoa, seja dos seus interesses especificos e restritos. E estes interesses poderem ter ou não a ver com a vida quotidiana da pessoa, seja pessoal, académico ou profissional. Mas também pode ter a ver com algo randomizado que a pessoa tenha ouvido ou visto num determinado momento do seu dia. E não tenha que ver com algo especifico, ou que goste ou tenha vindo a fazer nos dias anteriores. Este hiperfoco pode assumir muitas formas diferentes, ainda que esta intensidade seja frequentemente semelhante e reportado pelas pessoas autistas.
Mas este hiperfoco, tal como muitas outras características da pessoa autista, parece também não ser ou estar a ser envolvido no processo de aprendizagem ou da vida como um todo da pessoa autista. Também aqui, este comportamento, possa ser olhado como característica comportamental que se traduza num problema, mas também numa competência da pessoa autista. O certo é que o mesmo não está a ser tido em conta como fazendo parte integrante e importante da pessoa.
Em qualquer momento, a quantidade de atenção disponível para um indivíduo consciente é limitada. A disponibilidade limitada da atenção desempenha um papel fundamental na vida quotidiana. O pressuposto de que a atenção é quantitativamente limitada é apoiado pelo fornecimento finito de metabolitos disponíveis para o cérebro. A suposição de que a atenção é quantitativamente limitada é suportada pelo fornecimento finito de metabolitos disponíveis para o cérebro. Está implícito em toda a psicologia experimental no conceito de exigência da tarefa. Os autores sugerem que a competição entre processos mentais pela atenção escassa
é um factor importante na formação do processo cognitivo.
É geralmente aceite que a concentração é uma qualidade da atenção. No entanto, esta metáfora óptica pode ser alargada para parametrizar o foco de atenção entre a luz difusa num extremo e o feixe de uma lanterna no outro. Ou seja Isto é, a atenção pode estar amplamente distribuída por muitos interesses ou pode estar concentrada em poucos interesses. As estratégias utilizadas para a atribuição da atenção são normalmente distribuídas e, em grande medida, geneticamente determinadas.
A atenção é o recurso que é disputado pela procura de uma tarefa, e uma tarefa é um
interesse. Para realizar uma tarefa (enquanto tarefa), qualquer indivíduo precisa de:
ver o objetivo da tarefa - compreender o objetivo
valorizar o objetivo da tarefa - estar motivado por ela
ver como realizar essa tarefa - compreender exatamente que tarefa é, que
que passos devem ser dados para a realizar
saber como dar os passos identificados.
As pessoas autistas são susceptíveis de ter problemas ou sentirem desafios com cada um destes aspectos. De acordo com a teoria do monotropismo do autismo, a atenção da pessoa autista é caracterizada por aquilo que parece sobrepor-se ao hiperfoco e aos estados de flow, especificamente, um túnel atencional estreito dirigido para os interesses de uma pessoa autista. Estes interesses são “monotrópicos” na medida em que se postula que são altamente intensos e relativamente poucos em número. É óbvio que muitas pessoas autistas apresentam interesses intensos em determinados tópicos. As pessoas autistas podem também ser lentas a desligar a sua atenção dos estímulos. Esta lenta desvinculação, muitas vezes chamada de “atenção pegajosa”, parece altamente compatível com as ideias de mudança lenta de conjuntos e “inércia autista” que estão interligadas com o monotropismo.
A noite começava a cair. E apesar do dia ter tido luz num período grande de horas, A Rute ainda estava no mesmo lugar. Naquele que acabava de ser invadido de pessoas que estavam a fazer uma procura a pedido dos pais da Rute. Porventura demoraram todo aquele tempo em pensarem que a Rute estaria na mata junto à sua casa, por não estarem assim tão atentos aos seus comportamentos diários e habituais. A Rute só percebeu quando alguém lhe tocou nas costas por duas ou três vezes. Como não tinham avisado as pessoas que não deviam tocar de maneira nenhuma no corpo da Rute, a pessoa acabou por levar com o braço da Rute quando esta deixou de estar centrada no final da construção da teia de aranha. Assustei-me! diz. E ainda me assustei mais ao ver aquelas pessoas todas a olhar para mim! Odeio ter pessoas a olhar para mim! E ao olhar para trás para apanhar o equipamento do chão notou que a aranha já lá não estava também. Talvez sejamos mais parecidos com as aranhas do que pensamos! refere. Pelo menos alguns de nós! finaliza.



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