A antropologista

Antropólogo, pessoa envolvida na prática da antropologia. E esta é o estudo de vários aspectos dos seres humanos nas sociedades passadas e presentes. Sendo a antropologia social e cultural aquela que estuda as normas e os valores das sociedades. Assim que li pela primeira vez esta descrição, lembro-me que foi por volta dos seis anos no computador do meu pai, que percebi imediatamente aquilo que queria ser, diz-me Susana (nome fictício). E se dúvidas houvesse, todo os anos subsequentes apenas o puderam validar, continua. Terem-me atirado uma pedra no recreio da escola sem que tenha percebido o porquê daquilo. Ser regularmente ignorada, rotulada como estranha e outros adjectivos afins, ficar quieta e sossegada a ler, retraída, rude, assustadora, hipersensível, e tudo o resto que você consegue perfeitamente imaginar, não me deixou outra escolha a não ser despender muito tempo a tentar compreender e fazer sentido do comportamento dos seres humanos, conclui. Recordo também que no primeiro jantar de natal em que eu participei em pé de igualdade na mesa dos crescidos, tinha eu oito anos, ficaram muito surpreendidos, excepto o meu pai, quando perguntei alto, O que é que eu estou a fazer neste planeta? Porque é que eu estou aqui entre todas estas pessoas?, acrescentou Susana. A minha tia, que é médica, disse logo à minha mãe que eu teria de ser observada por um especialista. Até porque deveria estar deprimida. A minha avó começou logo a dizer que tudo aquilo deveriam ser influências dos meus colegas da escola. E o meu tio solteiro, avançou um olhar qualquer para mim, dizendo que tinha de ter responsabilidade para não envergonhar a família e muito menos naquelas situações. Escusado será dizer que todos eles são do meu lado materno. O meu pai e os meus avós paternos continuaram a comer, refere. Também por isso nunca tive dúvidas em perceber a quem tinha saído, conclui Susana. Aquela questão que o meu tio tinha referido era um bom exemplo daquilo precisamente que eu não compreendia de todo no quotidiano lá no colégio. A ideia de ter responsabilidade para não envergonhar a família e muito menos naquelas situações, levantava-me questões suficientes capazes de escrever uma tese com elas, diz. Apesar de ter tido um ambiente protegido, ter estado no mesmo colégio até ter saído para a universidade. E depois nesta ter passado para outra universidade para seguir para o doutoramento. Nada disto foi o suficiente para me proteger contra todo um conjunto de adversidades, principalmente aquelas relacionadas com o social. Grande parte das pessoas pareciam funcionar como o meu tio. O que também significou que não percebi a maior parte delas a grande maioria das vezes, acrescenta. Apesar de me dar sem dúvida melhor com o meu pai, não adiantava perguntar-lhe para ele me explicar essas coisas. Ele não entendia. Ao invés disso falava-mos de filosofia. Ele era professor de filosofia na universidade. Por isso não havia dúvida - Antropóloga. Facto que foi uma grande desilusão para a minha mãe e avó. Esta última considerava que Antropologia era uma espécie de Arqueóloga, e isso era andar no meio da terra vestida com calças. E a minha mãe sonhava que eu fosse para Tradução. A minha avó nem sabe o quanto eu pensei em escolher Arqueologia. Mas decidi poupa-la ao desgosto, até porque tinha uma idade avançada. E em relação à Tradução não me fazia absolutamente sentido algum. Se alguém quisesse ler um livro que o lesse naquela língua e se não soubesse, que a aprendesse, pensava alto Susana, deixando todos boquiabertos. Com 38 anos fiz a maior descoberta de todos - sou Autista. E foi então nessa altura que voltei a pensar que continuava na área certa - Antropologia. Até porque na Medicina e na Psicologia, o autismo foi sendo erroneamente conceptualizado como uma doença e que impede um comportamento social significativo. Enquanto os antropólogos começar por abordar este conceito rejeitando os limites estreitos do que constitui o funcionamento social humano. Mostrando as formas complexas pelas quais as crianças e os adultos autistas participam e contribuem para as suas sociedades. Não o estou a cansar, certo?, pergunta-me Susana ao fim de uns minutos ininterruptos a falar. Como dizia Lionel Goosman, "A evidência conta apenas como evidência e só é reconhecida como tal em relação a uma narrativa potencial, de modo que se possa dizer que a narrativa determina a evidência tanto quanto a evidência determina a narrativa", continua. Até porque um dos aspectos mais marcantes dos discursos contemporâneos sobre o autismo é que eles se concentram na criança e na sua "doença": a criança ferida ou danificada, a criança com déficits e deficiências, a criança que não consegue falar ou não pode interagir, o filho recuperado ou curado. Cientistas, médicos e até mesmo os órgãos de comunicação social falam ou escrevem com menos frequência sobre o autismo como uma condição no adulto e como uma deficiência. A diferença conceptual crucial entre doenças e deficiência é que o primeiro destaca os déficits do indivíduo, enquanto o último destaca os déficits da sociedade em acomodar a pessoa. Pensar no autismo como um fenómeno adulto ou uma deficiência exigiria que nos concentrássemos na integração potencial ou falta de integração das pessoas autistas na vida da comunidade. Por exemplo, residência, emprego, e vida independente. Isto é, o ambiente total em que uma pessoa autista existe ao longo da vida. Percebe porque me faz sentido ter ido para Antropologia?, pergunta-me Susana. Há algum tempo que Susana se debruça sobre muitas destas questões. E as inúmeras reflexões que traz estão muitas delas escritas, melhor dizendo, rabiscadas, em folhas ou partes de folhas que traz dentro dos bolsos e que algumas delas já se encontram espalhadas no gabinete. A velha imagem estereotipada da pessoa com autismo - Masculino, não verbal, incapaz do ponto de vista mental, auto-agressor, não afectuoso e incapaz de se envolver em qualquer interação social, deu lugar à compreensão de que o autismo é uma gama de diferentes condições, pontos fortes e fraquezas. O autismo hoje é melhor definido em termos da sua heterogeneidade, como um grupo de autismos, acrescenta. Existem, com certeza, pessoas que podem se encaixar num estereótipo, mas a maioria das pessoas que compõem o grupo actual de crianças e adultos com diagnóstico de autismo, contados numa actual taxa de prevalência de melhor estimativa de 1 em 110, são participantes activos na sociedade. Vários parecidos com minha companheira, Isabel (nome fictício), professora de música. E se me vai perguntar se eu nunca me assustei com os esqueletos, respondo já que não!, diz Susana antes mesmo do final da consulta. Os vivos são certamente mais incómodos. E os mortos falam muito mais e em silêncio comparativamente a todos nós, conclui, levantando-se dizendo que já tinha reparado que eu tinha olhado para o relógio em cima da mesa entre nós.


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