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Um aquário de sonhos

Um destes dias acordei com a sensação de estar sufocado com os meus pensamentos!, diz Raul (nome fictício). O que acha que pode significar?, pergunta-me. Devolvo-lhe a questão. Se eu soubesse o que é não te perguntaria, não achas?, diz-me. Nunca pensei que os sonhos fossem sequer importantes. Até porque nunca ninguém me perguntou sobre eles. Os meus pais ou os meus colegas nunca me perguntaram. E eu nunca ouvi ninguém falar sobre os seus sonhos também. E além disso os meus psicólogos anteriores nunca deram atenção a eles, refere,


Embora Freud, tenha proposto que sonhar e, especificamente, o conteúdo significativo dos sonhos está relacionado com o funcionamento mental, a natureza ténue e mal compreendida dos sonhos tornou muito problemática a proposta de dar apoio empírico ou falsificar esta reivindicação. A natureza do estado de sonho é altamente subjectiva e uma experiência verdadeiramente pessoal, tornando a análise científica de sonhar algo proibitiva. Os sonhos contêm frequentemente material que é absurdo e desafiante de interpretar racionalmente, tornando a caracterização dos sonhos de um ponto de vista objectivo uma tarefa desconcertante. Enquanto todos sonhamos, existe uma variabilidade incrível na experiência subjectiva dos sonhos. Algumas pessoas raramente se lembram dos seus sonhos e concluem erroneamente que não sonham de todo, enquanto outras experimentam sonhos vividos com rica imagiologia visual e conteúdo emocional.


Achas que eu sonho?, perguntam-me muitas vezes nas consultas os meus clientes autistas. Dizem ter algumas lembranças, umas mais escassas do que outras relativamente aos seus sonhos. Mas também sentem durante algum tempo que os sonhos não parece ser algo a que querem dar importância. É algo que acontece e que como tal parece ser não assim tão importante. Até porque como não se lembram do sonho como um todo sentem que não há nada para dizer. Ou então, como não perceberam o que estiveram a sonhar acabaram por relegar aquele mesmo sonho para um segundo plano. Mas também como muitos deles acabam por ter dificuldades ao nível da higiene do sono, com bastantes situações de insónias ou de micro despertares, parece que a questão dos sonhos passam para um segundo plano. Até porque também parecem ter com alguma frequência situações de terrores nocturnos. Mas o certo é que independentemente de tudo isto eles sonham. E ainda que a consciência do que os outros pensam e a capacidade de atribuir sentimentos para os outros caracteriza tanto a consciência acordada como a consciência sonhadora, e ela sugere que uma espécie social como o homem tem uma necessidade independente da teoria da mente. Ainda assim, parece ser fundamental poder criar um espaço para que os sonhos das pessoas autistas possam ter lugar no processo psicoterapêutico.


Nunca me sonhei autista!, interrompe Joana (nome fictício). Di-lo com um misto de alegria e tristeza. É possível as pessoas sonharem-se tal qual são? Ou é suposto os sonhos serem o lugar do impossível? Mas podemos estar a falar dos sonhos acordados?, questiona António (nome fictício). Desses tenho muitos! Não é por acaso que me dizem frequentemente que estou sempre a dormir!, acrescenta. Ainda que fosse mais correcto que dissessem que estou a sonhar, concluiu. Dos sonhos a dormir não tenho memória!, diz Paula (nome fictício). Nem me faz sentido que eles aconteçam a dormir. Se depois de acordar não me lembro deles, do que faz sentido sonhar a dormir?, pergunta. E além disso prefiro os meus sonhos acordada. Em que consigo sentir tudo aquilo que o sonho me proporciona. E não tenho problemas em os meus sonhos serem igualmente fantásticos comparativamente aqueles que os outros não autistas sonham. Sempre ouvi os sonhos dos meus namorados e nunca me pareceu que os meus sonhos acordados fosse assim tão diferentes!, concluiu. Ainda uma destas noites acordei porque estava a sonhar que fazia as coisas de uma forma completamente diferente do habitual e estava a gritar comigo próprio no sonho, refere Raul. É como se estivesse a lutar contra o meu Eu autista, comenta. Foi estranho, acrescenta. Por um lado queria continuar a fazer as coisas daquela maneira, mas parecia haver algo em mim que não queria deixar. Estive cerca de dois dias em que quase não consegui fazer nada, concluiu. Como muitas pessoas autistas, nem sempre reconheço como o meu "normal" é diferente do dos outros e o sonho tem sido uma dessas áreas, diz António. Os meus níveis elevados de stress sobre qualquer assunto têm produzido sonhos incrivelmente vividos e com tal nível de ameaça ou bizarrice (ou ambos) inerentes a eles que um episódio me deixaria ansioso, confuso e cansado, mais propenso a cometer erros frustrantes e a não querer envolver-me socialmente, continua. Em alguns casos, tenho estado ausente do trabalho por causa deles e, numa ocasião bastante memorável, rasguei uma fronha de almofada, concluiu. Desde criança que sonho em voar nos meus sonhos, diz Joana. Por vezes para me divertir, e por vezes para fugir quando sinto que estou a ser perseguida. Muitas vezes salto de edifícios altos, penhascos, montanhas ou precipícios. Caio durante algum tempo antes das minhas capacidades de voo fazerem efeito, e depois posso voar e até deslizar como um condor através de vales e o que não viaja longas distâncias através do campo. Mas aqui está uma regra estranha que tem estado presa no meu cérebro: Só consigo voar de acordo com a minha idade. Como tenho 25 anos apenas consigo voar a 25 Km por hora e isso parece-me pouco. E como tal vou ter de esperar por envelhecer. É uma grande frustração, concluiu. Por vezes alguns sonhos intensos perturbam os meus pensamentos como se me dessem a ideia de que o que aconteceu no sonho, muitas vezes relacionado com acontecimentos passados que me tocaram muito emocionalmente, diz Paula. Depois de acordar os pensamentos ainda vagueiam na minha mente e leva tempo a perceber que foi um acontecimento que nunca aconteceu e tenho de pensar muito para perseguir essa ideia porque me dá medo de ficar presa numa ideia falsa para lidar com a realidade exterior. ... não como uma ideia psicótica, eu realmente percebo que é errado mas que me dificultaria lidar com a realidade se ficasse perturbada por imagens de um acontecimento dos meus sonhos e não da experiência verdadeira... muito estranho e realmente irritante, concluiu.


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