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Vira o disco e não toques o mesmo

Eu não sei como é que as pessoas querem que eu consiga?, refere Júlio (nome fictício). Primeiro foi na escola durante aqueles anos todos. Os meus pais a serem sistematicamente chamados à escola. Além dos meus colegas que me gozavam ano após ano. Ou os professores que não percebiam ou não queriam perceber a minha pessoa, continua. Os meus pais e o meu terapeuta na altura disse que seria importante eu ir para a universidade. E ainda que com muito esforço eu fui, refere. Demorei um pouco mais do que o habitual mas não desisti. Foram mais seis anos de grande sofrimento, acrescenta. Quando terminei a universidade estive três anos parado sem trabalhar. Depois de ter enviado duzentos e trinta e nove currículos, não fui chamado para nenhuma entrevista, continua. Para a semana vou fazer 29 anos. Confesso que já não consigo pensar nisto. Tudo isto enerva-me, percebes?, pergunta-me. Tornei-me especialista de muitas coisas ao longo deste tempo. Aprendi seis línguas para além do Inglês na escola. Licenciei-me em História. O meu conhecimento em História da Arte é bastante aprofundado. Como é que eu sei?, pergunta-me. Ao longo deste tempo tenho falado online com muitas pessoas, algumas delas especialistas. E são precisamente elas que o dizem. No principio eu próprio não acreditava. Mas depois de tanto tempo a ouvi-los comecei a acreditar, concluiu. Por que é que aqui nunca ninguém me chamou para uma entrevista?, pergunta-me. Eles nem sabem que eu sou autista, exclama. O que aconteceria se eles soubessem?, deixa a pergunta no ar.


Acho que sabes a resposta à tua pergunta Júlio, responde-lhe Francisca (nome fictício). Eu nunca passei aquilo que tu disseste ao longo da escola, refere. Apesar de nunca ter tido vontade em estar na maior parte das vezes com os meus colegas. Percebi cedo que isso parecia uma vantagem. Como tal, vi que tinha de aprender algumas coisas. Mas isso não era tarefa difícil para mim, muito pelo contrário. Ao ponto de no Secundário me terem eleito rainha do baile de finalistas, risse. Aprendi tudo o que tinha de aprender. Até porque tinha todo o tempo do mundo para isso. Os dias no quarto ficava a ler. Os intervalos ao longo destes anos todos passava a ler. Os audiobooks passaram a ser uma mais valia. Onde quer que fosse estava a ouvir um livro. Tornei-me uma especialista em muitas coisas. No fim do Secundário não sabia o que havia de fazer. Fui para Tradução na Universidade. Achei que seria aquilo que mais tinha a ver com os meus interesses - os livros. Ao contrário de ti Júlio não tive problema em começar a trabalhar, refere. O meu problema foi manter os meus empregos. Sempre estive à vontade com o meu autismo. E nunca fiz questão de o esconder. Apesar de nunca ter feito publicidade sobre isso. Mas quando comecei a trabalhar as dificuldades vieram todas ao de cima. As reuniões são infindáveis. E todos eles desrespeitam o inicio das reuniões. Ou o facto de ficarem trinta ou mais minutos a conversar sobre trivialidades. E quando eu os chamava à atenção disso, ainda hoje não me percebem, acrescenta. Mudam as coisas sempre à última da hora. Ou acham que podem marcar uma reunião depois do expediente porque não se conseguiram organizar. E eu nunca aceitei essas coisas, refere. Apesar do meu trabalho ser conhecido e reconhecido por todos continuo há dois anos e meio sem trabalhar. Faço umas coisas esporádicas. Tem sido impossível assegurar a renda de casa e tive recentemente de voltar para casa da minha mãe, apesar dos meus 47 anos, concluiu.


Júlio e Francisca são Especialistas. Júlio e Francisca têm um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo nível 1. No caso do Júlio também apresenta uma Perturbação do Humor. Ambos têm tido uma dificuldade tremenda em conseguir assegurar os seus objectivos de pessoa adulta. Júlio não consegue sair de casa dos pais. Francisca teve de voltar a casa da mãe. Ambos querem continuar a fazer a sua vida e continuam sem compreender o porquê destas dificuldades todas. Ambos sentem que têm cumprido com aquilo que lhes tem feito mais sentido. Além de terem cumprido aquilo que é esperado em termos normativos. Fizeram o seu percurso escolar e formativo. A única explicação que lhes vai ficando na cabeça é de que as pessoas não autistas não percebem e outros não querem perceber o que é o autismo.


Júlio e Francisca descobriram recentemente que Especialista em Dinamarquês se escreve Specialisterne. E também descobriram que a Specialisterne se associou com a Critical Software para realizarem em Portugal um programa de Neurodiversidade. Nenhum dos dois apresenta características suficientes para se inscrever no programa em questão. Isto apesar de terem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Têm algumas e boas competências em ferramentas informáticas no âmbito do utilizador, mas não ao nível da programação. Além de não ser uma área onde querem vir a trabalhar. Talvez se quisessem até conseguiriam fazer uma formação para o virem a realizar. Não seria a primeira ou última vez que uma pessoa com formação em História ou Tradução se tinha desviado para a área da programação. Afinal de contas Júlio e Francisca são Especialistas.


Quero sublinhar que me considero Especialista não porque sou autista, diz Francisca. Concordo contigo, diz Júlio. Conheço muitos autistas que não têm este tipo de competências, mas não deixam de ser competentes à sua maneira. E isso também faz deles Especialistas, refere Júlio. Nem que seja Especialistas a sobreviver a tudo isto que ser autista significa, acrescenta Francisca. Rimos todos um pouco. Mas todos sabemos que é preciso mudar muito o percurso em que ainda nos encontramos. Continuamos a ter um cada vez maior número de pessoas diagnosticadas com autismo. Não que os casos estejam a aumentar. Mas porque está a ser cada vez mais fácil poder fazer o diagnóstico. Ainda que continuem a haver muitas falhas, principalmente nos adultos e nas raparigas e mulheres especificamente. E são cada vez mais as pessoas autistas que estão a entrar na universidade, apesar dos números ainda tímidos. O que também quer dizer que do número grande de alunos referenciados no ensino obrigatório com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, continuam a ser muitos aqueles que não vão para a universidade ou para uma formação superior. E este facto é preocupante, também porque sabemos que o mercado de trabalho requer uma cada vez maior especialização. Em relação ao número de pessoas autistas adultas que estão empregadas, em Portugal não sabemos. Mas a realidade em países vizinhos, tais como a Inglaterra, é gritante. Cerca de 60% a 70% das pessoas autistas adultas não está empregada. E aqueles que estão, um grande número não tem um contrato de trabalho estável.


Eu quero que as pessoas deixem de mandar na minha vida e me impeçam de alcançar aquilo que desejo, diz Francisca.


Eu apenas quero fazer aquilo que tanto desejo e para o qual trabalhei uma vida, diz Júlio.


É assim tão difícil?, pergunto eu. E vocês! O que têm a dizer sobre isto tudo?



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