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So this is Christmas

So this is Christmas

And what have you done

Another year over

And a new one just begun


John Lennon & Yoko Ono


Ao principio ainda pensei que aquilo tinha a ver com o facto de me ter esquecido dos óculos em casa! exclama Amadeu (nome fictício). Já não conseguia ver as coisas nada bem. Tudo me parecia cada vez mais esborratado, refere. E a minha cabeça parecia estar como nunca esteve prestes a estourar, conclui.


Este principio da partilha do Amadeu deixa antever aquilo que muitas pessoas autistas, mais novas ou não, sentem em relação a vários aspectos desta época natalícia.


Agora já começam em novembro, diz Rafaela (nome fictício). Antes ainda conseguia escapar durante o mês de dezembro porque escolhia as férias sempre para essa altura, refere. Nunca ninguém quer férias nesta altura. Ou então já gozaram todas as férias no tempo quente. Mas eu gosto mesmo de tirar férias em dezembro para me isolar de todo este frenesim natalício, conclui.


As pessoas em geral pensam que as pessoas autistas não gostam do natal, diz Cláudio (nome fictício). Esta ideia reflecte muito daquilo que as pessoas em geral desconhecem do autismo, continua. Dizer que as pessoas autistas não gostam do natal por causa do barulho, será equivalente a dizer que as pessoas em geral não gostam de um concerto por a música estar demasiado alta, refere. As pessoas autistas gostam do natal, assim como de qualquer outra coisa. Não é o facto de serem autistas que faz com que gostem ou não de algo. E as pessoas não autistas parecem não compreender isso, conclui.


Eu não gosto do natal, não pela ocasião em si, diz Rute (nome fictício). Mas se olharmos com atenção, as pessoas transformam-se nestas alturas. E não propriamente para alguém melhor, refere. As pessoas andam mais à pressa e aos encontrões. Parecem mais stressadas e pouco tolerantes. Oferecem algo e de seguida são capazes de poder falar mal nas costas dessa mesma pessoa, acrescenta. Isso é aquilo que eu escolho não viver no natal, e não vejo nada de mal nisso, refere. E se as pessoas não autistas forem suficientemente honestas pensem que também não gostam desse tipo de atitudes. Mas que ainda assim são coniventes com estas situações, conclui.


Se eu gosto do natal? pergunta Marco (nome fictício). O que é que eu tenho para gostar no natal? continua. Do barulho excessivo e que me esgota? Do frenesim das pessoas e que me incomoda como ninguém? Dos odores que me levam a ficar isolado no quarto e com o nariz junto a uma almofada com perfume para não ficar enjoado? E ainda assim ao fim de duas horas fechado no quarto fico com uma dor de cabeça monstruosa? É isso que devo gostar no natal? pergunta novamente. Ou então ter as pessoas sistematicamente a perguntar-me se este ano vou oferecer alguma coisa aos meus pais? E ano após ano tudo isto se repete. É isso que eu tenho de gostar? De me obrigarem em pequeno a ficar sentado ao colo de um desconhecido que diziam ser o pai natal, independentemente de eu saber que era mentira. E de ele cheirar mal da boca e ficar a falar para cima de mim e eu sair dali sempre a chorar. Não quero acreditar que as pessoas me queiram obrigar a gostar do natal. E também não creio que muitos saibam verdadeiramente por que gostam do natal, conclui.


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