A minha vida dava um livro
- pedrorodrigues

- 13 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
A minha vida dava um livro, disse isabel (nome fictício)! Sim, concordo plenamente contigo, acrescentou Raúl (nome fictício). Há lugar para mais um livro? perguntou a brincar Bianca (nome ficiticio). Talvez precisemos de uma biblioteca humana, já pensaram?! questiona António (nome ficticio). Ficaram em silêncio a olhar para ele, com um ar de ter sido descoberta a pólvora.
Não é uma descoberta e muito menos inovador, mas o certo é que é ainda pouco explorado esta ideia da biblioteca humana. Por exemplo, neste site, Human Library (ver aqui), poderão perceber que é um movimento que já existe há cerca de 25 anos. E muito provavelmente, uns e outros já o foram fazendo por sua iniciativa num ou noutro evento com algumas pessoas igualmente entusiastas da ideia da vida das pessoas além de ser um livro é capaz de ser transformadora quando partilhada junto de outros.
A partir daqui, o tema cresce e exige uma reflexão mais aprofundada sobre o que significa transformar vidas em livros vivos, disponíveis para serem lidos sem tinta nem papel, apenas com presença, escuta e diálogo. A Livraria Humana assenta na simplicidade radical de permitir que uma pessoa se ofereça como narrativa e que outra se disponha a ler essa narrativa através de uma conversa direta. No fundo, é uma forma profundamente humana de aprendizagem que devolve à experiência vivida o estatuto de conhecimento legítimo. No domínio da saúde mental, e em particular no campo do autismo, esta abordagem tem um potencial extraordinário.
O estigma nasce muitas vezes da distância entre grupos, da ausência de contacto significativo, da permanência de mitos antigos e da repetição de narrativas distorcidas. No caso do autismo, essa distância é frequentemente ampliada pela falta de espaços seguros onde pessoas autistas e não autistas possam comunicar sem pressão, sem julgamento e sem medo de serem mal compreendidas. A Livraria Humana oferece precisamente esta oportunidade, na qual o encontro é estruturado, mas não dirigido, e onde as perguntas são livres, legítimas e tratadas como parte natural do processo de descoberta.
Um projecto com estas características pode ter um impacto notável na forma como a sociedade compreende o autismo. Permite que pessoas não autistas acedam a testemunhos genuínos, contextuais e complexos, muitas vezes muito mais ricos do que qualquer manual clínico ou explicação teórica. Ao mesmo tempo, cria condições para que pessoas autistas possam conhecer melhor o mundo das pessoas não autistas, compreender expectativas sociais de forma segura e, acima de tudo, sentir que a sua voz é escutada e valorizada.
Num contexto clínico ou comunitário, esta abordagem representa uma ponte poderosa entre modelos educativos e modelos relacionais. A literatura científica sublinha que a redução do estigma passa por três vias educativas, interpessoais e ativistas. A Livraria Humana reside na interseção das duas primeiras. É educativa porque desafia preconceitos com base em factos vividos e não em abstrações. É interpessoal porque assenta no encontro, na curiosidade e na reciprocidade. E, ao contrário de certas metodologias de confronto, privilegia uma linguagem de descoberta, de encontro e de presença, o que torna o processo mais acessível e menos defensivo para todas as partes.
As metáforas que emergem deste conceito são igualmente ricas. Cada pessoa é um livro com capítulos abertos e capítulos ainda em escrita. Cada conversa é uma leitura que nunca será igual para dois leitores diferentes. Cada encontro é uma oportunidade de ajustar o olhar e de compreender que a experiência humana raramente cabe em categorias rígidas ou simplificadas. No caso do autismo, isto é particularmente relevante, uma vez que a diversidade interna da condição exige uma escuta fina, atenta e informada para evitar generalizações abusivas.
A aplicação deste modelo pode ajudar a desmontar ideias cristalizadas sobre comunicação, empatia e diferença neurológica. Pode também favorecer a construção de sociedades mais inclusivas, onde a curiosidade substitui o preconceito e onde a proximidade relacional se torna o principal agente de mudança.
Por tudo isto, imaginar uma Livraria Humana dedicada ao autismo é imaginar um espaço onde cada vida se torna texto vivo e cada leitor se torna aprendiz da humanidade plural que todos partilhamos. É imaginar uma comunidade que reconhece que a compreensão nasce menos das definições e mais da escuta verdadeira. É imaginar que o encontro entre pessoas autistas e não autistas pode ser transformador para ambas as partes. É imaginar que, afinal, cada vida dá mesmo um livro, e que cada livro vale a pena ser lido.



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