A depressão dentro do autismo
- pedrorodrigues

- 16 de out. de 2024
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Não procures que não vais encontrar. Não há uma cara de depressão! Além do mais eu não sou uma pessoa de chorar, nunca fui! E se queres saber já me esqueci do que é gostar das coisas. Provavelmente nem nunca soube o que isso é! disse Cláudio (nome fictício), pessoa autista adulta quando falava sobre o seu diagnóstico de depressão que lhe foi dito quando ele tinha 14 anos.
Muitas vezes explico às pessoas autistas que acompanho que a sua ansiedade e depressão costuma vir à boleia do autismo. A primeira reacção costuma ser de alguma estranheza. Até porque ouvir dizer que a ansiedade e depressão pode vir à boleia de algo e ainda mais do autismo pode causar alguma confusão. Mas depois explico dizendo que várias vezes observamos que a ansiedade sentida prende-se com algumas das suas características do espectro do autismo existentes desde sempre. Por exemplo, se a pessoa apresentar uma hipersensibilidade sensorial auditiva, é muito provável que tenha sentido em vários contextos e ao longo da vida um desconforto e até mesmo dor e mal estar físico e psicológico por se manter nesse ambiente e ainda mais sem saber o que se está a passar. E quando percebe que essa dificuldade advém da sua hipersensibilidade começa a desenvolver ansiedade de antecipação sempre que antevê que vai estar num contexto que lhe vai causar esse mal estar. Ou até mesmo quando não tem conhecimento suficiente do sitio onde vai estar e como tal torna-se imprevisível se vai haver esse desconforto ou não. O que na verdade leva a que muitas vezes esse mesmo mal estar possa ser sentido. Algo semelhante também se passa com a depressão na pessoa autista.
E tudo isto não quer dizer que as pessoas autistas não tenham em comorbilidade uma perturbação de ansiedade ou depressiva. Porque as têm e no caso da depressão a sua prevalência é quatro vezes mais elevado do que nas pessoas não autistas. Mas também verificamos que há um número considerável de pessoas que são diagnosticadas com depressão quando estas suas características na verdade podem estar a mascarar um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Com tal, esta abordagem é necessária para começar a colmatar as lacunas na compreensão das apresentações depressivas e, subsequentemente melhorar a precisão do diagnóstico. Seja no reconhecimento da depressão quando há um diagnóstico de autismo. Mas também quando não é uma depressão, mas na verdade são características semelhantes, mas que dizem respeito a um diagnóstico de autismo.
Para as pessoas autistas, o impacto da depressão pode ser profundo; E esta está associada a uma menor qualidade de vida, a um aumento da prevalência de ideação e tentativas suicidas, à solidão e a uma diminuição do emprego. Apesar da elevada prevalência e do impacto significativo, a depressão pode ser subdiagnosticada ou mal diagnosticada em pessoas autistas. Uma possível razão para este facto é uma compreensão incompleta da como a depressão se apresenta neste grupo, que pode incluir sintomas ou sinais que diferem das pessoas não autistas.
As perturbações depressivas, incluindo a Perturbação Depressiva Major, a Perturbação Depressiva Persistente e a Perturbação Afectiva Sazonal, caracterizam-se por sentimentos persistentes de tristeza, desesperança e falta de interesse ou prazer em quase todas as actividades. As perturbações depressivas são tipicamente diagnosticadas através de entrevistas clínicas e de instrumentos de diagnóstico.
A crescente investigação sobre a depressão em pessoas autistas indica que a depressão pode ser negligenciada ou incorretamente diagnosticada em pessoas autistas devido à sobreposição de sintomas depressivos com caraterísticas do autismo, e à falta de instrumentos de avaliação adaptados. Os sintomas de depressão que partilham semelhanças com caraterísticas autistas podem complicar o diagnóstico diferencial. Por exemplo, o evitamento de situações sociais, diferenças ou uma reduzida gama de expressão emocional, e dificuldades com o comer ou dormir podem ser observadas em ambas as condições. Além disso, pode ocorrer ofuscação do diagnóstico, em que sintomas depressivos em pessoas autistas são erradamente atribuídos ao próprio autismo, em vez de serem reconhecidos como sinais de uma perturbação depressiva concomitante.
Identificar e diferenciar sintomas de depressão das caraterísticas do autismo torna-se ainda mais difícil na presença de condições específicas concomitantes, incluindo a dificuldade intelectual e desenvolvimental que se regista em até 33% das pessoas autistas, assim como a presença de estilos de comunicação mais atípicos.
A utilização/compreensão da comunicação cognitiva e verbal pode influenciar a forma como a depressão é apresentada e relatada, uma vez que a dependência de observações comportamentais pode ignorar os aspectos cognitivos e emocionais da depressão nas pessoas com dificuldades em comunicar as suas emoções e processos de pensamento. Além disso, os actuais inventários de depressão, concebidos e e desenvolvidos para populações não autistas, podem não não ter em conta os estilos de interpretação literal comuns das pessoas autistas, levando potencialmente a imprecisões no registar as suas experiências. A Alexitemia, uma caraterística comum em aproximadamente 50% da população autista, pode ter impacto no auto-relato de experiências emocionais, tornando difícil para algumas pessoas autistas articular os seus estados internos.
Ou então, um aumento de comportamentos restritos e repetitivos, tais como restrições alimentares ou o stimming podem ser exemplos de expressões de depressão distintas do autismo em pessoas autistas. Como tal, é necessário um conhecimento pormenorizado da apresentação da depressão em pessoas autistas para melhorar a precisão do diagnóstico e, consequentemente, a eficácia da intervenção, seja a psicológico, mas também a médica. Uma forma de o fazer é explorar as apresentações relatado em pessoas autistas que têm um diagnóstico confirmado de depressão e como seus sintomas relatados de depressão se alinham ou não com os critérios estabelecidos para depressão.
Por exemplo, muitos sintomas depressivos comuns na população não autista, tais como anedonia, fadiga, sentimentos de fracasso e mudanças nos padrões de sono e alimentação, também aparecem em pessoas autistas. No entanto, em comparação com adultos não autistas, os adultos autistas parecem ser menos propensos a indicar pensamentos suicidas ou sentimentos suicidas ou dificuldades de concentração. Estes sintomas depressivos foram muitas vezes expressos através de alterações comportamentais em vez de serem feitas verbalmente. Por exemplo, o humor deprimido em pessoas autistas parece ser geralmente inferido a partir de pistas não verbais, incluindo um comportamento triste, em vez de ser diretamente articulado. Também se observa que as pessoas autistas podem exibir indicadores adicionais ou alternativos de depressão, como caraterísticas autistas aumentadas, regressão do desenvolvimento e comportamentos autolesivos.
As pessoas autistas descrevem frequentemente sintomas depressivos como mudanças internas que se desviam dos seus estados emocionais típicos. A depressão parece ser o sintoma mais frequentemente identificado e expresso de várias formas, desde declarações explícitas de tristeza e episódios de choro até uma linguagem mais metafórica, como a comparação do seu estado emocional com um mundo muito próprio seu. Por sua vez, a anedonia, ou falta de prazer em actividades anteriormente agradáveis, costuma ser expressa como uma diminuição do prazer, com afirmações como, “Às vezes sinto que não consigo desfrutar muito das coisas” e ”esquecemo-nos um pouco do que é gostar das coisas”. Enquanto outras pessoas autistas descrevem o envolvimento mais intenso em actividades como um mecanismo de coping. Mantiveram ou até aumentaram o seu envolvimento nessas actividades não por prazer real mas como uma forma de aliviar a angústia depressiva. Ou então também relatam mudanças, normalmente uma redução, no apetite ou no sono. Do ponto de vista motor costumam falar de uma sensação de força descontrolada que os puxa para baixo e que os leva a apresentar comportamentos motores e um movimento mais lentificado.
Ao nível da atenção ou na dificuldade em manter esta, também aparecem relatos, ainda que variados na sua apresentação. Por exemplo, dificuldades de pensamento ou de concentração ou sensação de estar preso numa caixa, fluxos maiores de pensamentos e a incapacidade de canalizar o seu foco, tornando impossibilitando a concentração. Os sentimento de inutilidade e culpa aparecem com frequência e observamos um discurso de auto-critica mais marcado.
No que diz respeito aos profissionais de saúde, é importante que estes devem ter em conta a forma como factores como a Alexitimia e os estilos de comunicação variados prevalecentes entre as pessoas autistas podem influenciar a articulação e a interpretação dos sintomas depressivos, introduzindo potencialmente preconceitos de interpretação ainda mais complicados pelas dificuldades das pessoas não autistas em compreender estes métodos de comunicação singulares.
Para além disso, existem outros potenciais indicadores de depressão empessoas autistas para além dos critérios da DSM-5-TR para a depressão. Por exemplo, o aumento da camuflagem e do isolamento e evitamento social, características das pessoas autistas mais acentuadas, ansiedade, irritabilidade, regressão do desenvolvimento e comportamentos de externalização e auto-agressão. Estes indicadores ocorrem frequentemente em conjunto e interagem entre si, complicando ainda mais a apresentação e a avaliação da depressão. Como tal, a necessidade acrescida de camuflagem e o subsequente afastamento social podem levar a um maior isolamento, que está associado a níveis mais elevados de solidão e depressão, e a uma diminuição do apoio dos pares, um factor de proteção conhecido contra as perturbações do humor, pelo menos na população em geral. Ainda que possa acontecer de uma forma diferente na população autista. Mas também, uma chamada de atenção para a questão da camuflagem social e de como esta leva muito frequentemente a um não diagnóstico de autismo ou demora em o ter, por os comportamentos mais proactivos de socialização, ainda que aprendidos, possam ser vistos como não pertencendo a uma pessoa autista.
Simultaneamente, a depressão pode afectar as características autistas, tais como os comportamentos repetitivos (e.g., o stimming), sendo que algumas pessoas podem não se aperceber deste impacto até que ele seja evidenciado por outros. A ansiedade, que frequentemente coocorre com a depressão, pode manifestar-se como um aumento ou um início agudo durante os episódios depressivos, actuando por vezes como um precursor ou intensificando esses episódios. Dada a elevada prevalência de perturbações de ansiedade nesta população e a significativa sobreposição de sintomas entre a depressão e a ansiedade, a distinção entre as duas constitui um desafio considerável, exigindo uma abordagem de avaliação cuidadosa e abrangente. A irritabilidade, relatada juntamente com a depressão em várias idades e capacidades intelectuais em pessoas autistas, tem sido identificada como uma dimensão distinta e estável que prevê significativamente a depressão futura, indicando uma forte ligação ao longo da vida. Apesar da ligação reconhecida entre a irritabilidade e as ideações suicidas na população com perturbações depressivas em geral, a análise da forma como a irritabilidade influencia os comportamentos suicidas na comunidade autista continua a ser limitada. Dada a elevada incidência de pensamentos e tentativas suicidas registada entre as pessoas autistas, é urgente realizar mais investigação que explore esta relação.



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