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Como eu vejo a psicoterapia

Pode enviar-me umas fotos da sua sala? Peço desculpa, mas já houve consultas com outros colegas seus em que tive de me vir embora ao fim de pouco tempo! Compreendo que seja um pedido atípico, mas é muito importante para mim!


Preciso que me explique como é que irão ser as consultas. Avanço já que não consigo interpretar facilmente respostas vagas. Preciso que dê exemplos claros de como irá decorrer as consultas. É uma coisa fundamental para eu decidir se marco a consulta ou não!


Pode explicar-me o beneficio da terapia para alguém como eu? Já fiz terapias durante anos e nunca consegui compreender e por isso abandonei todos os processos. Fico a aguardar para saber se marco consulta ou não.


Recebi estas e outras mensagens antes mesmo de um pedido de agendamento de consulta. As primeiras vezes que aconteceu fiquei perplexo, até porque era algo que nunca tinha acontecido. Isso foi há alguns anos atrás. Entretanto, estas e outras mensagens ou pedidos têm surgido com uma relativa frequência. Percebi inclusive que ao incentivar as pessoas a faze-lo elas mencionavam que provavelmente nunca o fariam por iniciativa própria.


A experiência da terapia pode apresentar desafios específicos para os adultos autistas, que vão desde a falta de conhecimento dos terapeutas sobre o autismo até contextos terapêuticos que não têm em conta as sensibilidades sensoriais. É verdade que os psicólogos poderão fazer um conjunto de alterações na sua sala de consultas, assim como aumentar a sua formação acerca do autismo na pessoa adulta. Contudo, ainda assim, estas mudanças, apesar de fundamentais, deixam provavelmente uma das mais importantes para se continuar reflectir. Até porque a investigação sobre os processos psicoterapêuticos com pessoas autistas adultas para recolher a sua percepção sobre a relação terapêutica bem como outros aspectos fundamentais do processo psicoterpêutico são escassos.


Estamos numa fase onde nos procuramos debruçar sobre as adaptações e acomodações do ambiente (setting terapêutico) para ser mais hasmonizado face ao perfil sensorial das pessoas autistas. Procuramos igualmente fazer algumas adaptações a metodologias de intervenção para ir ao encontro do processamento da informação da pessoa autista em relação ao Self, os Outros e o meio ambiente. Escrevemos mais sobre as necessidades de formação dos profissionais de saúde (psicólogos e psiquiatras principalmente) e de como devem ser as melhores abordagens. Mas ainda estamos distantes da forma de compreender a maneira como a pessoa autista adulta compreende a relação e o processo terapêutico. E ainda mais se estivermos a falar de pessoas autistas adultas nível de suporte 2 ou 3.


Fazer terapia implica uma relação terapêutica e nas pessoas autistas as relações apresentam formas diferentes do habitual neurotipico. E até mesmo a percepção da redução da sintomatologia inicial que leva a pessoa à consulta, assim como a compreensão da mudança do self. Aspectos frequentemente tidos em conta como objectivos na terapia, também nas pessoas autistas apresentam formas diferentes de serem sentidas e expressas. Até porque aquilo que podemos pensar como alguns sintomas podem perfeitamente fazer parte daquilo que é o perfil de funcionamento da pessoa autista em questão. Na maioria das vezes, as pessoas tendem a referir-se a mudanças globais, tais como relacionarem-se melhor com os outros ou sentirem-se melhor em relação a si próprios ou aos outros. Um aspecto que mais uma vez se espera diferente enquanto resultado na terapia com pessoas autistas.


Há uma diferença subtil entre aquilo que muitos profissionais imaginam que é o início de uma terapia e aquilo que pode representar para uma pessoa autista. Para muitos terapeutas, a primeira consulta é o início de uma relação. Para muitas pessoas autistas, a primeira consulta começa muito antes de atravessar a porta do consultório. Começa quando tentam imaginar aquele espaço. Começa quando procuram antecipar o ruído da sala de espera, a intensidade da iluminação, a textura do sofá, a proximidade física do terapeuta, o tempo de duração da consulta, a forma como serão recebidas, o que será esperado delas e, sobretudo, aquilo que poderá correr mal.


Não se trata de ansiedade no sentido mais habitual da palavra. Trata-se frequentemente de uma necessidade profunda de reduzir a incerteza. Porque a incerteza não é apenas desconfortável. Por vezes é incapacitante.


É curioso observar que, durante muitos anos, a psicoterapia foi construída quase exclusivamente a partir da perspectiva dos terapeutas. Estudámos quais eram as técnicas mais eficazes. Discutimos quais eram as melhores orientações teóricas. Falámos da importância da aliança terapêutica. Reflectimos sobre o ambiente físico do consultório. Mais recentemente começámos, e muito bem, a reconhecer que as pessoas autistas necessitam frequentemente de acomodações sensoriais. Iluminação menos intensa. Menor estimulação auditiva. Menos odores. Maior previsibilidade do espaço. Flexibilidade na comunicação. Mais tempo para processar informação. Também percebemos que os profissionais necessitam de muito mais formação sobre o autismo no adulto. Tudo isto é indispensável. Mas talvez ainda estejamos a olhar para a terapia sobretudo a partir da cadeira do terapeuta.


Continuamos a perguntar: “O que devemos fazer de diferente?” Talvez ainda façamos poucas vezes uma pergunta muito mais difícil: “Como é que a pessoa autista experiencia estar aqui?


São perguntas diferentes. E conduzem a respostas completamente diferentes. Fazer psicoterapia implica construir uma relação. Mas aquilo que entendemos por relação terapêutica resulta, em grande medida, do conhecimento produzido a partir de populações neurotípicas.


Assumimos frequentemente que confiança significa determinadas manifestações emocionais. Que proximidade implica determinadas formas de comunicação. Que empatia é reconhecida através de determinados sinais. Que uma boa relação se sente de determinada maneira.


Mas será mesmo assim? Para muitas pessoas autistas, confiar num terapeuta pode não significar sentir uma ligação emocional intensa. Pode significar algo muito mais concreto. Saber exactamente o que vai acontecer. Perceber que as palavras são utilizadas com precisão. Sentir que não existem mensagens escondidas. Poder fazer perguntas sem receio de parecer inadequado. Não ser constantemente interpretado para além daquilo que efectivamente disse. Não sentir que precisa de mascarar quem é para ser compreendido.


Talvez esta seja uma das maiores diferenças. Enquanto muitos modelos de psicoterapia assumem que a relação se constrói através da espontaneidade, muitas pessoas autistas constroem segurança através da previsibilidade.


Enquanto alguns terapeutas valorizam a exploração do implícito, muitas pessoas autistas necessitam primeiro de compreender o explícito. Enquanto alguns profissionais procuram flexibilidade, muitas pessoas procuram consistência. Enquanto alguns interpretam silêncios, outras pessoas utilizam-nos simplesmente para pensar. Existe ainda outra questão que raramente discutimos.


Como é que uma pessoa autista sabe que a terapia está a resultar? A resposta pode parecer óbvia. Sentir-se melhor. Mas o que significa exactamente sentir-se melhor? Grande parte dos estudos em psicoterapia descreve resultados através de mudanças relativamente globais. Melhor autoestima. Melhores relações interpessoais. Maior bem-estar. Maior consciência emocional. Redução da sintomatologia. Contudo, estes conceitos podem adquirir significados muito diferentes numa pessoa autista. Melhorar uma relação pode significar deixar de tentar manter amizades que sempre foram exaustivas.


Pensar que ainda são muitas as vezes em que as pessoas autistas adultas souberam recentemente o seu diagnóstico. Sendo que fizeram todo o percurso anterior da sua vida não só sem saber este seu diagnóstico, mas fundamentalmente sem se saberem conhecer ou compreender para além de tudo aquilo que foram ouvindo dos outros ao longo desse tempo.


Aumentar a autoestima pode passar por aceitar que algumas dificuldades não precisam de ser ultrapassadas para que exista uma vida com significado. Reduzir ansiedade pode não implicar eliminar a necessidade de rotina, mas compreender porque ela existe e aprender a protegê-la quando necessário. Por vezes aquilo que parece uma melhoria para o terapeuta pode ser vivido como uma perda pela própria pessoa. Outras vezes, mudanças profundamente significativas podem passar completamente despercebidas aos instrumentos habituais de avaliação. Uma pessoa pode continuar a evitar festas. Pode continuar a precisar de auscultadores em ambientes ruidosos. Pode continuar a preferir comunicar por escrito. E, ainda assim, viver uma transformação profunda na forma como compreende a sua identidade.


A terapia nem sempre muda aquilo que somos. Muitas vezes muda a forma como deixamos de lutar contra aquilo que sempre fomos. Talvez seja precisamente aqui que ainda sabemos muito pouco. Continuamos a investigar como adaptar técnicas. Continuamos a discutir quais os modelos terapêuticos mais eficazes.


Mas continuamos a ouvir demasiado pouco aquilo que as próprias pessoas autistas têm para nos dizer acerca da experiência de estar em terapia. Não apenas se a terapia resultou. Mas como foi vivida. O que gerou confiança. O que provocou afastamento. O que permitiu permanecer quando a vontade era desistir. O que significou sentir-se finalmente compreendido. Sobretudo nas pessoas autistas com maiores necessidades de suporte, esta ausência de conhecimento torna-se ainda mais evidente. Continuamos a saber muito pouco sobre a forma como experienciam a relação terapêutica, como atribuem significado à mudança ou como definem, elas próprias, aquilo que entendem por uma terapia bem-sucedida.


A psicoterapia não é apenas uma intervenção clínica. É um dos poucos contextos em que alguém nos pede para falarmos de nós próprios. Ora, muitas pessoas autistas chegam à terapia sem uma narrativa integrada acerca de si mesmas. Durante décadas ouviram descrições feitas pelos outros. “És frio.” “És estranho.” “Não te esforças.” “Pensas demais.” “Não tens empatia.” “És demasiado sensível.” Muitas vezes aprenderam a conhecer-se através da interpretação que o mundo fez delas. Talvez seja precisamente por isso que responder à pergunta “Quem és?” seja infinitamente mais difícil do que responder à pergunta “O que sentes?”.


Esta será uma dimensão da terapia sobre a qual raramente reflectimos. Grande parte das pessoas que procuram psicoterapia chegam com uma narrativa relativamente organizada sobre quem são. Podem sofrer, estar deprimidas ou ansiosas, mas conseguem, em maior ou menor grau, reconhecer uma continuidade entre quem foram, quem são e quem gostariam de vir a ser. Muitas pessoas autistas não chegam assim. Sobretudo aquelas que receberam um diagnóstico tardio.


Chegam muitas vezes depois de décadas a tentarem adaptar-se a expectativas que nunca compreenderam totalmente. Aprenderam a observar os outros antes de falarem. Aprenderam a ensaiar conversas. Aprenderam a esconder interesses, necessidades sensoriais, formas próprias de comunicar ou maneiras particulares de pensar. Algumas fizeram-no durante tantos anos que deixaram de distinguir aquilo que era adaptação daquilo que fazia parte da sua própria identidade.


Quando entram em terapia, não trazem apenas sofrimento. Trazem frequentemente uma pergunta muito mais difícil. “Quem sou eu quando deixo de representar aquilo que os outros esperam de mim?” Esta talvez seja uma das tarefas mais complexas da psicoterapia com pessoas autistas. Não consiste apenas em reduzir sintomas. Consiste, muitas vezes, em reconstruir uma identidade que nunca teve oportunidade de se desenvolver em segurança.


É por isso que alguns objectivos tradicionalmente valorizados em psicoterapia podem necessitar de ser repensados. Nem sempre o sucesso consiste em tornar a pessoa mais sociável. Nem sempre consiste em aumentar a tolerância a ambientes sobreestimulantes. Nem sempre consiste em reduzir determinados comportamentos. Por vezes, uma terapia bem-sucedida termina com alguém que passou a dizer “não” com menos culpa. Que deixou de se obrigar a participar em contextos que sempre lhe provocaram sofrimento. Que finalmente compreendeu porque precisava de rotinas, porque evitava determinados sons ou porque chegava ao fim do dia completamente exausto.


Visto de fora, pode parecer que mudou pouco. Vivido por dentro, pode representar uma reorganização completa da forma como essa pessoa existe no mundo.


Como é que a pessoa autista adulta estabelece uma relação de confiança, segura e colaborativa com alguém que nem sequer conhece? Quando na maior parte das vezes se sentiu invalidado nos processos e dinâmicas relacionais com outros significativos (i.e., familia, colegas, professores, etc.)? Como é que a pessoa autista que na maior parte das vezes num período longo do processo terapêutico se sente a procurar combater os níveis de sofrimento que surgem tão frequentemente? E como é que todas estas questões aqui descritas se processam na pessoa autista com um déficit cognitivo ou não verbal?


E se algumas das ideias fundamentais da própria psicoterapia forem, elas próprias, neurotípicas? Falamos frequentemente de insight, de mentalização, de consciência emocional, de aliança terapêutica, de vínculo, de flexibilidade psicológica, de integração do Self ou de mudança pessoal como se todos estes conceitos possuíssem um significado universal. Mas será que possuem? Ou será que muitos destes conceitos foram construídos a partir da forma como as pessoas neurotípicas experienciam as relações, atribuem significado às emoções e organizam a sua identidade? Talvez uma pessoa autista não experiencie uma boa relação terapêutica através dos mesmos indicadores. Talvez a confiança não seja sentida da mesma forma. Talvez o silêncio tenha uma função diferente. Talvez a intimidade psicológica seja construída através de processos distintos. Talvez até a própria ideia de mudança necessite de ser redefinida.S e isto for verdade, então a adaptação da psicoterapia não consiste apenas em ajustar técnicas. Consiste também em questionar se algumas das nossas teorias descrevem processos humanos universais ou apenas uma forma particular, maioritária, de organizar a experiência humana. Esta hipótese pode parecer desconfortável. Mas talvez seja precisamente esse desconforto que permita à psicoterapia evoluir.


Talvez uma das perguntas mais importantes da próxima década na psicologia do autismo não seja: “Como adaptar a terapia às pessoas autistas?” Talvez seja outra. “Como é que as pessoas autistas descrevem, na primeira pessoa, aquilo que significa fazer terapia?” Enquanto não soubermos responder verdadeiramente a esta pergunta, continuaremos a adaptar salas, técnicas e protocolos.


Mas poderemos continuar sem compreender plenamente aquilo que acontece quando duas pessoas se sentam frente a frente e tentam construir, juntas, um espaço suficientemente seguro para que alguém possa existir sem precisar de esconder quem é. Além de um espaço suficientemente confortável para o terapeuta.


Talvez a psicoterapia comece precisamente aí. Não quando o terapeuta fala. Nem quando a pessoa autista responde. Mas no momento em que ambos deixam de assumir que já sabem como o outro vive aquela relação e começam, finalmente, a perguntar.


Talvez a verdadeira adaptação da psicoterapia ao autismo não aconteça quando mudamos a iluminação da sala, reduzimos os estímulos sensoriais ou alteramos uma técnica de intervenção. Talvez aconteça quando aceitamos que compreender uma pessoa autista pode obrigar-nos a reconsiderar algumas das próprias ideias que sustentam a psicoterapia. Porque talvez o futuro da psicoterapia no autismo não dependa apenas de adaptar modelos existentes. Talvez dependa de permitir que a experiência vivida das pessoas autistas transforme esses próprios modelos. Só então deixaremos de perguntar como adaptar a terapia às pessoas autistas e começaremos finalmente a perguntar como o autismo pode ensinar-nos uma forma diferente de compreender a própria natureza da relação terapêutica.


 
 
 

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