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A Inclusão Não Se Declara, Pratica-se

Abril é frequentemente marcado por campanhas, iluminações simbólicas e discursos que evocam a consciencialização para o autismo. Contudo, para a pessoa autista adulta, a distância entre o que se proclama e o que se vive permanece, demasiadas vezes, inaceitavelmente ampla. Este texto não é dirigido às pessoas autistas. É dirigido a si, que ensina, recruta, emprega, trata, protege e decide. É dirigido a quem tem poder real de transformar ou perpetuar barreiras.


Na universidade, espaço que deveria ser de conhecimento, abertura e equidade, continuam a existir docentes que, apesar de conhecerem o diagnóstico e o enquadramento legal da educação inclusiva, resistem à implementação de acomodações. Não se trata de desconhecimento técnico, trata-se frequentemente de uma escolha, ainda que implícita, de não flexibilizar práticas. Cada recusa, cada olhar de desconfiança, cada comentário desvalorizador comunica ao estudante autista que o problema é ele. O impacto não é apenas académico, é identitário, psicológico e, muitas vezes, irreversível.


Nos processos de recrutamento, a entrevista de emprego mantém-se como um palco onde a competência é avaliada por critérios implícitos, sociais e pouco transparentes. O contacto ocular, a fluidez verbal, a leitura de subtilezas sociais, tornam-se mais determinantes do que o conhecimento técnico ou a capacidade real de desempenhar funções. O recrutador que não reconhece estas diferenças não está a avaliar mérito, está a excluir diversidade.


No contexto laboral, o padrão repete-se. Empregadores que hesitam em ajustar horários, ambientes sensoriais ou formas de comunicação, perpetuam uma lógica de uniformização que penaliza quem funciona de forma diferente. A ausência de acomodações não é neutralidade, é uma forma activa de desigualdade. E essa desigualdade traduz-se em menor retenção de talento, maior sofrimento psicológico e, frequentemente, abandono precoce do emprego.


Nos serviços de saúde, onde deveria prevalecer a escuta e a adaptação ao perfil do utente, muitas pessoas autistas encontram incompreensão, pressa e rigidez. A dificuldade em descrever sintomas de forma convencional, a sobrecarga sensorial dos espaços clínicos, ou a necessidade de previsibilidade são frequentemente ignoradas. O resultado é claro, cuidados de saúde menos eficazes e maior evitamento dos serviços.


Quando olhamos para as forças policiais e o sistema judicial, a gravidade intensifica-se. A falta de formação específica pode levar à interpretação errada de comportamentos autistas como resistência, desobediência ou suspeita. Um silêncio pode ser visto como afronta. Uma reação sensorial pode ser interpretada como agressividade. Nestes contextos, a ignorância não é apenas uma falha, é um risco concreto para a integridade física e psicológica da pessoa autista.


A questão central é simples e desconfortável. Quantas destas situações resultam de falta de conhecimento e quantas resultam de falta de vontade em agir de forma diferente? A informação sobre o autismo nunca foi tão acessível. A evidência científica é robusta. As recomendações são claras. Persistir nos mesmos comportamentos é, cada vez mais, uma escolha.


A inclusão não se constrói com intenções nem com discursos ocasionais. Constrói-se em decisões concretas, repetidas, quotidianas. Exige revisão de práticas, investimento em formação e, acima de tudo, responsabilidade individual e institucional. Cada profissional que contacta com uma pessoa autista tem a oportunidade de facilitar ou dificultar o seu percurso. E essa escolha tem consequências reais.


Neste mês de consciencialização, talvez a pergunta mais relevante não seja o que sabemos sobre o autismo, mas o que fazemos com esse conhecimento. Porque, no fim, não é a condição que limita a pessoa autista. São as respostas que recebe do mundo à sua volta.


 
 
 

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