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A cidade autista

Não sei o que vai acontecer ao nosso filho quando nós morrermos!, desabafaram os pais durante a primeira consulta. E quem é que vai ajudar a nossa filha a tomar decisões?, perguntam outros dois pais. Porque é que não há apoios para que as pessoas autistas adultas possam ter uma casa?, pergunta-me Leonel (nome fictício). Eu fiz tudo aquilo que me pediram para fazer ao longo destes anos, continua. Fui a todas as consultas. Fiz treino de competências sociais. Frequentei os apoios na escola para ter melhores resultados e até frequentei a universidade. Estou a trabalhar. E ainda que receba pouco mais do que o ordenado mínimo, o meu trabalho é estável. Mas ainda assim não consigo ter uma casa. Porquê?, pergunta-me novamente. Ainda que eu sinta que ele próprio já sabe muito das possíveis respostas a dar. Constroem bairros de realojamento para pessoas com desvantagens sociais, refere Cristina (nome fictício). Porque é que não fazem o mesmo para as pessoas autistas?, continua. As coisas lá por casa dos meus pais são muito difíceis, desabafa. Eles próprios já estão muito velhotes e se nunca me compreenderam, agora ainda é mais difícil, concluiu. Aquilo não é para mim, nem para eles!, remata.


Se ao menos as pessoas conseguissem compreender a angústia que um pai sente por sentir desde o nascimento do filho que ele nunca será autónomo e independente!?, desabafa o pai de um jovem adulto autista. Não que eu não saiba que ele não tem capacidades, porque as tem, continua. Mas aquilo que eu vejo, é que apesar das suas capacidades e do esforço da mãe e meu, as coisas parecem não ser suficientes!, concluiu.


Por que é que as pessoas não querem os autistas a viver sozinhos?, pergunta-me Rudolfo (nome fictício). Têm medo de nós? Têm medo que não cuidemos de nós? É isso?, continua. Ao menos as pessoas têm ideia do que é que nós somos capazes de fazer?, pergunta Leonor (nome fictício), namorada do Rudolfo. Ao menos as pessoas sabem que nós temos direitos iguais a elas?, continua. Ainda na semana passada vi uma manifestação em que as mulheres gritavam que ninguém mandava no seu corpo. E em mim, porque é que acham que têm de mandar? E de dizer que eu tenho de viver aqui ou ali, sem sequer me perguntar o que eu acho?, desabafa novamente Leonor.


O problema é que não temos ninguém que nos represente na politica, diz Telmo (nome fictício). Enquanto estive no curso de Relações Internacionais aprendi alguns destes conceitos importantes de representatividade politica, continua. Existem as associações, é verdade. Mas não têm poder de influência suficiente. Não ao ponto de criarem um lobbie com força suficiente, remata. E os políticos deveriam ter vergonha, principalmente quando votam favoravelmente a favor da autonomia e independência das pessoas portadoras de deficiência, refere Júlia (nome fictício), companheira de apartamento de Telmo. Como é que podem dizer aquelas coisas e depois não perceberem que as pessoas adultas não têm a possibilidade de exercer os seus direitos?, diz num tom de voz mais zangado.


Eu não me importaria de desenhar as casas para um projecto destes, refere Rui (nome fictício) que é arquitecto. Mas não tenho a decisão politica e muito menos a capacidade de investimento, continua. Mas porque é que uma cidade desenvolvida como Lisboa ou Porto não aposta num projecto destes?, avança. Eu não sou o único arquitecto autista. Conheço pelo menos mais uns quatro, concluiu. E engenheiros civis deve haver mais uns quantos, diz Lourenço (nome fictício), irmão de Rui e engenheiro civil.


Falam tanto dos desalojados que há por este mundo fora. Quando é que vão reparar nos milhares de autistas alojados contra a sua vontade?, refere Júlia (nome fictício). E não me venham dizer que pelo menos tenho uma casa para viver! Ou que pelo menos os meus pais ainda me aceitam a viver com eles! Já ouvi isso e muito pior. Ao ponto de me chamarem ingrata. Eu sou uma pessoa com direitos. Eu sou autista e tenho direito a habitação própria, concluiu.


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