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Traumas diários

Tinha cerca de oito anos. Já não recordo com muita mais precisão do que isso. Mas consigo lembrar-me de tudo mais. Voltava da escola. Naquela altura era normal andar sozinho. Atravessava um campo. Era verão. Estávamos quase nas férias. As ervas no campo estavam secas e picavam nas pernas. Passava sempre junto aquela figueira. Naquele dia na figueira estavam duas pessoas empoleiradas. Antes havia mais o hábito de trepar às árvores. Não estranhei. E continuei a avançar. Conhecia um deles. Quando passei junto a eles parei para os cumprimentar. Era tão normal quanto subir às árvores. Não percebi como o resto que aconteceu de seguida terá sucedido. Mas aconteceu. Quando dei conta tinha uma arma branca encostada a mim. Mesmo com aquele calor todo senti o meu sangue todo ele gelado. As gotas de suor que corriam na minha cara não eram do calor. Naquela idade não se sua por causa do calor. Naquela idade não se devia passar por aquela experiência. Nem tudo na vida é traumático ou vivido enquanto tal. Mas há muitas experiências na vida que o parecem ser. Por exemplo, o próprio parto parece ser ele um momento traumático. Seja para a mãe, mas também para o recém nascido, e porventura para o pai, quer este esteja a assistir ou não. Provavelmente, alguns ficarão indignados com a escolha da palavra traumático para a situação do parto. Mas talvez seja importante nos podermos desapegar da valência da própria palavra para pensarmos na intensidade de toda aquela experiência. Desde o romper das águas, às contracções, até ao choro por vezes provocado no recém nascido. Mas por que razão estarei eu a escrever sobre trauma num site de Autismo? Se nos detivermos a escutar uma pessoa autista, seja criança, adolescente ou adulta, é comum ouvirmos relatos de experiências vividas ou percepcionadas como traumáticas. E grande parte delas vividas desde muito precoce. No caso das pessoas que acompanho na clínica é comum ter pessoas autistas que apenas foram diagnosticadas em adultas. Ou seja, passaram grande parte da sua vida sem terem conhecimento do seu diagnóstico e do porquê de muita coisa acontecer, seja dentro ou fora de si. Mas este desconhecimento não é apenas para o próprio, mas também para aqueles significativos que fazem parte da vida da pessoa, nomeadamente a família. Muitas das situações comportamentais verificadas em muitas crianças autistas são compreendidas como sendo birras ou comportamentos de oposição. E ainda que o possam ser em certa medida, mas também serão mais do que isso. Ou seja, se a criança tiver uma adesão inflexível a determinada rotina, algo que é comum encontrar no Espectro do Autismo, é esperado que quando essa rotina seja contrariada, a criança possa ficar mais desregulada a nível comportamental e emocional. A questão é que o adulto que está a interagir consigo vai fazer uma leitura de que a criança não quer cooperar mesmo que saiba fazer aquele comportamento. E como tal poderá ser entendida como sendo do contra ou até mesmo mal educada. Ou então se pensar em toda a gama de hipersensibilidades sensoriais verificadas nas pessoas autistas, podemos pensar em toda uma gama variada de experiências negativas ao longo da vida. Desde o vestir determinadas roupas e texturas, passando por determinados alimentos devido à sua textura, cor ou odor e que leva a criança a rejeitar completamente a sua ingestão na alimentação. Mas também aos ruídos, sejam aqueles mais intensos mas também todos os outros. E que leva a que muitas destas crianças se sintam desconfortáveis numa festa de aniversário, nomeadamente na sua, mas também no contexto Jardim de Infância, e depois mais tardiamente na escola e também no trabalho. Quantas situações estas pessoas autistas não relatam de experiências negativas e traumáticas relacionadas com a alimentação. Em que foram obrigadas a comer determinados alimentos porque ninguém parecia compreender a sua dificuldade. Ou ter de levar para a escola uma determinada roupa que faz parte da roupa do colégio e que faz com que a criança se sinta desconfortável de forma bastante significativa o dia inteiro. Ou então as situações de brincadeira no recreio da escola em que as brincadeiras das crianças com seis ou sete anos passa muito frequentemente por tocar ou agarrar. E muitas destas crianças têm hipersensibilidades tácteis. As relações interpessoais e sociais são uma outra área em que grande parte das situações se tornam traumáticas. Principalmente na entrada da puberdade e depois da adolescência. As relações tornam-se bastante mais complexas e a dificuldade sentida por estes jovens autistas aumenta exponencialmente. E adicionalmente é muito frequente muitas destas crianças, adolescentes e adultos autistas serem vitimas de bullying. Ou seja, serem vitimas ataques físicos ou de humilhação por parte dos colegas e de uma forma continuada ao longo do tempo. Ou seja, não é apenas a dificuldade sentida na compreensão de por que é que as pessoas não autistas fazem as coisas de forma tão diferente. É também serem vitimas dos seus comportamentos agressivos físicos e verbais. Ou então de forma mais dramática crianças, jovens e adultos autistas que são vitimas de abuso sexual e que muitas das vezes ocorrem sem que estes tenham consciência daquilo que lhes está a acontecer. A listagem de exemplos poderia continuar. E estou certo que se escutarem uma pessoa autista ela vos poderá dar o seu próprio testemunho em relação às suas próprias vivências, muitas delas traumáticas. E não é por acaso que nos últimos anos tem sido estudado com maior detalhe a existência conjunta da Perturbação de Stress Pós-Traumático associado à Perturbação do Espectro do Autismo. E se olharmos para os critérios de diagnóstico da Perturbação de Stress Pós-Traumático ficamos a pensar que a sua existência poderá fazer bastante sentido. Por exemplo, o primeiro critério refere a existência de uma exposição a um episódio concreto ou ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual vivida de diferentes formas. Se pensar por exemplo que na Perturbação do Espectro do Autismo há um compromisso no processamento da informação do próprio em relação a si mesmo, ao Outro e ao Mundo, podemos compreender que o próprio possa ter percepcionado uma determinada situação que tenha sido representada mentalmente como tendo vivenciado directamente o evento traumático. Ou então que tenha testemunhado o evento traumático ocorrido com outras pessoas. Aqui por exemplo, quantas vezes ouvimos pessoas autistas a reportarem situações observadas de terceiros e que são descritas como traumáticas, quando na realidade as coisas ocorreram de forma um pouco diferente. E no caso de se pensar na situação de ser exposta de forma repetida ou extrema a detalhes aversivos do evento traumático. Podemos pensar em todo um conjunto de exemplos acerca da vivência fantasiosa que muitos autistas fazem em relação a situações ficcionadas mas que são sentidas como sendo reais. E se pensarmos na presença de sintomas intrusivos associados ao evento traumático após a sua ocorrência, nomeadamente através de lembranças intrusivas. Haverá vários exemplos de pessoas autistas que rememoram experiências vividas na sua vida sentidas como traumáticas e que as recuperam de forma continuada. Como se estivessem a viver de forma igualmente traumática toda aquela situação de novo. Até mesmo situações que parecem acompanhadas de reacções dissociativas, também chamadas de flashbacks, nas quais a pessoa sente ou age como se o evento traumático estivesse a ocorrer novamente. E quantas vezes verificamos o evitamento persistente de estímulos associados ao evento traumático? Seja pelo evitamento ou esforço para evitar determinadas recordações, pensamentos ou sentimentos angustiantes! É verdade que o diagnóstico de Perturbação de Stress Pós-Traumático é bastante mais complexo do que aquilo descrito neste texto. No entanto, e mesmo que não seja uma situação de um diagnóstico destes associado ao de uma Perturbação doo Espectro do Autismo. Será certamente importante poder compreender a vivência traumática vivida de uma forma continuada em muitas das pessoas autistas ao longo da vida e que produzem um impacto devastador na sua qualidade de vida.


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