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Uma história que nasceu

Muitos de nós não sabe uma parte importante da sua história de vida. Ou pelo menos não o sabe de uma forma detalhada. Estou a referir-me ao parto. É verdade que muitos de nós a partir de determinada altura pergunta aos pais - Como é que foi quando eu nasci? E normalmente a resposta costuma ser - Foi uma momento muito especial e bonito! Mas as crianças também querem saber mais alguns detalhes e não somente que foi especial. Mas a explicação costuma ficar por aqui. Um pouco mais tarde, normalmente na escola, vão ficar a perceber como é que ocorre um parto, seja normal ou por cesariana. E alguns voltam a ganhar coragem para perguntar como foi o seu parto adiantando que não querem saber a parte do especial e bonito. Mais uma vez os pais costumam amenizar as explicações fornecidas. Os pais usualmente referem que não estiveram sequer presentes no momento do parto. E as mães procuram fornecer mais algumas explicações mas de forma poupada nos detalhes e sensações vividas naquele momento.


Eu acho que a tua mãe terá sentido algumas dores!, atreve-se João (nome fictício) a dizer à filha. Vê-se mesmo que não foste tu a parir!, disse a mãe depois da filha ter saído da sala. Se tu estivesses deitado naquela mesa a gemer de dores desde as 05h00 até às 18h00 e depois daquilo tudo te tivessem feito uma cesariana, quando tudo aquilo que tu mais desejavas era ter tido o parto em tua casa de forma tranquila, apenas com a parteira e de forma natural, não dizias nada disso, conclui.


Uma hora pequenina, disse-lhe a irmã no dia anterior ao se despedir no telefone. Ana (nome fictício) não compreendeu o que aquilo queria dizer. Mas desta vez não quis voltar a ligar à irmã para lhe perguntar. Há um ano atrás seria o mais provável de acontecer. Ana não conseguia continuar sem perceber algo. Mas a vida dela tinha mudado. O seu corpo tinha mudado. As mudanças não paravam de acontecer. Ou então eram as pessoas que apregoavam o conjunto infinito de mudanças que por aí vinham. Ana tinha o parto da Alice (nome fictício) marcado para o dia seguinte e ainda tinha de rever pela enésima vez a lista das coisas com o Paulo (nome fictício), o seu marido.


Ana soube que estava grávida na mesma altura em que ficou a saber que está no Espectro do Autismo. A Ana tem 28 anos. Há cerca de um ano e meio que tinha começado uma relação com o Paulo. Apesar das algumas situações a que Ana ia estando habituada na sua pessoa e que o Paulo também ia começando a compreender. O certo é que nos últimos tempos algumas coisas tinham agravado, nomeadamente nas alterações do humor.


Já te disse que não quero que estejas no momento do parto, dizia-lhe Ana, enquanto se dirigiam para o hospital. Paulo procurava insistir. Sabia que era um momento único para si, mas sentia que poderia ajudar Ana. Não vale a pena Paulo, dizia-lhe novamente. Mas eu podia ajudar-te, insiste Paulo. Tomara eu conseguir lidar comigo naquele momento, quanto mais ter de lidar contigo, refere-lhe. Vão estar muitas pessoas na sala. E tu sabes que aquilo tudo vai ser muito difícil para mim e não apenas pelo parto, acrescenta-lhe. E ter de dizer alguma coisa a alguém estranho não vai ser o mesmo que o ter de dizer a ti, conclui. Por isso peço-te que não voltes a insistir.


Ana, vou pedir que se sente nesta cadeira de rodas para a podermos levar para o piso onde irá ficar, diz-lhe a auxiliar do hospital que estava encarregue de a encaminhar. Como assim, o piso onde eu vou ficar?, dispara Ana numa pergunta que deixava antever mais algumas outras. Não me tinham falado de nada disso de ter de ficar num piso? E estamos a falar de ter de andar de elevador? Eu não ando de elevador! Eu já sabia que isto haveria de acontecer. Por isso é que eu queria ficar em casa!, continua. A auxiliar não sabia bem o que lhe dizer, mas continuou a avançar para si e procurou segurar-lhe no braço com ligeireza para a sentar na cadeira. Paulo adiantou-se à auxiliar e segurou ele no braço de Ana. Até porque sabia que a hipersensibilidade táctil não lhe iria permitir aquela situação de uma pessoa desconhecida a tocar-lhe. Pode depois dizer-me se a médica da minha esposa está no hospital para eu poder falar com ela?, perguntou Paulo à auxiliar.


Dali a pouco Paulo ficaria de fora de todo um conjunto de acontecimentos que continuava a sentir que seria importante a sua presença. Mas Paulo tinha prometido à Ana que não lhe voltaria a dizer nada mais sobre isso.


Alice nasceu às 18h40. Só ao fim de vinte minutos é que o Paulo foi chamado para ver a filha. Mas Paulo queria saber como estava a Ana. A enfermeira aconselhou o Paulo a deixar as perguntas para outra altura, assegurando ao Paulo que a sua esposa estava bem. E a Alice no colo ajudou Paulo a esquecer por momentos todas aquelas questões.


Foi horrível, muito, muito horrível. Além de ter sido muito, muito doloroso, referiu Ana dois dias depois quando regressaram a casa. O problema não foi as contração e todas as outras dores. Mas ter alguém a tocar-me enquanto faziam todas as outras coisas levou-me a um limite nunca antes sentido, continuou. A cesariana foi o golpe final. Para quem queria ter um parto natural e em casa, ter de vir para o hospital e acabar a fazer uma cesariana foi uma grande frustração, referiu. E não, não acho que nenhum deles estava ciente de como lidar com o autismo. Além de ninguém ter mencionado isso, ninguém sequer me perguntou como é que eu estava a lidar com toda a situação, diz. A carga sensorial foi constante e ninguém queria saber disso. Foi preciso gritar com as pessoas. Só assim é que compreenderam, continuou. Ana foi assim durante mais alguns minutos na viagem, enquanto mantinha Alice aninhada no seu colo.


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