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Trabalhar disfarçado

Fiquem tranquilo que não irei fazer nenhum spoiler do Matrix Ressurections! Cada vez mais tem havido pessoas adultas a serem diagnosticadas com Perturbação do Espectro do Autismo. Algumas destas pessoas adultas constituíram família, têm filhos e um trabalho. Outras tantas estão a viver em casa dos seus pais, terminaram os seus estudos há algum tempo, e têm tido dificuldade em entrar e ou manter-se no mercado de trabalho. Algo que faz sentido atendendo a que sabemos que as pessoas autistas apresentam uma grande heterogeneidade e um nível de suporte diferente. Mas enganem-se aqueles que pensam que as pessoas autistas que têm uma família, filhos e um trabalho não sofrem. Porque sofrem. Tal como qualquer outra pessoa adulta naquilo que são os desafios sentidos no quotidiano. Mas acabam também por sofrer por todo um conjunto de outras condicionantes e que se prendem mais ou menos directamente com a sua condição. Para além de todo um conjunto de dificuldades e desafios que vão sendo colocados pela forma como as pessoas não autistas continuam a não os compreender, respeitar e aceitar na sua forma de ser.


E é neste sentido que me lembrei do titulo, Trabalhar disfarçado. São bastantes as pessoas autistas adultas e que estão a trabalhar, sabendo do seu diagnóstico, e que não querem ou sentem ser seguro falar do mesmo. E como tal, acabam por estar todos os dias a trabalhar de forma disfarçada, camuflada e com um impacto significativo e grande na sua vida. E se a pessoa autista adulta sente que tem todo um conjunto de dificuldades. As mesmas estarão ainda mais aumentadas porque a pessoa sente que não está tão capaz de estar relaxado ou com um outro foco.


E por que é que será benéfico falar acerca do seu diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo no local de trabalho? Ou como eu gosto de pensar, por que é que será importante falar acerca do seu perfil de funcionamento no local de trabalho?


Em boa parte porque a pessoa autista, tal como qualquer outra pessoa, terá uma forma de fazer as coisas, sejas as coisas na sua vida e no trabalho. E as coisas que tem de fazer no trabalho têm normalmente um determinado procedimento que pode ser mais ou menos adaptado. E como tal será importante que a pessoa autista sinta que a sua forma de fazer e o procedimento da coisa a fazer possa ser o mais adaptado possível. Ou seja, que haja um melhor fit possível. E para isso será importante poder falar do seu perfil de funcionamento para que a pessoa responsável pelo planeamento d trabalho possa ter conhecimento para poder operar essas transformações necessárias.


Mas não é apenas na realização das tarefas. Até porque no trabalho não se faz apenas tarefas. O local de trabalho tem outras pessoas com quem interagimos e é importante que as pessoas possam ter algum conhecimento de que determinadas formas de fazer as coisas não são para causar algum tipo de transtorno ou mal estar na relação entre colegas. Por exemplo, poder estar na estação de trabalho com fones não é porque se acha os colegas incómodos. Mas sim porque se tem uma hipersensibilidade auditiva. Ou usar os óculos com lentes escurecidas, não é porque se acha que é o Mr. Smith como na foto. Mas sim porque se tem uma hipersensibilidade visual. E no que diz respeito a não almoçar com os colegas não é porque não se preza a sua companhia. Mas porque o momento de refeição é já em si demasiado difícil para a pessoa autista. Ou então porque a pessoa necessita de ter aquele momento para si para poder descontrair da manhã já de si tão difícil. E porque ter estado a manhã inteira a trabalhar disfarçado (aka camuflagem social) leva a um maior dispêndio de energia, além de aumentar os níveis de ansiedade e desconforto.


E se pensarmos em qual a maior dificuldade sentida pelas pessoas autistas no trabalho, uma das principais é, como é que vou falar acerca da minha condição aos outros! Ou então, e se os outros perceberem algum dos meus comportamentos como sendo estranhos e se pensarem que pode ser autismo. Seja como for, este constante fluxo de pensamentos acerca de uma preocupação como estas e uma vivência de desfechos negativos possíveis leva a uma escala de sofrimento mental.


Quando na verdade todas estas situações anteriormente enumeradas poderia ser suprimidas com uma maior sensibilização do mercado de trabalho e das pessoas com responsabilidade de recrutamento e gestão dentro das Organizações. Não sei se está realidade estará ao nível da Matrix, mas questiono-me do porquê.


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