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Tirar um pato da cartola do coelho: nem tudo é o que parece! o limão também pertence ao truque

O titulo é grande. Talvez demasiado! E pode gerar alguma confusão. Tal como a ideia que por vezes se parece gerar de que tudo é do Espectro do Autismo. E se esse alguém foi ao PIN então de certeza que será diagnosticado com Perturbação do Espectro do Autismo. Faz-me lembrar "Alice no País das Maravilhas". Também ela caiu numa toca de coelho que a transporta para um lugar fantástico povoado por criaturas peculiares e antropomórficas, revelando uma lógica do absurdo, característica dos sonhos. Como acabará esta versão da história?

Desde o inicio do PIN e até mesmo anteriormente a isso, a equipa de diferentes técnicos sempre recebeu inúmeros pedidos para avaliação e acompanhamento de crianças ou jovens com determinadas características comportamentais e com um conjunto de queixas bastante variado mas por norma com uma grande intensidade e impacto no desenvolvimento e nos contextos onde a criança e o jovem estão (casa, escola, comunidade).


No caso dos pedidos para avaliação, em que ainda não é conhecido o diagnóstico, há quem se pergunte como é que "todas" as crianças e jovens que vão ao PIN acabam por ser diagnosticadas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA) ou Dificuldades Específicas e Aprendizagem (DAE)! Talvez não seja por acaso que os pais, professores e até mesmo outros técnicos façam a referenciação do nosso centro para esses mesmos casos. Os pais quando procuram informação na internet sobre aquilo que pensam se tratar no caso dos filhos encontram uma ligação (link) muito frequente para essas mesmas perturbações - perturbações do neurodesenvolvimento. O conjunto de queixas que observam nos filhos corresponde muito frequentemente a estes quadros clínicos. A sensibilidade dos professores e de outros técnicos fora do PIN acaba por caminhar no mesmo sentido. Há cada vez mais informação, sensibilização e formação sobre estas questões e como tal é esperado que os próprios consigam compreender melhor os sinais comportamentais observados nos seus alunos ou clientes.


Mas ainda assim a questão pode persistir - Será que todas as pessoas que recorrem ao PIN têm um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo? A resposta a esta questão é rápida - Não. Mas claro que a minha resposta pode ser colocada em causa por se tratar de uma opinião de alguém que trabalha no PIN. Mas para além disso há outras razões. Uma primeira por questões ética e deontológica. Em segundo, porque a nossa formação é contínua ao longo da vida e procuramos ir ao encontro da investigação de ponta mas também sermos nós próprios criadores de um pensamento inovador. E isto acontece porque continuamos todos os dias a questionar um saber instalado. Seja o saber da DSM ou da ICD ou de outras tendências. Não o fazemos de forma inconsequente ou irreflectida mas sim integrada num conjunto de saberes e de sensibilidades característico de um grupo heterogéneo.

Apresentação dos sintomas e de como o espectro do autismo (PEA) é conceptualizado e diagnosticado tem sido uma fonte de grande interesse para os médicos, psicólogos e outros técnicos. Até recentemente, acreditava-se que a PEA era causada por factores ambientais e ocorria apenas num subconjunto de crianças cujos pais eram frios e distantes. Além disso, a PEA foi vista como uma condição singular que não se sobrepunha a outras perturbações mentais graves, conforme codificada no DSM-IV. Com a evolução da investigação e do pensamento acerca do autismo, as visões e práticas de diagnóstico que se aplicam à PEA evoluíram substancialmente.


A PEA é agora considerada uma condição do neurodesenvolvimento e ao longo da vida. Igualmente importante, pesquisas emergentes têm demonstrando altas taxas de comorbilidade entre a PEA e outras perturbações mentais. Intervir precocemente tornou-se ainda mais importante, e o diagnóstico precoce da PEA passou a ser um foco principal. distúrbios de saúde mental. Como resultado, o desafio agora, é também que o clinico possa não apenas determinar se a PEA está presente, mas também se existem outras formas de psicopatologia.


Diversos estudos e a própria prática clinica tem demonstrado a existência de uma prevalência alta de outras perturbações neuropsiquiátricas. Por exemplo, a PHDA ocorre em cerca de 30% das situações, bem como a Perturbação Obsessivo-Compulsiva, enquanto que a Depressão e a Ansiedade aponta para os 46%. Vários estudos têm demonstrado a existência de valores diferentes. Mas uma coisa é certa, a percentagem de outras perturbações psiquiátricas associadas à Perturbação do Espectro do Autismo é grande.


Também por esta razão, o diagnóstico de PEA pode tornar-se mais difícil. Principalmente se estamos a avaliar um jovem ou um adulto em que o quadro sindromático aparece mais diluído. E ficamos sem perceber logo à partida se aquilo que melhor explica os comportamentos é o espectro do autismo, a ansiedade, depressão, determinado conjunto de episódios e acontecimentos de vida marcantes, ou outros. Para além disso, temos cada vez mais situações, em boa parte de raparigas e mulheres, em que as características do espectro do autismo aparecem mais "mascaradas" e com uma apresentação mais subtil e em parte longe daquilo que são as características expressas na DSM ou na ICD. O quadro torna-se mais complexo e a tarefa do clinico igualmente. Não é por acaso que no PIN a prática é desde sempre a partilha e a discussão clinica. Seja quando esta se realiza nos próprios núcleos de trabalho - PEA, PHDA ou DEA., semanalmente. Mas também na reunião clinica com todos os terapeutas em conjunto. Para além de tudo é bastante comum observarmos em intervalos ou outros momentos dois, três ou mais colegas a discutirem um caso clínico. Seja porque o trabalham em conjunto ou porque a área de especialização de um deles é dentro da área problemática a trabalhar.


Historicamente, muitos médicos e outros clínicos pensavam que as pessoas com deficiência intelectual ou PEA não seriam capazes de também desenvolver outras perturbações mentais, ou sintomas tais como comportamentos auto-lesivos que podem ser devidos a problemas psiquiátricos subjacentes e que antes eram atribuídos ao comprometimento intelectual. Tal como antes também se acreditava que a PEA ou a deficiência intelectual impossibilitava a presença de outras perturbações, o mesmo se passava na realização de mais avaliações diagnósticas de outras condições como possíveis causas para outros sintomas Embora agora seja amplamente aceite que outras perturbações psiquiátricas ocorrem com uma frequência alta entre pessoas com DI ou PEA, os clínicos e investigadores devem ter o cuidado de avaliar e determinar com precisão as causas subjacentes dos sintomas.


O diagnóstico diferencial torna-se cada vez mais complexo no caso de comorbilidades, e mais ainda quando as perturbações comórbidas têm sintomas sobrepostos. Por exemplo, os problemas com as competências sociais e a desatenção são comuns em crianças com PEA mas também com PHDA. E não é incomum para crianças com PEA primeiro diagnóstico ser de PHDA. No entanto, embora problemas de atenção são comuns em cada a natureza dos deficits de atenção naqueles com PEA apenas pode ser qualitativamente diferente dos deficits comuns em crianças com PHDA. A atenção hipervigilante e a distração com estímulos internos (pensamentos, sensações) são mais comuns na PEA, enquanto a PHDA é geralmente marcada por falta de foco devido a estímulos externos.


Assim como em pessoas com um desenvolvimento normativo, um histórico familiar de perturbações do humor, ansiedade ou PHDA aumentam o risco desses mesmas condições em pessoas com PEA. E ter um diagnóstico de PEA na família eleva ainda mais a probabilidade de desenvolver essas condições. Os investigadores sugerem a existência de factores familiares e genéticos compartilhados entre a PHDA e a PEA, observando uma alta co-ocorrência e marcadores bioquímicos frequentemente compartilhados. A frequência de um diagnóstico de depressão major num familiar directo parece estar correlacionado com o diagnóstico de PEA no filho comparativamente a outras crianças com diagnósticos de outras perturbações. O histórico familiar de problemas psiquiátricos é considerado um factor preditivo de sintomas psiquiátricos em pessoas com PEA. E como tal obter o histórico de perturbações psiquiátricas na família pode ajudar a informar a avaliação e contribuir para futuras investigações nos factores de risco para perturbações psiquiátricas concomitante com um diagnóstico de PEA.

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