Transparências na relação terapêutica

Sexta-feira, dia 13 de março, passei a trabalhar a partir de casa. Nada de mais não fosse toda a situação que enquadrou a decisão. Fazer as consultas de psicologia por videoconferência não foi nenhum problema, até porque já as realizava no meu quotidiano há alguns anos. E como trabalho principalmente com adultos a situação ficou ainda mais facilitada. Foram muitos aqueles que disseram que também já utilizavam as ferramentas de comunicação à distância, fosse para fins profissionais ou de lazer. A própria Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) emitiu um guia para a intervenção profissional no período de confinamento. Ainda assim foi preciso ajudar as pessoas a usar da melhor forma a videoconferência enquanto ferramenta na psicoterapia para que esta pudesse continuar a ser uma mais valia no processo de mudança. Nomeadamente, as questões da confidencialidade e da qualidade da própria video-chamada foi importante de rever conjuntamente com as pessoas. Atendendo a que estavam a fazer a consulta a partir de sua própria casa, havia que garantir que nenhum familiar entrava a meio da consulta para dar um recado de última hora. Ao fim de alguns meses, a situação pandémica melhorou e começou a ser dadas orientações para voltarmos ao nosso local de trabalho habitual. Mais uma vez foi fornecido todo um conjunto de orientações, seja pelos Organismos de Saúde Pública, mas mais uma vez pela OPP para a realização da actividade profissional, no meu caso clinica. Foram muitas as pessoas que estavam em acompanhamento que disseram que preferiam continuar na modalidade de videoconferência. Não só porque se sentiam mais protegidos, mas também porque se tinham habituado ao uso daquela ferramenta. Apesar de tudo isso, houve pessoas que privilegiaram a consulta presencial. E havia também a questão das pessoas para realizar o processo de avaliação psicológica. Uma questão fundamental e que a própria OPP tinha alertado para o facto do mesmo não ser realizado à distância. Mas então, como é que tem sido realizar consultas de psicologia em que há a obrigatoriedade do uso de máscara, em alguns casos o uso do acrílico em cima da mesa a separaram fisicamente o terapeuta e o cliente, e a manutenção de uma distância minima de 2 metros. Os 50 minutos da sessão terapêutica passaram a ser vividos de forma mais ofegante, pela dificuldade que o uso ide máscara passou a trazer, para além do tempo mais quente de verão e o facto de não se ligar o ar condicionado. Mas também passou a ser impossível de ver o sorriso e todo um conjunto de expressões faciais. Ainda que os olhos também sejam uma forma de nos comunicarmos com o Outro.

Foram muitas as pessoas que viram abruptamente interrompidas as suas intervenções psicoterapeuticas em curso. Felizmente para os jovens e adultos a situação foi momentânea, até porque a resposta não se fez tardar com a introdução da videoconferência. Ainda assim, para os mais pequenos e para algumas outras situações pontuais a situação foi mais dramática e difícil de conceber uma resposta adequada. Mas não foi impossível, até porque a criatividade humana parece não ter limites e a própria partilha entre profissionais de saúde facilitou o processo de mudança. Mas não foi um processo isento de dificuldades, nomeadamente para determinados grupos específicos, nomeadamente dentro das Perturbações do Espectro do Autismo. Mas passado todas estas dificuldades as respostas foram sendo fornecidas com maior celeridade e qualidade. Mas todo este processo de consultas por videoconferência não estava isento de transformações no próprio processo terapêutico. E foram muitas as alterações que foram sendo sentidas e com contributos de parte a parte, terapeuta e cliente.


Por exemplo, a privacidade, algo bastante privilegiado para todos e principalmente no processo psicoterapêutico, passou a ter de ser gerido de uma outra forma com a passagem das consultas a serem realizadas na casa do terapeuta e do cliente. Talvez ao longo do processo psicoterapêutico o cliente já se teria perguntado como seriam algumas coisas na vida do seu terapeuta. É compreensível na medida em que se estabelece uma relação terapêutica entre ambos. "O Doutor está em sua casa, certo? Isso é o seu escritório?", perguntaram alguns, mesmo que a imagem de fundo estivesse desfocada, artefacto próprio destas novas ferramentas de comunicação. Mas também passou a ser possível observar todo um conjunto de rituais do próprio cliente e de novas mudanças que foram sendo operadas em tempo real. Os animas de estimação, como por exemplo os gatos, passaram a ser uma realidade na frente dos ecrãs a passearem-se e a requerer mimos dos seus respectivos donos. Ou então ouvir-se "João, quando acabares a consulta vai à rua levar o cão a passear!", "Mãe, não entres agora que eu estou em consulta!", "Doutor, peço desculpa mas os meus pais estão zangados um com o outro e estão a discutir!", "Carlos, reparei que tens estado em todas as consultas de pijama, apesar de estas serem realizadas às quatro da tarde!", "Doutor, peço desculpa de fazer a consulta na casa de banho, mas tenho toda a gente em casa e não tenho privacidade no meu quarto e além disso o wifi é melhor aqui do que no quintal.". Se pensarmos bem as possibilidades passaram a ser infinitas e com novas variáveis em jogo e que passaram a ser trazidas para o processo de mudança em curso.


Mas as questões nas consultas presenciais também têm sido muitos, e mais uma vez sentidas pelos terapeutas e os seus clientes. Desde a maior ou menor dificuldade em suportar a máscara durante a realização da consulta, ao desconforto de usar um acrílico a separar as duas pessoas na mesa. Com as crianças, aquelas acima dos 10 anos de idade em que é obrigatório o uso de máscara, são muitos os psicólogos que foram referindo a dificuldade em que estes mantivessem sempre a máscara colocada. Fosse pela sua dificuldade em tolerar a situação de desconforto e de não ter ferramentas internas para gerir a situação. Ou por exemplo, no caso de algumas pessoas no Espectro do Autismo, devido às suas questões das hipersensibilidades.


Mas ao nível da relação e neste caso especifico na relação terapêutica, houve algo bastante sentido como dificuldade, a ausência de uma expressão facial completa como estávamos habituados a lidar no nosso quotidiano. Mesmo a trabalhar com uma população autista, em que a mímica e expressão facial está muitas vezes comprometida, as micro expressões, ainda assim vão sendo um forma de se comunicar. E da mesma forma, a informação que muitas vezes as pessoas autistas parecem não estar a processar no rosto do terapeuta, devido às suas próprias características, também passou a ser sentido como falta. Claro que podemos sempre dizer o que estamos a sentir naquele momento e a contar determinada situação - "Estou triste, desolado.". Mas não é a mesma coisa que ouvir a mesma frase acompanhada da expressão facial do Outro. E o contrário também, principalmente quando o cliente contava com a informação vinda da expressão facial do terapeuta para compreender melhor a informação verbal.


O nosso rosto tem a capacidade única de comunicar de forma não-verbal. Esta comunicação depende da expressão emocional facial, que geralmente funciona como um sistema de alerta precoce e mostra como a pessoa pode se sentir no momento. Evidências empíricas confirmam que o feedback de nossas próprias expressões faciais modula as nossas experiências emocionais. Por exemplo, o sorrir de uma pessoa (estímulo) inicia directamente a actividade motora facial sorridente na "imitação facial" da outra pessoa. Isso pode facilitar uma resposta emocional (felicidade) e outras reações físicas, como excitação autonómica (sudorese, alterações nos batimentos cardíacos) e respostas motoras corporais (sorriso), chamadas de "imitação facial". Além de armazenar essa experiência somatossensorial-motora, o cérebro examina-a contra milhões de outras experiências de imitação facial que já experimentou anteriormente, o que leva à comunicação subtil e empatia não verbal individual.


É verdade que a nossa própria protecção e a dos nossos clientes, que na verdade não é apenas isso, até porque estaremos a proteger os nossos colegas e as suas respectivas famílias, assim como as pessoas com quem o nosso cliente contacta, é aquilo que é colocado em primeiro lugar - a segurança. No entanto, é fundamental ter em conta na relação terapêutica toda e qualquer introdução de novas situações, pois todas elas fazem parte do processo de mudança. Da mesma forma que reflectimos sobre o impacto que as medidas de confinamento e desconfinamento têm na relação das crianças com os colegas e com a Escola, do processo de teletrabalho na relação entre colegas e destes com a Organização e os próprios processos de trabalho. Também na relação terapêutica todas estas situações acabam por ser reflectidas e integradas no processo psicoterapêutico.


A máscara passou a ser uma realidade nos nossos dias, mas a máscara, olhada de uma perspectiva diferente, sempre esteve presente no nosso quotidiano desde sempre. A palavra máscara derivou da palavra romana persona. Esta é um arquétipo, que possui como função básica a adaptação da pessoa com o mundo externo. É uma função psíquica que ajuda na adaptação social, nos relacionamentos e nos intercâmbios entre as pessoas. A palavra persona é sem dúvida bastante adequada, até porque designava originalmente a máscara usada pelo actor no teatro Greco-Romano, significando o papel que o mesmo ia desempenhar. Esta simples máscara representa, aquilo que Jung referia de uma psique colectiva, uma máscara que aparente uma individualidade, e que procura convencer os outros e a si própria de que é uma individualidade, quando na realidade, não passa de um papel. Ideia que me transporta para o conceito de camuflagem social, um conceito cada vez mais falado no Espectro do Autismo. Em que as pessoas autistas, principalmente as raparigas e mulheres usam como forma de mascarar algumas das suas dificuldades na interacção e comunicação social.


Iremos certamente continuar a usar máscara, seja aquela cirurgia, social, psíquica, ou que uso sirva o propósito de camuflar em determinada situação. Da mesma forma que iremos precisar de reflectir sobre o impacto que tudo isto tem no processo e relação psicoterapêutica.

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