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Universidade em construção

Aquilo que mais desejo é que junto da fotografia que acompanha este texto pudesse estar escrito: Aqui vai nascer a universidade do amanhã. Aquela onde será respeitado na integra a Diversidade, Equidade e Inclusão.


Cada vez mais assistimos a um crescendo das pessoas neurodivergentes nas Instituições do Ensino Superior. Mas também é verdade que estas continuam a sentir um número igualmente crescente de dificuldades. Mas não se pense que as dificuldades existentes se prendem somente com as necessidades de adaptação que possam derivar daquilo que são algumas das características das pessoas neurodivergentes. Também estaremos a falar em muito acerca dos pré e preconceitos relativamente às pessoas pertencentes a este grupo. E que são tidos pelos seus pares neurotipicos mas também por alguns dos docentes e responsáveis universitários.


Com neurodivergentes estamos a referir a pessoas com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção ou Aprendizagem Especifica de Aprendizagem, entre outros.


São cada vez mais os alunos neurodivergentes e outros que compreendem esta importância que defendem a criação de uma Universidade que integre um paradigma de Diversidade, Equidade e Inclusão. À semelhança de todos aqueles que têm e continuam a reclamar a implementação de um Desenho Universal da Aprendizagem. Já não basta dizermos que somos pró diversidade e que queremos equidade entre os alunos universitários ou que defendemos a sua inclusão. É vital podermos transformar essas mesmas ideias e ideais em práticas observáveis e que se traduzam na mudança real das pessoas e que se traduzam na possibilidade de todos poderem realizar os seus projectos de vida.


Não chega disponibilizar um gabinete de apoio ao aluno e alocar um conjunto de técnicos, normalmente da área da psicologia e serviço social. É fundamental capacitar estes mesmos técnicos com um saber ser, estar e fazer que se deseja diferente para todos os alunos. E poder pensar que muitos alunos têm eles próprios dificuldades diversas em se deslocar a estes mesmos locais e apresentar as suas questões. E não é porque não as tenham e necessitem de resolver. Mas sim porque não sentem que estes mesmos espaços possam estar adaptados e construídos a pensar em si. E para que isto possa acontecer, seja nos gabinetes de apoio ao aluno, mas também em qualquer espaço da própria universidade, é fundamental envolver as pessoas neurodivergentes a pensar em conjunto na construção destes próprios espaços.


Porque se pensamos que as universidades são anteriores às pessoas neurodivergentes, provavelmente estaremos errados. E o mais certo é que ambos tenham surgido precisamente na mesma altura.


As pessoas neurodivergentes necessitam urgentemente que todos aqueles que estão na universidade possam pensar que estes não são apenas pessoas que necessitam de ajuda e compreensão. As pessoas neurodivergentes são pessoas. E são pessoas que se candidataram à universidade e que desejam dar seguimento aos seus sonhos e projectos de vida. E não, não necessitam que hajam colegas, docentes e outros responsáveis mais ou menos directos que os julguem, contrariem por os sentirem diferentes, avaliem de modo diferente e que pensem que são pessoas que necessitam de ajuda e compreensão.


O dia a dia de um estudante universitário neurodivergente não pode ser pautado por níveis aumentados de ansiedade por não saber como será o próximo dia de aula ou aquele próprio que acabou de se iniciar. De quantos desafios extra terá de superar para que se consiga manter nas aulas sem que lhe seja possível ter determinadas adaptações. E que quando se pense nestas mesmas adaptações se tenha de sujeitar o aluno neurodivergente a um escrutínio de como se ele tivesse a solicitar algo que pertence a algum capricho seu. E que no caso de vir a ser implementado essa mesma adaptação poderemos vir a suscitar algum tipo de celeuma junto dos alunos neurotipicos e como tal teremos de agir com cuidado.


Muito frequentemente um aluno universitário neurodivergente sente que aquilo que irá ocorrer na universidade é algo semelhante ao que aconteceu no ensino obrigatório. Um conjunto de burocracias para atestar e justificar as necessidades de adaptação que derivam das suas características. O que em boa parte leva este mesmo aluno a sentir que aquilo que está a acontecer é da sua responsabilidade. Ainda que muitos se desdobrem em repetir que a pessoa neurodivergente não tem culpa. Mas ainda assim necessita de andar a justificar a pertinência das necessárias adaptações. E ainda assim se sujeitar ao escrutínio mais uma vez de alguns docentes universitários que dizem que não irão implementar essas mesmas medidas.


A universidade do amanhã será construída por todos e para todos. E não há nada de romanceado ou idílico neste pensamento. Se as universidades forem participadas desde a sua conceptualização por pessoas neurodivergentes e estas também estiverem em lugares de decisão, certamente que as plantas destas mesmas Instituições de Ensino Superior serão pensadas desde a raiz por todos e para todos.



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