Um cogumelo tralalá: Se não sabe porque continua a apanhar?

Após as primeiras chuvas de Inverno, quando se sente o cheiro da terra húmida, são muitas as pessoas que se passeiam pelas matas Portuguesas em busca de um passeio e alguns cogumelos. Cantarelos, Boletos, Míscaros, Róculos, Abesós, Cardielas, são muitos os diferentes tipos de cogumelos comestíveis. São muitas as chamadas de atenção para aqueles que não sabem distinguir os cogumelos e as autoridades locais e associações da área vão realizando formações e workshops para sensibilizar a população. E o que tem a ver isto com o Espectro do Autismo?

A maioria dos adultos com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) enfrenta problemas de saúde mental, e os serviços tradicionais de saúde mental geralmente não atendem as suas necessidades. Quando procuramos saber o que pensam os adultos com PEA, clínicos que fazem atendimento em serviços de saúde mental e responsáveis por instituições de saúde mental poderíamos pensar que as opiniões haveriam de ser divergentes, certo? Errado! É um pouco como na apanha dos cogumelos. São muitos aqueles que pensam saber identificar os cogumelos comestíveis mas que numa boa parte das vezes estão errados.


E o que dizem as três partes interessadas em relação ao tema dos serviços de saúde mental para os adultos com PEA? A maioria das barreiras relatadas envolve o conhecimento limitado dos médicos, falta de experiência, baixa competência e baixa confiança trabalhando com adultos autistas. Todos os três grupos também referem a desconexão entre os sistemas de saúde mental na comunidade e os serviços para as dificuldades desenvolvimentais (i.e., pessoas com Dificuldade Intelectual e Desenvolvimental), que podem resultar no afastamento dos serviços de adultos autistas quando entram em contacto com a divisão de saúde mental e divulgam o seu diagnóstico de autismo durante o processo de entrada. São necessários esforços para treinar os médicos a trabalhar de forma mais eficaz com adultos autistas e aumentar a coordenação entre os sistemas de saúde mental e deficiências de desenvolvimento.


Não parece difícil, certo? É um pouco como a apanha dos cogumelos. Bastaria uma informação clara, objectiva e esclarecedora e deixaram de haver situações de risco para a saúde. E o mesmo se diria para as questões do autismo nos adultos. Se todas as parte envolvidas parecem estar de acordo em relação às necessidades seria de por em prática algumas das medidas que já se sabem terem resultados para outras situações na área da saúde mental. O que será que precisa de acontecer para que a Perturbação do Espectro do Autismo possa ser reconhecida para além do que existe já descrito nos manuais de diagnóstico das perturbações mentais? Se os profissionais de saúde nas mais variadas vertentes, sejam os médicos de clinica geral e familiar, mas também alguns pediatras, psiquiatras mas também psicólogos referem terem tido pouca formação adequada à realidade do Espectro do Autismo. E não só formação mas também experiência no contacto com esta mesma condição. Será importante que as Ordem profissionais, respectivos colégios das especialidades e ministério da saúde possa validar a colocação em prática destas medidas.


Uma percentagem considerável de adultos autistas lutam com problemas de saúde mental, mais comumente ansiedade e depressão. Entre outras perturbações psiquiátricas associadas (e.g., PHDA, POC, etc.). Como tal, podemos antever as dificuldades que os próprios sentem, mas também as dificuldades que as suas próprias famílias passam no quotidiano.


No caso dos adultos autistas são muitos aqueles que ainda continuam a dizer que têm muita dificuldade em encontrar um clínico com conhecimento sobre a sua condição. Sejam médicos psiquiatras ou de outras especialidades mas também psicólogos, são apontados como tendo um conhecimento mínimo sobre o Espectro do Autismo. Mais especificamente, têm conhecimento acerca das características de diagnóstico da DSM-5 ou ICD 10 e pouco mais. Como tal são muitos os adultos autistas que passam por várias experiências negativas entre clínicos que sentem que não os conseguem compreender na medida da sua expressão e do seu sofrimento. Se a procura for ao nível do Sistema Nacional de Saúde a resposta para os adultos autistas parece ser ainda mais precária. Se os próprios ou a família fizer uma pesquisa online para saber quais os serviços de referência descobre rapidamente a quase ausência de resposta. E as poucas respostas vão estando sobrelotadas e com tempo de espera interminável.


Para além desta questão um outro aspecto apontado pelos autistas adultos costuma ser a falta de recomendações práticas. Por exemplo, na intervenção psicológica e se formos procurar referências na literatura acerca de modelos conceptuais e de intervenção psicoterapeutica nas Perturbações do Espectro do Autismo as referências são abundantes no modelo Comportamental e Cognitivo (CBT). Ainda assim, e já são muitos os clínicos que referem a importância da adaptação deste e de outros modelos na intervenção com adultos autistas. Mas para além disso continua a haver muito uma prática clinica na intervenção rígida e que parece não contemplar a directividade na intervenção. Facto que leva a que muitos dos adultos autistas se sintam perdidos em algumas destas terapias.


Alguns clínicos vão referindo as "limitações cognitivas" dos adultos autistas como um entrave à prática clinica tradicional. O que também demonstra que a rigidez e inflexibilidade apontada nas pessoas com PEA também existe em número suficiente em muitos de nós.


Será fundamental que as orientações clínicas para o que significa uma Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) na pessoa adulta possa ser definida de forma clara e que essa informação possa ser passada junto de todos os clínicos. Mas também é fundamental que possa ser fornecida formação adequada a estes profissionais para ir ao encontro da falta de prática que muitos referem no atendimento de pessoas com esta condição. Além disso é fundamental fazer passar a informação de instrumentos de rastreio para que os próprios clínicos possam mais facilmente referenciar para serviços competentes. Mas claro que estes serviços competentes precisam de ser criados.

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