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A solidão dos sozinhos


If you’re lonely when you’re alone, you’re in bad company.”

Jean-Paul Sartre


Habitualmente ia para o aeroporto estudar! diz Carlos (nome fictício). ficava a meio caminho entre a minha casa e escola. descia na paragem do aeroporto e ia para lá estudar. a primeira vez que isso aconteceu foi ao acaso. os miúdos da escola continuavam a fazer-me a vida negra, até no autocarro. naquele dia estava mais farto que o habitual e desci ali. segui as setas para o aeroporto. talvez a minha vontade fosse desaparecer dali. já não me recordo bem. mas já tive muitas outras vezes esse mesmo sentimento! continua. tinha internet grátis. assim como electricidade para carregar o smartphone. a maioria das pessoas que andavam por ali eram adultos. e as crianças não largavam as mãos dos adultos. e quando o faziam os adultos gritavam. mas o pior para mim eram as crianças. elas é que andavam atrás de mim a gozar ou bater-me. podia estar ali o tempo que quisesse que ninguém me dizia nada. ou dormir em cima dos bancos sem que me dissessem nada. decididamente era o sítio onde já tinha estado com mais pessoas e me sentia confortavelmente sozinho! refere. até o barulho que costumava ser um problema para mim ali incomodava menos. o ruído era constante. esse para mim não incomodava. os sons repentinos e inesperados, esses sim eram um problema! ali as pessoas faziam tudo igual e constante. andavam e falavam de um lado para o outro. até lhes achava piada porque pareciam quase sempre perdidas. mais perdidas do que eu! acrescenta.


Frequentemente diziam que eu era uma pessoa sozinha, diz Carlos. sempre pensei que fôssemos todos assim, sozinhos, únicos no mundo. não percebia que diziam aquilo com uma ideia negativa. até porque para mim sabia-me bem estar assim. ainda que todos me dissessem que era mau para mim estar tanto tempo sozinho. como é que eles sabiam? como é que eles sabiam o tempo que eu iria estar sozinho na vida? as pessoas não autistas dizem coisas incrivelmente absurdas! refere. também passaram a dizer que eu não queria ter amigos. e que não me queria dar com as pessoas! nem sequer me conheciam e passavam logo a dizer estas e outras coisas. e quando não o estavam a dizer andavam a correr atrás de mim ou a gozar-me. e eram os mesmo que diziam que eu não me queria dar com ninguém! desabafa. sinceramente, as pessoas não autistas dizem coisas incrivelmente absurdas.


Na faculdade li um artigo que dizia que a solidão é habitualmente descrita como o sentimento que deriva da experiência subjectiva da discrepância entre as relações desejadas e experienciadas. ao ler aquela frase fiquei com a ideia de que aquilo que vivia não era solidão. haveria de ser outra coisa, mas não era solidão. ou então seria um outro tipo de solidão. há tantas variantes de vários comportamentos e sentimentos, também haveria de haver para a solidão. foi assim que decidi qual seria o tema da minha tese - solidão. chamei-lhe a solidão dos sozinhos. o grande problema foi conseguir explicar e convencer o meu orientador do tema e da importância do mesmo. ainda por cima não havia nenhuma literatura científica na altura a suportar aquela ideia - o comportamento de solidão na pessoa autista adulta. mesmo sentindo que aquela solidão sempre esteve comigo, apenas aos 23 é que me descobri autista. até lá apenas sentia tudo o que ainda hoje com 47 anos sinto. mas o nome é explicação apenas aconteceu naquela altura. na mesma altura em que estava a acabar o segundo ano da faculdade e tinha de escolher o tema da tese. e também por isso não sabia se havia de dizer alguma coisa ao meu orientador ou não. ele apenas dizia coisas como - a solidão é a experiência subjectiva do isolamento social, considerada um grave problema de saúde pública, atendendo ao facto de ter uma forte correlação com problemas de saúde física e mental, etc., etc., etc. outras vezes perguntava-me o porquê do meu grande interesse e insistência do tema. se eu lhe dissesse que era autista o que é que me garantia que ele não começasse como todos os outros a dizer que mais valia escolher uma coisa diferente, ou mais fácil. e que aquela minha insistência tinha a ver com o meu hiperfoco.


A vida das pessoas autistas torna-se necessariamente só. até porque as pessoas não autistas parecem não fazer nada para que isso seja diferente. ainda por cima se põem a dizer que estamos tristes ao estarmos sozinhos. só isso mostra o quanto desconhecem dessa tal solidão nas pessoas autistas. a minha tristeza era quando estava com outras pessoas, não quando estava sozinho. além de ter várias e diferentes formas de estar acompanhado. no aeroporto era um desses sítios. ficava a imaginar a vida daquelas pessoas. parecia uma biblioteca universal, maior do que Alexandria. era um acervo vivo e dinâmico de vivências e culturas. na maior parte dos dias aquilo bastava-me. fora do aeroporto tudo parecia mais difícil. tinha de explicar tudo. tinha-me de explicar. e na maior parte das vezes não acreditavam ou diziam que as coisas não eram assim. no final da adolescência tinha relações. as pessoas diziam que eram superficiais. o que é que eles sabiam de relações ou de profundidade?! boa parte deles nem sabiam que me chamava Carlos. foi por isso que quando tive de escolher o que haveria de seguir na faculdade, o curso de psicologia pareceu-me o mais adequado. os meus colegas riram-se. tive professores que ainda me perguntaram se eu tinha a certeza. os meus colegas ouvia-os dizer que ia para um curso de psicologia para me curar ou compreender. as pessoas não autistas dizem coisas incrivelmente absurdas. nem nunca me perguntaram para que queria a psicologia, mas acham que sabiam a razão da minha escolha. já os meus professores não percebo a razão daquela pergunta. tinha a ideia de que eles deveriam incentivar os alunos nas suas escolhas. mais tarde na tese percebi o porquê da pergunta, e de muitas outras coisas. eu apenas queria ter ferramentas para estudar o comportamento humano. queria aprender a perguntar adequadamente as questões às pessoas, de uma forma científica. de como elas sentem a sua solidão, como a descrevem e a pensam! felizmente a profissão de cientista enquadra-se bem com esta minha forma de ser!

 
 
 

1 comentário


Hugo Maçãs
21 de abr. de 2025

Solitude… segundo a IA “É uma forma de estar sozinho que não é vista como um estado negativo ou de isolamento,mas sim como um momento de tranquilidade, autoconhecimento e introspecção. “ Estar sozinho comigo próprio foi algo que sempre esteve presente na minha vida…os não autistas, como diz o carlos, não sabem estar sozinhos, precisam sempre de algo para colmatar esse vazio que é o Estar Sozinho. Eu gosto de estar comigo e quando estou bem, estou muito bem para os outros, e desde cedo que vivo para mim e que faço coisas que me deixam bem e em tranquilidade comigo mesmo. As pessoas podem achar que eu sou estranho… mas estranhas são elas…as pessoas que me olham e não…

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