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Necessidades Políticas Específicas

NEE?!? Necessidades Educativas Especiais!?! Já não se emprega a designação Especiais, agora dizemos Necessidades Educativas Específicas!! Mas os professores ainda são designados como Professores de Educação Especial?!? Talvez seja mesmo necessária uma NPE - Necessidades Políticas Específicas!! Esta falta de consenso e articulação pode ser um outro exemplo da confusão, mas também da ausência de rigor da transposição do conhecimento científico e pedagógico para as práticas educativas no contexto escolar. Além de um gesto mais humanista no contacto com os alunos com deficiência. Sendo fundamental não confundir gestos mais humanistas com paternalismos, caridade e infantilização desnecessária por apresentarem necessidades educativas específicas. Por estas e outras razões a escadaria da inclusão continua longe para muitas e cansativa para quem a teima continuar a fazer.


A educação inclusiva constitui hoje um dos princípios fundamentais das sociedades democráticas. Em Portugal, os diplomas legais, as convenções internacionais sobre os direitos humanos e os direitos das pessoas com deficiência são claros ao afirmar que todas as crianças e jovens têm direito a uma educação de qualidade, em condições de igualdade, dignidade e participação plena. No entanto, entre os princípios consagrados na lei e a realidade vivida por muitas famílias, alunos e profissionais da educação, continua a existir uma distância considerável.


A falta de políticas educativas verdadeiramente eficazes para os alunos com necessidades educativas específicas e a insuficiente alocação de recursos humanos e financeiros permanecem entre os principais obstáculos à concretização de uma escola genuinamente inclusiva. Apesar dos avanços registados nas últimas décadas, a escola pública portuguesa continua frequentemente sem os meios necessários para responder de forma adequada às necessidades destes alunos.


Perante esta realidade, muitas famílias acabam por procurar respostas no ensino privado. Contudo, também estas instituições têm vindo a alertar para as dificuldades que enfrentam. Diversas escolas referem que o valor transferido pelo Ministério da Educação, cerca de 700 euros mensais por aluno, é insuficiente para suportar os custos associados aos apoios especializados, à contratação de profissionais qualificados e à implementação de programas educativos adequados às diferentes necessidades.


As queixas das famílias repetem-se ao longo dos diferentes ciclos de ensino. Muitas relatam percursos marcados por sucessivas dificuldades na procura de respostas adequadas para os seus filhos. Fala-se da escassez de docentes de educação especial, da insuficiência de técnicos especializados, da falta de formação específica para responder a determinadas problemáticas e, por vezes, de uma preocupante ausência de sensibilidade relacional perante alunos cujas formas de comunicar, aprender ou estar no mundo diferem das mais comuns.


Por sua vez, professores, diretores e outros responsáveis educativos também manifestam preocupações legítimas. Muitos defendem a necessidade de rever algumas políticas educativas relacionadas com a educação especial, reforçar equipas multidisciplinares, melhorar a formação especializada dos profissionais e garantir condições que permitam uma intervenção mais consistente e eficaz. Cada grupo apresenta as suas razões e as suas experiências, algumas profundamente marcadas pelo desgaste e pela frustração.


No centro deste debate estão, contudo, os próprios alunos. São eles que diariamente experimentam as consequências das insuficiências do sistema. Muitos sentem que a escola continua a não ter sido pensada para si. As barreiras não são apenas arquitetónicas. São também pedagógicas, organizacionais e, sobretudo, relacionais. Persistem situações em que alunos com necessidades educativas específicas enfrentam maiores níveis de incompreensão, menor adaptação das estratégias educativas e uma probabilidade acrescida de serem vítimas de bullying, exclusão ou isolamento social.


A fotografia desta enorme escadaria constitui uma poderosa metáfora desta realidade. A escola surge no topo, como um objetivo desejável e legítimo. Contudo, o caminho até ela parece excessivamente longo, exigente e inacessível para muitos alunos. Alguns conseguem subir os degraus, ainda que com enorme esforço. Outros precisam de apoios adicionais para o fazer. E alguns nem sequer chegam à escadaria, impedidos desde logo pelos pilaretes que limitam a passagem. As barreiras físicas representam aqui todas as outras barreiras invisíveis que continuam a existir nos nossos sistemas educativos.


Ao observar esta imagem, surge inevitavelmente uma questão: onde estão os responsáveis pelas políticas educativas? Falamos frequentemente dos alunos, das famílias, dos professores, dos técnicos e das escolas. Mas raramente discutimos com a mesma intensidade a responsabilidade daqueles que definem as orientações estratégicas, distribuem recursos e determinam as prioridades do sistema educativo.


A inclusão não se concretiza apenas porque alunos com e sem deficiência partilham o mesmo espaço físico. A mera coexistência não basta para justificar o uso do conceito de escola inclusiva. A verdadeira inclusão exige planeamento, investimento, supervisão e avaliação contínua. Exige políticas públicas consistentes, sustentadas na evidência científica e na experiência dos diferentes intervenientes. Exige ainda a disponibilização dos recursos humanos e financeiros necessários para transformar intenções em práticas efetivas.


Enquanto continuarmos a celebrar a inclusão sem garantir as condições para a sua concretização, muitas crianças e jovens continuarão a enfrentar uma escadaria demasiado íngreme no percurso educativo. E uma sociedade que permite que alguns dos seus alunos encontrem mais obstáculos do que oportunidades dificilmente poderá afirmar que está verdadeiramente comprometida com a igualdade, a justiça e a dignidade humana.


A escola inclusiva não se constrói apenas com discursos. Constrói-se com políticas responsáveis, recursos adequados e um compromisso coletivo de garantir que nenhum aluno fique para trás antes mesmo de chegar ao primeiro degrau.


 
 
 

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